19 setembro, 2013

invasão


não sei se é defeito de fabrico ou característica adquirida (posso imaginar onde e quando e porquê), mas é quando não tenho interlocutor, ou quando me parece impossível comunicar, ou quando a resposta tarda em chegar, ou quando devia ficar calada (por disciplina, por orgulho, por auto-estima) que as palavras se multiplicam e me enchem por dentro até transbordarem pela pele, pelos olhos, pelos dedos: palavras-vírus, hostis, invasoras, palavras-pedras, pesadas, duras, palavras-vivas, instáveis, frágeis. palavras demais para as conseguir deter a tempo. palavras demais para as conseguir conter cá dentro.



September - Earth, Wind & Fire



uma música cheia de boas energias para animar o regresso ao trabalho. banda sonora ideal para desligar o cérebro durante uns minutos e quem sabe até dançar... mas só se for com estilo, com muito estilo. como o Driss de "Amigos improváveis"

08 fevereiro, 2013

haiku


um pássaro caiu desamparado no meio da estrada.
um saco de plástico atravessou-a movido por uma alma emprestada.
um homem parou na berma, olhando o céu, à espera da próxima queda.


04 dezembro, 2012

Citação


A mansidão do amor não é pura quietude.

Amar não é estar enamorado.
Estar enamorado é um estado. E um estado sofre-se.
O amor é um acto, uma sucessão de actos em cadeia, uma guerra boa portanto.
O amor é inventivo até ao infinito...

D. António Couto


(des)encanto


como se fosse de vidro
partiu-se em silêncio na tua voz
e escorreu-me sobre as mãos,
líquido, impossível de deter.
ninguém o ouviu senão eu.

ou imaginei
nas vibrações mais subtis,
nas minúsculas bifurcações de sentido,
nas alterações microtonais da sonoridade de certas palavras.
talvez nunca tas tivesse ouvido antes
para poder analisar com precisão.
talvez tenha sido apenas um erro fortuito de audiação.

e, qual cristal-líquido suspenso sobre a esquina das horas,
frágil, desafi(n)ando a queda,
a tua voz
permaneça intacta.
tão simplesmente ilegível
como sempre foi.

ou a pena de não saber de cor todas cores da tua voz.



Lenine & Julieta Venegas - Miedo (Acústico MTV) (HD)




entre o medo e a coragem um passo de distância: arriscar.
o medo nunca sai do lugar: quem sai somos nós.



03 dezembro, 2012

tanto


medo de te perder nos dias, assim como que te encontrei:
por acaso.
medo do tempo e da distância:
tanto, tanta.
medo de ter medo, medo de confiar,
medo de dizer a verdade, medo de mentir,
medo de me dar, medo de fugir.





06 novembro, 2012

Matisyahu - Miracle (New Acoustic Version)



Uma música cheia de boa energia.
Ouvir de manhã, à tarde ou à noite. Aumentar o volume. Deixar contaminar os dias.


05 novembro, 2012

Dúvida


se me calar agora,
se não te disser nada,
se deixar falar em meu lugar todas as vozes
da polifonia imprevisível dos dias,
até a minha voz se tornar imperceptível,
um eco, um rumor,
pouco mais que nada.
se me calar agora,
será que vais ouvir
em cada palavra por dizer
o desejo em flor
que no meu corpo amadurece?

se te calares agora,
se não me disseres nada,
se o teu silêncio entrar
pelas portas e janelas
que a tua voz em mim abriu
de par em par,
e com ele o frio
e com ele os pássaros que bebem a sede
nos umbrais, nas veias, nos beirais.
se te calares agora,
será que vou saber
em cada palavra que não dizes
o segredo que o teu corpo
em cada gesto amanhece?

se a distância correr entre nós
como um rio,
e nos afastar por fora
e nos habitar por dentro:
lodo nos meus dedos,
peixes nos teus olhos.
será que o meu desejo se vai diluir,
nos peixes dos teus olhos rasos de água?
será que os teus gestos se vão desfazer em cinzas,
no lodo das minhas mãos fechadas?


19 outubro, 2012

Hoje...


Há bilhetes de comboio que são como cartas de alforria. Sabem a liberdade.


14 setembro, 2012

Haiku


arde um sol de fim de inverno.
o vento canta nas folhas.
o que dirá?




04 setembro, 2012

Ornatos Violeta - Nuvem



banda sonora do dia,
"hoje o tempo vai mudar"
hoje é o dia.


umut


o amanhã chegou: um dia normal,
a dor fantasma substituída por uma dor real.
estou só um pouco cansada:
ontem dormi mal.
o amanhã chegou: um dia desigual
à espera de se repetir infinitamente
até se tornar banal.
o amanhã chegou: é hoje.
olha de novo, vê melhor,
dispersa as nuvens que se condensam no olhar.
algum dia vais ter que deixar de viver por acaso
e arriscar:
que dia é hoje?
o que é que vais fazer, hoje, de propósito?
podes começar por algo pequeno,
aparentemente simples, aparentemente insignificante:
hoje é dia de desejar “bom dia”,
hoje é dia de almoçar com um amigo,
hoje é dia de aprender algo novo,
uma palavra, por exemplo: esperança,
hope, espoir, umut, hoop, håper, nadzieja, 期待, आशा, …
hoje é dia de ouvir a música do mundo à tua volta,
de olhos fechados, ouvir só,
hoje é dia de parar para agradecer,
hoje é dia de escrever um poema, ou uma canção,
hoje é o dia.


23 agosto, 2012

Radiohead - Lotus Flower




(para dançar quando não está ninguém a ver)

Andanças 2012 - Ratoeira - Celorico da Beira















enquanto os pés descansam da dança os olhos aproveitam a paisagem.
[Ratoeira, 1 a 5 de Agosto de 2012]

13 junho, 2012

(in)gestão permanente


quando todos os dias tem mais horas do que deveriam ter, pergunto-me:
a que dias por vir estarei eu a roubar estas horas?


28 maio, 2012

I Wish I Knew How It Feels To Be Free (Live) - Nina Simone



Porque há coisas que não podem ser explicadas. um saber que nos atravessa, mas que não nos pertence, que não conquistamos, realidade experimentada que não pode ser contida nas palavras limitadas que usamos: liberdade, amor, verdade, justiça,...

"the one who knows does not say, the one who says does not know" (Anthony de Mello)

20 maio, 2012

Io guardo te


às vezes acontece. alguém que passa e diz algo inesperado e ao qual não conseguimos ficar indiferentes. alguém que passa por um instante e não se detém: io guardo te. e sem porquê, as palavras repetem-se dentro de nós, dos sentidos à inteligência, da inteligência ao coração, à procura de um sentido. io guardo te. é com um olhar que tudo começa, embora pareça que nada acontece. eu olho para ti. tu olhas para mim. quantas vezes paramos para olhar com olhos de ver? quantas vezes nos deixamos olhar sem medos, nem máscaras?

[é engraçada a coincidência do guardo italiano com o guardo português. duas palavras iguais com significados aparentemente diferentes. há olhares superficiais que não guardam nada do que vêem... mas há olhares que se deixam tocar,  que se comprometem, que guardam algo do que vêem, sem qualquer ilusão de o poderem conter ou deter. imagino que os pais também guardam os filhos dentro do olhar, mesmo quando perdem a ilusão de os poderem proteger.]


24 março, 2012

(In)utilidade


"A cada coisa o seu tempo".
Para ser feliz é preciso estarmos no tempo presente, concentrados, inteiros, capazes de respirar fundo, capazes de sentir o pulsar da vida por dentro, na multidão ou no deserto, no trabalho ou no descanso. Encontrar em cada tempo o seu sentido.
É importante cultivar a inutilidade. Parar. Estar. Contemplar. Ouvir. Respirar. Contrariar a tendência instalada do fazer, fazer, fazer... Passamos tanto tempo ocupados a fazer que às vezes parece que nos esquecemos de passar tempo a ser.

Aqui fica um elogio à inutilidade:


15 fevereiro, 2012

Jeff Buckley - I know It's over



'Cause tonight is just like any other night