13 julho, 2010

Jordi Savall - yo me enamore de un ayre


Para quem não o conhece aqui fica Jordi Savall (com El Maloumi e Pedro Estevan, entre outros companheiros de viagem).

Instruções: fechar os olhos e usar a imaginação... (a música é um dos melhores meios de transporte para viajar).


Viajar...


em tempos de crise passam-se as férias em casa... mas há viagens que se podem fazer sem sair do lugar. um bom livro pode levar-nos a qualquer lugar... seja ele um livro de viagens, um romance, um livro de ficção científica ou um policial. um bom concerto pode fazer-nos viajar no espaço e no tempo, por terras estranhas, por praças e desertos, por cores e sabores até então desconhecidos, do oriente ao ocidente, das águas gélidas do norte aos quentes ritmos africanos...
e tudo isto por muito pouco dinheiro: nas bibliotecas municipais requisitam-se livros de graça; no verão há festivais de música para todos os gostos a preços para todos os bolsos.
(e se não quisermos mesmo "sair do lugar" podemos sempre viajar... na internet.)

na minha última viagem fui de Marrocos à Turquia, da Galiza à Alexandria, uma viagem no tempo e no espaço conduzida por Jordi Savall, Driss El Maloumi, Pedro Estevan e Dimitris Psonis. Para quem não esteve lá, mas gostaria de ter estado, basta esperar pela próxima visita de Jordi Savall (desta vez com os Hespèrion XXI) à Casa da Música no dia 6 de Novembro.

10 julho, 2010

Hoje


Hoje começa o Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim com nada mais nada menos do que Jordi Savall (e companhia) num concerto de Músicas antigas e Músicas do mundo que promete ser um encontro entre Oriente e Ocidente, porque na diversidade está a nossa maior riqueza e a música é sempre um meio privilegiado para o diálogo entre os povos.

O concerto de hoje está esgotado... (e eu vou estar lá :-) mas vale a pena estarem atentos ao programa e passarem por lá para ouvir boa música a preços reduzidos depois de uma boa tarde de praia (de preferência num dia em que não esteja vento e nevoeiro como) e de um banho no mar (se tiverem coragem de enfrentar a temperatura do mar da Póvoa...)



06 julho, 2010

Pérolas aos Poucos - Zé Miguel Wisnik


Hoje faço 28 anos. O ano passou por mim a correr, com a intensidade dos anos de mudança: mudança de direcção, sabor de coisas novas, mas familiares cá dentro, como aquelas pessoas que encontramos e parece que conhecemos há muito, ou aquelas que raramente vemos, mas parece que nunca saíram de perto de nós.
as escolhas são difíceis, porque abrem umas portas, mas fecham outras e nunca temos certezas absolutas. só podemos avaliá-las pelos frutos, pela luz nova que trazem à vida, pela felicidade que nos dão apesar do cansaço e das dificuldades, pela paz interior que sentimos apesar do futuro ser tão incerto como sempre foi...
os aniversários são geralmente dias em que as pessoas nos oferecem coisas (espero que poucas, porque já tenho tudo o que preciso), mas dei por mim a pensar no que terei eu oferecido às pessoas ao longo deste ano, se estive atenta ao que as pessoas precisavam de mim, se estive presente na vida das pessoas que hoje se lembraram de mim ou se andei demasiado ocupada com as minhas coisas.
que presente é que damos aos outros todos dias? não falo dos presentes embrulhados com laço e tudo, mas do dia de hoje, do tempo presente, da presença que temos no tempo presente das pessoas, do espaço-tempo que ocupamos, roubamos, oferecemos e de como o fazemos.
lembrei-me de uma canção que descobri há pouco tempo e que gosto muito: "Pérolas aos poucos". Será que damos sempre pérolas aos outros, ou seja, sempre o melhor de nós? Será que sentimos que as pérolas que damos se perdem? Eu acho que aquilo que dou é sempre muito pouco, vem do pouco que eu sou, mas acredito que nada daquilo que se dá, nada daquilo que se partilha se perde. só se perdem as pérolas que guardamos para nós e não são úteis a ninguém.






05 julho, 2010

o encontro

quando nos aproximámos ficamos mais vulneráveis. subitamente o que outro diz ou faz pode ferir-nos em lugares até ali intocáveis. e pode até fazê-lo sem intenção, mas a dor não é menor por isso. por outro lado, se nos fecharmos para evitar a dor evitámos também todas as alegrias e surpresas do encontro. toda a luz e toda a sombra. tudo o que de bom e mau se aprende sobre os outros e sobre nós. evitar sentir é evitar viver. evitar viver é evitar ser. somos aquilo que somos com os outros. somos aquilo que somos sem os outros. somos aquilo que somos para os outros. somos aquilo que os outros são em nós. não podemos evitá-los sem nos evitarmos a nós mesmos. como explicam Daniel Faria e Rainer Maria Rilke para se ser grande há que ser frágil (quando digo grande entenda-se inteiro, íntegro, verdadeiro, belo).


A tua pequenez é enorme.
Nada te pode vencer.
Não recuses nenhum dos teus limites, só eles dizem a grandeza do que tens.

Daniel Faria



Entrega sempre a tua beleza
sem cálculo, sem palavras.
Calas-te. E ela diz por ti: eu sou.
E com mil sentidos chega,
chega finalmente a cada um.

Rainer Maria Rilke,
in “O Livro das Imagens"


29 junho, 2010

"Eu sou o amor"



um filme que é um lugar fora do tempo. um espaço que se abre sobre o silêncio. também (mas não só) porque a banda sonora e o silêncio se conjugam na perfeição, como raramente se vê. raramente se vê o silêncio tão bem filmado.
Tilda Swinton é espantosa na contensão, no espanto, no abandono de certos gestos, e é impossível não respirar a sua personagem na sua viagem caleidoscópica, viagem interior vista de fora para dentro e de dentro para fora.
todo o filme vive desse estado de contensão-explosão permanente, que atravessa a personagem da realidade aos sonhos, da rotina à acção. filme em câmara lenta prestes a ruir, como se a beleza não pudesse existir mais do que alguns instantes, a cor sobre o branco, a luz sobre a pele, a ordem sobre o caos, o silêncio, o silêncio, o silêncio. no fim o silêncio.




imagem retirada daqui


Pensamento II


a verdade mais dolorosa é melhor que a mentira mais piedosa.


Pensamento I


às vezes enganámo-nos a nós próprios.
e no fundo sabemos que estamos a enganar-nos.
mas queríamos tanto estar enganados.
(ou seja, não estar enganados).


21 junho, 2010

quase...

depois de três semanas sem parar, tempo para arrumar...




o quarto.



(e a cabeça)




e também tempo para ler,
tempo para estudar,
tempo para parar,
tempo para sair,
tempo para...
descansar!



10 junho, 2010

sem título

na fronteira
de todos os pensamentos nenhum.
vazio, imóvel, frio,
em cada palavra,
em cada gesto te desafio.
toque, sopro, espaço,
em cada dia me deito,
em cada hora me esqueço,
escondo, minto, nego,
corro, fujo, faço.

07 junho, 2010

Conjugar o verbo acolher


é bom ter amigos. pessoas com quem se está bem, com se pode ser quem se é... às vezes mostramos o que não somos para não mostrarmos o que somos e isso deixa-nos sempre menores, insatisfeitos, porque a felicidade está na integridade, em sermos nós em todas as circunstâncias por mais chato ou difícil que isso às vezes pareça.
é bom abrir o coração a quem chega, sem falsas expectativas, respeitando a verdade do outro e a nossa própria verdade, percebendo que a felicidade está mais em acolher do que em receber. são tantas as vezes em que nos aproximamos ansiosos por receber, angustiados por concretizar os nossos desejos e os nossos planos independentemente da vontade e da situação do outro.
lá no fundo, precisamos todos, todos os dias, de nos sentirmos aceites naquilo que somos, não mais, nem menos, inteiros, com as nossas qualidades e defeitos. Se começássemos a fazê-lo hoje com as pessoas que conhecemos ou que encontramos no caminho a vida não seria diferente?

Conjugar o verbo estar


às vezes ficamos tão preocupados com o não cumprimento dos nossos planos que não aproveitamos o momento, nem as pessoas que temos ao nosso lado.
depois o dia passa, a noite vem, passa outro dia e outra noite e com o passar do tempo as coisas já não parecem tão terríveis, porque não o são de facto.
é importante relativizar e rirmo-nos de nós próprias, da nossa impaciência, da nossa urgência, quando aquilo que podemos de facto controlar à nossa volta é ínfimo...

27 maio, 2010

depois da tarde


palavras suspensas na garganta
por um fio invisível, rente à língua,
à míngua de água. fome.
palavras suspensas no ar
como frutos em queda entre o sonho e o chão,
Palavras suspensas no verbo
cair. [dizer, silenciar, mudar, partir]
palavras suspensas na vontade:
[medo] de te [ser]
palavras suspensas nas mentiras que tecemos.
viscosas. mãos. fundo.


24 maio, 2010

a tarde


a tua pele de sal.
a tua boca de mar.
o teu corpo de areia e de sol.


a tua boca de sal.
a tua boca de sal.
a tua boca de sal.


22 maio, 2010

leis da física



o calor dilata os corpos.


o calor dilata os dias...





16 maio, 2010

espera(r)


esperar irrita. esperar custa. às vezes até dói. às vezes parece inglório, um desperdício de tempo, parece sinónimo de estar parado... mas não é. esperar é respeitar o tempo dos outros. esperar é respeitar o nosso próprio tempo. esperar é respeitar o tempo da vida, que nem sempre coincide com o nosso. é um óptimo exercício para se descobrir o que se quer, porque os desejos não aguentam esperar e vão caindo de maduros (ou de verdes: há desejos que nunca chegam a amadurecer, nem o merecem) até sobrarem só os desejos que darão bons frutos, desejos construtivos que fazem parte do que se quer e não daquilo que apetece e que está sempre a mudar.

esperar é a capacidade dos que ainda são capazes de viver com esperança, dos que ainda são capazes de acreditar no mundo, nas pessoas, na beleza, na verdade, na justiça,...

esperar está para a acção como o silêncio para a música (ou para a palavra) e já se sabe que não há boa música sem silêncio.


20 abril, 2010


silêncio.
pudesse calar-te às vezes,
ou fazer-te falar,
quando quero,
quando expiro,
quando não sei dizer-te
que preciso.
(nunca sei dizer-te nada).



espera.
dos dias roubados
ao silêncio.
de esperança perdida
na azáfama dos dias roubados
ao silêncio.
estas brancas palavras de esperança perdida
na azáfama dos dias roubados
ao silêncio.



foz.
do outro lado do mar.
do outro lado do rio.
do outro lado de nós.


19 março, 2010

Espera


as contrariedades testam a persistência e fortalecem o espírito?


ah! então é isso. já me sinto mais musculosa.



29 janeiro, 2010

Cinzas



Estes são os dias brancos
em que me esqueço
e o sal queima à nascença o teu desejo
filigrana de cinzas nos meus dedos.

Não era tarde
se viesses perder-me agora
e aos teus passos ruíssem as paredes
e o vento frio por dentro me habitasse.

Não era tarde, era a hora
tão esperada e por isso já esquecida,
de quem sempre espera
e nunca se demora.

Se tu soubesses (se o saber bastasse)
as nuvens que me enchem os pulmões
e que de respirar meu corpo amadurece
e cai desamparado nos umbrais.


04 janeiro, 2010

às vezes

às vezes faz-me falta ser conhecida.
para não ter que ser outra coisa qualquer senão ser.

27 novembro, 2009

inspiro.
dentro desse instante quase,
dentro do desejo à solta
prestes a gritar.
não sou quem esperas,
vai-te embora, vai à volta,
não sou quem me demoras.

um segundo.
é o tempo que tenho para te perder.
é o tempo de te respirar por dentro.
é o tempo de uma porta a bater.
é o tempo de cair na armadilha,
tenho frio, tenho chuva, tenho medo.
é o barulho de um carro a bater de frente.
é uma parede branca ao relento.
é um semáforo intermitente.

06 outubro, 2009

sede


chuva
e essa poeira lentíssima que vem com ela,
como um lençol invisível que cobre os ombros de todos
de triteza e de cinzento.

chuva
torrencial
de vazio e de desejo,
diluindo a visão e a memória.

terra
quente e muda de sede,
poros dilatados, e vales, rios e bocas
abertos ao céu, língua áspera de fome,
se mãos tivesse das nuvens beberia
sofregamente.

29 setembro, 2009

perspectiva






paciência é procurar paz no meio de tudo o que acontece

e não se espera
e de tudo o que se espera

e não acontece.






10 setembro, 2009

regresso






era uma vez uma noite,

um encontro tantas vezes adiado,

o silêncio.

entre todas as vozes a tua,

para todas as perguntas: liberdade.




04 setembro, 2009

antes de sair


quando de repente o que era certo deixa de ser e as desventuras se sucedem e parece que não há chão nem direcção e o tempo desgasta a realidade porque as coisas continuam a acontecer aleatoriamente embora se gostasse de ter o condão de as fazer parar, é porque a frase é muito longa e me esqueci de respirar.
a todo o momento acontecem coisas que não se conseguem controlar, a vida acontece e é imprevisível e inesperada, angustiante e irrelevante na medida em que não há nada a fazer a não ser continuar.
ou então aproveitar um fim-de-semana fora e parar. arrefecer o pensamento, deixar correr cá fora o que está dentro, deixar passar por dentro o tempo lento de estar fora do sítio, fora de casa, fora do tempo, como se houvesse, às vezes, um tempo fora do tempo. onde me sinta em casa. um tempo, fora do tempo, fora de casa, onde me sinta em casa.

14 julho, 2009

ser(á) outro




dedilho nos meus dedos
a tua (im)paciência.

aspiro à integridade como a um balão de ar quente
que já partiu e que vejo sempre ao longe,
um ponto minúsculo no horizonte.

dedilho nos meus dedos
a noite e a verdade.
consagro inúteis o desejo e a vontade.

substraio o resto ao produto do divisor pelo quociente
e deito fora o excesso de dividendo.
sobra a verdade que ninguém quer, só eu,
que não me serve de tão pequena e vã,
mas emagreço só para lhe servir
e de todos me afasto e me despeço.


16 junho, 2009

sono


sonâmbula a noite
nos meus dedos.
dedilho as horas
na tua pele, pêlos,
ossos fundos no sono
que respiras,
longínquo.





27 maio, 2009

Sara Tavares - Ponto de Luz


ouve-se bem nestes dias...
ouve-se bem todos os dias.
faz sempre falta mais um ponto de luz.

26 maio, 2009

re(in)spiração

em dias como o de hoje, não sei se é o céu, se é o calor, se é um campo qualquer de passagem na janela do carro (a acordar qualquer coisa na memória), só sei que inspiro (como que dizendo que é algo que me vem de fora para dentro) e/ou expiro (como que dizendo que é alguma coisa que me vem de dentro para fora) essa vontade de caminhar de mochila às costas, outra vez, como se não houvesse tempo.

confissões


não escrevo porque não tenho nada a dizer... ou porque não sei escrever, ou porque o tempo me pede contas de tudo o que não faço e de tudo o que faço e não devia fazer porque devia estar a fazer outra coisa qualquer (que provavelmente não me apetece fazer).
não escrevo porque tavez me encontre e talvez me diga o que não quero saber.
não escrevo porque me preocupo e pré-ocupar-me ocupa-me todo o tempo que eu poderia ter para escrever. preocupo-me com as aulas que correm menos bem e com as aulas que correm mesmo mal e com as aulas que correm mais ou menos. preocupo-me com os papéis que tenho que preencher e com os planos que tenho que fazer e com as decisões que se aproximam não como se eu as decidisse, mas como se elas se antecipassem e me cobrassem resposta: agora! preocupo-me, não, chateio-me, chateio-me com os livros que compro e que não consigo ler, ou porque nem começo ou porque me esqueço ou porque desisto de acabar. chateio-me se falo alto, se sou impaciente, se chego atrasada, se sou criticada, se não arranjo tempo para estar, se prefiro mentir a enfrentar, se prefiro fugir a parecer menor. chateio-me se não sei parar, se não sei agradecer, se não sei rezar, se não digo bom dia, se não me comprometo, se não sou útil quando podia ser, se não sou livre (tanto quanto podia ser).


chateio-me se me chateio comigo mesma demasiadas vezes sobre demasiadas coisas desnecessariamente.


(isto é nitidamente falta de sono)

29 abril, 2009

Fortaleza

Há portas que temos que atravessar sozinhos. Para além do medo, para além do tempo, para além de nós mesmos e das nossas defesas.
Há portas através das quais nos dividimos, e outras que nos deixam mais inteiros.

Esta foi a primeira porta que atravessamos na Peregrinação dos centros. Da qual voltamos sozinhos, mas unidos a todos os que lá estiveram por um mesmo ideal. E de repente já não estamos tão sozinhos como quando partimos.




Fortaleza de Almeida, século XVII
fotografia retirada daqui

27 março, 2009

Férias


último dia de aulas. alunos irrequietos, ansiosos, divertidos, faladores, impacientes. professores cansados, inquietos, animados, relaxados...

Todos ansiosos por ficarem de férias da escola e uns dos outros, porque no fundo, no fundo, gostamos muito uns dos outros, mas chega um dia em que já não nos podemos ver à frente e precisamos todos (professores e alunos) de férias uns dos outros para respirar e recomeçar com nova energia.

Balanço final: tudo o que é bom dá muito trabalho, cansa, ocupa tempo e espaço mental (mesmo quando se está fora da escola)... mas quando é bom (quando se gosta), é mesmo muito bom.

06 fevereiro, 2009

Histórias do Sul


quase uma semana sem net. o suficiente para me sentir desligada de uma parte do mundo. agora que estou de volta aproveito para recomendar que acompanhem as histórias do sul, uma aventura partilhada, uma viagem que acaba de começar e que terminará no dia 1 de Junho na casa da música com um concerto (às 15h) para míudos (e graúdos que ainda não se esqueceram de sonhar).




29 janeiro, 2009

mundo, liberdade e agricultura




Ontem finalmente me decidi a podar o meu bonsai...
(Não tirei fotografias antes e depois, ou seja, esta imagem não é do meu bonsai...)

A questão é: não sei como podar um bonsai. Deduzi que devia tentar orientar o crescimento dos ramos preservando uma imagem global que me parecesse natural. Não sei se o que fiz está bem ou se está mal, mas se a árvore morrer entretanto acho que vou ter a minha resposta. Se ela sobreviver fico na mesma: não sei se foi porque eu podei bem, ou se foi o bonsai que resistiu à agressão por teimosia. (uma coisa é certa, o bonsai está a durar mais tempo do que todos os peixes que me ofereceram antes dele)

Segundo me lembro do que já li, os ramos do bonsai não devem cruzar-se uns com os outros, devem ter espaço para crescer de forma confortável. Depois há aquela questão do tronco fazer um S... mas isso está nitidamente fora do meu alcance!

É difícil cortar ramos, nunca sabemos se estamos a fazer a opção certa; é didícil cortar com o supérfluo e deixar só o que é essencial, embora depois de cortar pareça óbvio que viver com menos nos dá mais liberdade de movimento e até de pensamento. É difícil dizer não, quando se é constantemente bombardeado com opções, necessidades, imposições. É difícil resistir e manter a velocidade escolhida quando a toda a volta o mundo se movimenta ao dobro da velocidade, incitando ao passar: faz mais isto e mais aquilo, olha esta oportunidade, vira ali, corre acolá.

[imagem daqui]



23 janeiro, 2009

outros blogs

hoje aproveito também para fazer publicidade a um blog que descobri há pouco. já há livros do autor espalhados por aí. é um blog altamente recomendável, escrito com sentido de humor, opiniões interessantes e interpelantes. a actualização é praticamente diária, ou seja, todos os dias há coisas novas:


seth's blog



David fonseca - The Raging Light - Sudoeste 2008


uma das minhas preferidas...

David Fonseca - Song to the Siren / Who Are U? - Sudoeste 08


Eu não estive no Sudoeste, estive ontem no Coliseu do Porto e foi muito bom!!! Aqui ficam 3 videos do Sudoeste para lembrar a noite de ontem e para aqueles que não tem visto o que o litle david boy anda a fazer :-)

das palavras e dos actos

[O Presidente americano Barack Obama decretou hoje o encerramento do centro de detenção de Guantánamo dentro de um ano e ordenou o encerramento, o mais depressa possível, dos outros centros de detenção que a CIA mantém actualmente no estrangeiro para suspeitos de terrorismo. Decretou ainda que os EUA respeitem as convenções de Genebra no modo de actuação com prisioneiros de guerra.

“Aquilo que eu faço agora, não é apenas o cumprimento das promessas que fiz durante a campanha eleitoral, mas também, acredito, uma concepção que remonta aos pais fundadores (dos Estados Unidos) segundo os quais nós esperamos respeitar as normas fundamentais de comportamento, não apenas quando isso for fácil, mas igualmente quando é difícil”]

notícia completa no Público

Bons discursos que se traduzem em actos ajudam a acreditar de novo na Política. Ainda que os sistemas humanos não traduzam nunca a perfeição dos ideais vale sempre a pena lutar para melhorar o que está mal, mesmo quando é difícil, ou principalmente quando é difícil. Muito se tem falado sobre ele nos últimos meses. Barak Obama conseguiu com o seu carisma transmitir a coragem e a esperança que os seus eleitores ansiavam, mas agora é que as palavras se vão escrever na história. Ao contrário da maioria, presidentes de países com os EUA tem o poder de escrever directamente na história do mundo e de afectar milhares de pessoa, para o bem e para o mal. Acredito que pode ser mesmo para o bem. Precisamos de boas notícias.


21 janeiro, 2009

Senhora do Almurtão


Faz lembrar outros tempos... os bons velhos tempos (que afinal não foram assim há tanto tempo). Um dia destes ensino esta aos míudos...

as aulas



foto retirada daqui



Introdução à flauta de bisel...
muito motivador para os alunos, difícil para quem os ouve...



foto retirada daqui


Às vezes uma sala é pequena demais para tanta desafinação, principalmente quando querem experimentar todos ao mesmo tempo. Haja paciência e sentido de humor!


09 janeiro, 2009

a neve improvável





Dizem que a última vez que nevou cá foi há 25 anos, teria eu quase 2 anos.
Já não me lembrava de ver nevar, mas hoje vi. Saí com os míudos da sala e viemos para o recreio ver. A maior parte nunca tinha visto nevar por isso o entusiasmo foi geral.
- Professora, parece que é Natal!
Porque os postais de Natal tem uma neve que nunca vemos cá. Hoje estivemos todos no recreio, dentro de um desses postais de Natal.















Infelizmente não tinha máquina fotográfica comigo, por isso só tirei fotografias quando cheguei a casa e já tinha parado de nevar. A neve improvável fotografada para a posteridade, porque não se sabe quando será a próxima vez.
































08 janeiro, 2009

Oasis - Morning Glory - Berlin 2002


"need a litle time to wake up"

07 janeiro, 2009

Ano novo


Não tenho propósitos de ano novo. Não pretendo mudar muitas coisas. Só algumas. Umas de cada vez. Não tenho pressa. Prefiro pensar o novo ano um dia de cada vez. Hoje onde é que me encontrei? Onde é que me perdi? Quem é que eu ajudei e quem é que me ajudou? Hoje qual é a melhor coisa que posso fazer com aquilo que eu tenho nas mãos: com este tempo, com estas pessoas, com estes sentimentos, com estes medos, com estes desejos, com estas dificuldades, com este dinheiro, com esta oportunidade?

11 dezembro, 2008


O tempo mostra-me que as horas de aulas que estão no horário se multiplicam fora do horário: horas para preparar as aulas, horas para corrigir trabalhos, horas para escrever planificações e avaliações, horas para reuniões, horas para procurar e comprar material, horas para ir e para voltar. Acaba por sobrar pouco tempo, pouco mas que ainda chega para os ensaios coro, os ensaios da festa de natal da catequese, o atelier de escrita criativa, tempo para ouvir "Dreams in colour" do David Fonseca...













tempo para ler os "Contos de Beedle o Bardo" de J. K. Rowling...
















tempo para apreciar as cores do poente quando volto para casa, tempo para estar em silêncio, tempo para beber chocolate quente, tempo para almoços e jantares de natal, tempo para passear com a família.
Só não sobra tempo para arrumar o quarto... estranho...


David Fonseca - Kiss me, Oh kiss me


Como se faz uma canção? Este vídeo dava uma boa aula:)

20 novembro, 2008

Entre les murs - A turma


Numa época em que tanto se fala e se discute o ensino em Portugal, recomenda-se um filme francês que ganhou a Palma de Ouro em Cannes... Entre les murs
Um documentário ficcional: uma turma multiétnica e um professor de francês em eterna negociação, tentando coordenar regras e sentimentos, ensino e diálogo, liberdade e disciplina. Um retrato fascinante dos desafios e das dificuldades que se vivem nas salas de aula todos os dias.

13 novembro, 2008

David Fonseca feat Rita Redshoes - Hold Still


o sinal


gosto das cores do outono. apetece-me sair de casa de máquina em punho e fotografar as árvores do caminho, uma a uma, como quem recorta o instante suspenso de uma folha prestes a cair e cola essa imagem na retina e na memória até outro tempo e outra luz a apagar. gosto das cores e dos cheiros da terra, e da geada anunciando a branco um inverno próximo. gosto do ar muito frio na cara, das iluminações de natal rasgando a noite, do fumo e do sabor das castanhas assadas na rua... porque sinto em todas as coisas a esperança tangível de um amor anunciado.



imagem daqui


07 novembro, 2008

silencio


podia dizer-te com palavras
coisas normais dos dias e das pedras,
coisas do andar e do fazer.
podia dizer-te com palavras
coisas simples e claras,
coisas do sentir e do ser.
mas não direi nada
que não saibas já,
por isso calo todas as palavras
e procuro dentro de mim a tua voz.

24 outubro, 2008

Joni Mitchell - California (BBC)


a paz não é só um sonho. daqui não conseguirei, talvez, lutar pela paz do outro lado do mundo, mas vale a pena perceber se onde estou construo paz ou causo discórdia e desunião. onde me sinto em paz? como transmitir paz? ser quem se é dá paz interior, aceitar os outros como são deve dar-lhes paz a eles... digo eu... será?

Provérbio chinês




"Para que possas beber vinho num copo que está cheio de chá,
é necessário primeiro tirar o chá. Só então poderás servir e beber o vinho."



fotografia de Ernest von Rosen, www.amgmedia.com

do fazer, do estar e do sonhar


Penso muitas vezes e repito-o para mim própria: não há tarefas menores. Depois na prática nem sempre me lembro disso. Hoje volto a esta ideia, com mais vontade ainda de a pôr em prática. Se a cada pequena tarefa, se em cada pessoa que encontro colocar toda a minha dedicação, cada encontro e cada tarefa ganha um novo sentido. Eu realizo-me mais porque estou presente naquilo que estou a fazer, sou mais feliz e faço mais felizes os outros. Não quero com isto dizer que devo viver prisioneira do presente. Posso estar dedicada ao presente e elevar os olhos para o futuro, com esperança, com confiança, posso e devo sonhar mais alto e melhor. Aliás se viver bem o presente, com as suas dificuldades e sofrimentos, com as suas alegrias e oportunidades, se levar a vida a sério e lhe procurar sentido, vou com certeza sonhar melhor.

11 outubro, 2008

a cada coisa o seu tempo


Hoje é Dia Mundial dos Cuidados Paliativos, por isso recomendo:

- uma visita ao site da Associação Portuguesa dos Cuidados Paliativos:

http://www.apcp.com.pt/

- a crónica de ontem da Laurinda Alves:

http://laurindaalves.blogs.sapo.pt/143383.html

- e já agora uma pequena entrevista da Laurinda Alves ao Dr. Daniel Serrão:

http://videos.sapo.pt/ZiDcVPzBqoAmulonel2G

A informação e a consciencialização são essenciais para que cada vez mais se reivindiquem direitos essenciais de doentes, famílias e até de profissionais de saúde. É preciso que a morte seja integrada com naturalidade na vida, que se respeite o tempo de morrer porque para morrer também é preciso tempo. E durante esse tempo há muito para fazer, muito para aprender, muito para viver.

08 outubro, 2008

do tempo que demoro chegar a casa


nessas horas em que me sobram palavras
não te digo nenhuma,
antes cerro os dentes,
sustenho a respiração
e fico ali imóvel
perante o desenrolar invisível
desse fio, desse rio, desse mar de
palavras infindáveis e mudas
que não te direi.
fico ali como fonte inesgotável,
guardando a água para o lado de dentro
(até me constipar de desesperança):
não há palavras que me sirvam,
não há palavras que nos sirvam.
nada do que eu penso me pode explicar,
nada do que eu sinto te pode salvar,
onde eu sou tu já não estás,
onde tu és eu nunca estou.
às vezes porém,
regresso a casa com esse travo na boca
do deserto e da sombra
que trazes nos teus passos...
(porque não pressinto em ti nenhuma luz)
regresso a casa e demoro a chegar,
demoro a recuperar dessa dor
que não te larga,
dessa resignação, dessas cinzas,
dessa morte que te habita antes do tempo,
regresso a casa e demoro a deixar-te.

tempos (de) outros

parece que não sou só eu que ando a pensar no tempo:


Ter o tempo na mão

sem tempo




parece que tenho tanto tempo livre no horário, mas não me sobra tempo nenhum, ando sempre atrasada, sempre a correr, continuo a não ter tempo para nada... estranho... ou é dos meus olhos, ou da minha falta de disciplina, ou... é o tempo que passa a correr... logo agora que estava a gostar tanto de ler:








imagem 1 daqui
imagem 2 dali

25 setembro, 2008

David Fonseca - Kiss Me, Oh Kiss Me


"So when the fight is over,
And the storm is through,
Now will you pick another?
What will you get into?

So you stand in the corner,
With those boxing gloves on you,
You’re old, scared and lonely,
Yeah we’ve all been there too…
We’ve been all there too…

Kiss me, oh kiss me,
If that can make it right.
Try me, find me,
Just throw them on me…
Those failed expectations…
Floods and afflictions you’re through.
Cause I just might, take them home with me."

(...)

04 setembro, 2008

os dias do bandido


chegou ontem...




um livro, dois cds, 79 faixas, 10 anos, um homem, muitos convidados... uma obra.
o que é uma obra pode dizer do seu autor?
muito depende do que o autor nos deixa ver...





neste livro, neste album, nesta obra, Manel Cruz deixa a porta entreaberta e cada um encontra uma obra diferente, talvez. para além das letras está a escrita, para além das músicas estão os instrumentos e os sons, e a gravação em si, e a mistura... como quem segue as pistas de uma história indecifrável, seguem-se as páginas e as faixas desta obra, numa odisseia de instantes e sabores e humores... no limite só nos é dado a ver aquilo que o autor nos deixa ver. no limite só nos é dado a ver aquilo que somos. para aqueles que se reconhecem, para aqueles que procuram, para aqueles que se perdem, para aqueles que viajam com a mesma angústia por estes dias, por estes tempos, por estes sonhos. para esses é esta porta familiar, para esses é esta obra um princípio da explicação das insónias habituais. ou uma tentativa de explicação. para esses estas palavras estão debaixo da língua à espera de serem ditas. para esses estas músicas estão debaixo da pele à espera de serem sentidas. para os outros não sei.
se alguém se atreve a fazer um objecto assim, inclassificável no conteúdo e na forma porque pessoal, e pessoal também na construção, no tempo que demorou, se alguém se atreve... gostem ou não gostem, há coragem e há verdade. as duas já são raras e juntas ainda mais. e também há talento, neste caso.




02 setembro, 2008

os últimos dias


aqui onde o tempo não passa
eu sou
esta sede de encontro e distância,
eu sou
a memória da esperança,
eu vou
voltar ao zero, ao princípio, ao silêncio,
apagando todas as marcas
que me deixaram na pele.
eu principio
e ninguém me procura as asas
(não sabem).
eu quero, ser
terra de ninguém.
esse instante suspenso numa gota de orvalho
antes de cair


MESA - Boca do mundo


...é esta a música destes dias sem direcção. outra vez no espaço invisível, indizível. estou no intervalo, no espaço entre... a arder os inevitáveis sentidos dos outros. é isto o presente.

"por fim, por fim
sinto a vida que passa,
na boca do mundo
não se sabe quem é quem"

22 agosto, 2008

coisas com luz



coisas com luz. há dias em que precisamos de coisas com luz. faz-nos falta. há dias em que o cansaço parece maior, ou a esperança parece menor, e precisamos de ser iluminados por algo ou por alguém para recuperar qualquer coisa que parece que perdemos e não sabemos bem o que é. às vezes basta rir. rir de uma parvoíce qualquer. e tudo fica mais leve.


Vou criar uma nota para casos futuros:
não dar tanta importância às coisas
às coisas?
às coisas em geral


imagem daqui

20 agosto, 2008

Primeiros dias num call center


segunda, dia 1 = dores de cabeça, dores de cabeça, dores de cabeça, que dia é hoje? quando é que são 23h, dores de cabeça... noite mal dormida, sem conseguir desligar o cérebro, sem conseguir parar...

terça, dia 2 = são 23h, log off. não correu tão mal... consegui ter apetite para jantar, consegui dormir, sem dores de cabeça

quarta, dia 3 = ?


imagem daqui



18 agosto, 2008

olhares


devemos olhar para as coisas com um olhar claro. quanto mais penso, falo, experimento, mais me convenço disso. um olhar claro significa, primeiro, ver a verdade, não cair na tentação de querer ver o que não está lá, nem fechar os olhos àquilo que nos incomoda. não ser displicente, nem ser indiferente. um olhar claro também quer dizer, trazer luz para, iluminar aquilo que se olha, ver o positivo, ver o construtivo, e quem sabe até sonhar mais, melhorar. há pessoas capazes disto. não é só uma qualidade. é um exercício diário, alcançável, com mais ou menos esforço. é transmissível também, na medida em que a forma como olhamos e como falamos das coisas transmitem luz ou sombra aos outros.
fico a perguntar-me: e eu, o que andarei a transmitir aos outros? mais luz ou mais sombra?

17 agosto, 2008

Pormenores


estou sem telemóvel. uma coisa que antes não fazia falta nenhuma e que hoje em dia parece quase impensável. sabe-me bem. estou incontactável 90% do tempo. quase ninguém tem o meu número de casa. se alguém me tentar ligar ou me mandar uma mensagem só saberei com algumas horas ou mesmo dias de atraso. eu própria só posso marcar encontros à moda antiga. sem confirmações, sem toques, sem mensagens. é nostálgico. sabe-me bem. sabe-me a férias, embora não esteja de férias. mas é nas férias que marcamos assim, encontros informais, com aqueles que encontramos no caminho, com horas para chegar, sem horas para terminar...

16 agosto, 2008

Nota

as duas músicas foram postadas há muito, mas só apareceram agora. por isso há aqui dois ontens e nenhum deles é ontem. o ontem do herbie hancock foi dia 3 de agosto. o ontem do mário laginha foi dia 9 de agosto. estiveram ambos no Palácio de Cristal, em dois lugares diferentes do jardim. dois concertos muito diferentes. gostei mais do segundo. menos barulho, menos gente, mais intimista. soube-me melhor.

Mário Laginha Trio - Tanto Espaço

tocaram esta música ontem nos jardins do Palácio de Cristal (entre outras)...
é bom ouvir jazz sentada na relva, sentindo na pele o ar frio da noite enquanto a lua descia no céu por entre as folhas das árvores.
ao ouvir esta música é preciso respirar nos tempos certos: dentro de nós há tanto espaço, (entre nós) há tanto espaço...

Herbie Hancock Feat Corinne Bailey Rae - River


uma das músicas que ouvi ontem. mas esta versão da Corinne faz-me parar. há algo de infantil no sussurrar e tanto de cuidado e de contido na forma como canta. um equilíbrio frágil. parece que se pode partir a qualquer instante (é preciso ouvir com a mesma delicadeza)

09 agosto, 2008

com vista para o céu





há viagens que têm que ser feitas. viagens inevitáveis. ao fundo de nós. ao fundo dos outros. onde nos perdemos, às vezes, por muito tempo, até já não sabermos bem quem somos nem como voltar. viagens que doem. e fazem crescer.
há viagens que tenho que fazer. sozinha muitas delas. aparentemente. muitas vezes até para mim pareço parada, parece que a vida é que passa por mim, mas estou em viagem, constantemente. hoje já nada em ti me pode deter, já nada em mim te pode perder. posso parar, quando puder dizer: a minha paz está dentro de mim, a minha casa está dentro de ti.


fotografia do jardim
1 de maio de 2008



04 agosto, 2008

tempo II


e porque tinha tempo não parei.
fui ao cinema:



O cavaleiro das trevas


um filme onde o vilão brilha mais do que o herói...
um brilho estranho é certo, o raiar da loucura e da violência gratuita,
sem leis, sem limites, pelo puro prazer do caos...
assustador portanto.
a reflectir dos outros o lado mais frágil,
a alimentar-lhes as dúvidas e as limitações...
somos capazes de viver os nossos princípios até às últimas consequências?


imagem retirada daqui


fui ao teatro:



Platónov


4h dentro de uma sala, mas não senti o tempo passar.
uma peça sem heróis, o retrato de uma sociedade decadente.
um homem no centro da história
que se deixa arrastar na sua própria pele,
preso nas suas teias e nas suas relações...
pela inacção vai-se corrompendo e vai corrompendo tudo e todos.
porque ser livre implica fazer opções, Platónov, o homem, não se liberta nunca,
nem liberta ninguém.


imagem retirada daqui


fui a um concerto:



Herbie Hancock e convidados


alguns dos convidados iluminaram mais que o anfitrião.
ouvir jazz no meio de uma multidão,
não é coisa que procure muito, aconteceu.
felizmente quando fecho os olhos
estou sozinha
estou só a ouvir com o corpo inteiro,
e ouvir é não pensar.


imagem retirada daqui


tempo I




depois de um ano a escrever a tese, as provas duraram 1h,30... parece curto. (há peças de teatro mais longas). correu bem (falta-me aprender francês para ser a donzela perfeita). desde então ainda não parei, mas no fim de semana reparei que o tempo é todo meu... estranhei, mas sou capaz de me habituar.


24 julho, 2008

duas noites seguidas a dois séculos de distância

Duas noites, dois lugares, dois compositores, dois séculos de distância, duas viagens completamente diferentes.

Na primeira noite, música sacra de Antonio Vivaldi (1678-1741) - Stabat mater, Nisi Dominus, entre outras - interpretada por um agrupamento instrumental e um contralto italianos. Uma voz invulgar a dar vida aos sentimentos e às cores que Vivaldi colocou nas suas composições virtuosas... há melodias tão claras e luminosas nas suas obras que soam certas e parecem fáceis. Sabe bem estar viva para poder ouvir coisas destas ao vivo e a cores. Até a dor parece que dói menos porque soa tão bem.

Na segunda noite chegou a inquietação através das obras de Olivier Messiaen (1908-1992), das quais destaco uma: Quatuor pour la fin dus temps. E o fim dos tempos de Messiaen é inquietante, desgastante e depois tempestuoso... como só a natureza pode ser. Mas também é silêncio e depois do silêncio desolação. Porque depois da tempestade de Messiaen vem a desolação de perceber que é uma tempestade de violência sem vida. A desolação de um planeta desabitado. Mas até num planeta desabitado nasce o sol ao som de um violoncelo. Até num planeta desabitado, na última noite do último dia, a lua se ergue no céu reflectindo a luz do último solo de um violino.

Curiosidades curiosas
Messiaen, compositor francês, organista, e ornitólogo compôs este Quatuor pour la fin dus temps enquanto esteve preso, para os quatro instrumentos disponíveis: piano, violoncelo, violino e clarinete e foi ainda na prisão que esta obra foi pela primeira vez interpretada por ele e outros prisioneiros para os guardas e restantes presos.
Messian sofria de uma forma moderada de synaesthesia
que se manifestava pela percepção de cores quando ouvia certas harmonias, particularmente as harmonias construídas a partir dos modos de transposição limitada (compilados por ele), e usava combinações dessas cores nas suas composições.


11 julho, 2008

III


quanto menos palavras me servirem
mais saberei que estou perto da verdade


II


cala-te.
ouve...
é este o lugar.
aqui na terra do poema,
aqui se cruzam todos os rios do meu passado,
aqui nascem todos os rios do meu futuro.
quem eu sou?
não interessa.
aqui sou silêncio.
aqui me curvo em reverência.


I


achas que falo contigo?
é silêncio apenas.
é silêncio apenas
tudo o que te digo.


10 julho, 2008

em vão


um dia alguém há-de encontrar esse corpo que é teu
que tu dizes que morreu
e que recusas procurar.
(que recusas reclamar.)


branco-luz


cala-te!
cala-te já
enquanto ainda há sentidos escondidos.
não acredito em nada do que dizes,
palavras vãs, sentimentos - pedras na garganta
- interrompidos.
não venhas agora. o tempo espera.
as coisas claras demoram a nascer,
mas quando chegam
destroem casas, derrubam muros,
inundam vidas com seu eterno amanhecer.


(sem título)


um dia,
quando chegares,
reconhecer-te-ei pelas mãos.
não que as tuas mãos tenham algo de especial.
para todos os outros são umas mãos perfeitamente normais.
ninguém sabe, senão eu, que as tuas mãos já são minhas,
ninguém as conhece como eu que sempre as conheci.
não vou sequer dizer que as tuas mãos encaixam nas minhas
porque as minhas são pequenas e as tuas grandes demais:
nas tuas mãos cabe o tempo, a terra, o meu corpo inteiro,
nas tuas mãos beberei da chuva a primeira água das manhãs.
um dia,
quando chegares,
não vais saber quem sou eu,
só as tuas mãos reclamarão aquilo que já é teu.
sono leve, rente à pele, quem me vem adormecer?
no dia em que me tocares, saberás porque nasci.


09 julho, 2008

Expectativas vs. realidade

ser o que se é, é algo suficientemente difícil. porque é que se exige que, além disso, as pessoas tenham que corresponder as expectativas de uma sociedade normalizada? porque é que não se pode estar triste? porque é que não se pode estar calado, por não ter nada para dizer? porque é que se tem que querer atingir um determinado estatuto, ou ter determinadas profissões? porque é que se deve desconfiar de tudo e todos e considerar a inocência ou a ingenuidade um defeito de carácter? porque é que se tem que ser magro? porque é que se tem que ser rico ou famoso ou estar na moda?
simultaneamente não consigo ver onde é que responder a todos estes estímulos e expectativas sociais torna as pessoas mais felizes. Será que me dou ao trabalho de perceber o que as pessoas são e sentem para além daquilo que aparentam? será que pergunto: tudo bem? e não como estás? E se pergunto como estás? fico tempo suficiente para ouvir a resposta verdadeira ou não tenho coragem porque corro o risco de ouvir o desabafo ou de me aproximar demais do outro, sentir a sua alegria e a sua dor? Será que aposto na qualidade das minhas relações? Será que dou tempo e espaço para me aproximar de alguém e para as pessoas se aproximarem? É difícil, dá trabalho, as pessoas são a maior parte das vezes, confusas, complicadas, não estão sempre bem-dispostas, não são sempre engraçadas... mas ter relações com profundidade não trará outra satisfação, mais disponibilidade de ambas as partes, menos preconceitos, mais aceitação do outro, mais compreensão, mais caridade, mais amor no fundo? porque só se ama quem se conhece.


02 julho, 2008

Radiohead - Idioteque

e com esta termino... entrando na órbita do cometa radiohead à velocidade alucinante de idioteque. definitely in the mood for radiohead.

Kings Of Convenience - Cayman Islands

o elogio das coisas claras, reduzidas ao essencial. as palavras quase sussurradas:

"if only they could see, if only they had been here
they would understand, how someone could have chosen
to go the length I've gone, to spend just one day riding
holding on to you, I never thought it would be this clear"

Miles Davis - Move - Birth of the Cool

esta não está completa... é uma amostra e quem quiser mais que vá procurar...
se o meu pensamento se pudesse ouvir sob a forma de música, às vezes soaria mais ou menos assim.

Astor Piazzolla y su Quinteto Tango Nuevo - Adios Nonino

esta dançaria se soubesse...

Bobby Mcferrin improvisation with Richard Bona

qualquer coisa completamente diferente...
sabe a terras distantes e a ventos quentes, fortes, lentos. sabe a florestas claras com um travo de sal.

portas e janelas II - inside my mind

à procura das minhas músicas preferidas encontrei algumas que já nem me lembrava, músicas que outros me mostraram e que agora também já são as minhas músicas, que fazem eco por dentro, que se dispersam e condensam pelas planícies e escarpas e rios interiores, que tem sabores e memórias e lugares dentro, que tem corpo e densidade e cor de tempos que é tão fácil trazer ao presente. basta ouvir.

01 julho, 2008

Vivaldi - Stabat mater (RV 621) - Andreas Scholl


à procura da perfeição...
parece fácil.

Nina Simone - Feeling good

Aqui como pano de fundo na promoção da 4.ª série de Sete Palmos de Terra. Tudo muito bom. Realmente aquelas laranjas estavam mesmo a pedi-las...

Rufus Wainwright - Beautiful Child - Live

portas e janelas de música


há muito tempo que a música me parece um bom caminho para perceber melhor as pessoas. muitas vezes e quase por instinto, quando me aproximo de alguém começo (ou acabo) a ouvir as músicas que essa pessoa mais gosta, como se essas músicas fossem portas ou janelas que essa pessoa me abre sem falar, até porque quando as pessoas falam, falam com as suas reservas, com as suas defesas, com a sua ironia, mesmo que estejam plenamente convencidas da verdade que estão a dizer. agora se me dizem esta música faz-me chorar, esta música faz-me rir, esta música faz-me dançar, sozinho no quarto onde ninguém vê, esta música foi feita para mim, é assim estar dentro de mim, isso é outra conversa. já não falamos de palavras, ou de filosofias, ou de verdades, falamos de beleza, de procura, de sentimentos. experimenta. deixa-te influenciar...



vou ilustrar o que disse com as minhas músicas preferidas.


21 junho, 2008

liberdade




ser gratuito nas relações é tão difícil... ser desinteressado, ou abnegado, dar sem esperar, nem exigir receber. é uma luta interior terrível às vezes. é um pequeno milagre quando acontece naturalmente e sem doer. é uma meta e são pequenas conquistas. é uma luta da qual vale a pena não desistir, porque um só momento de sucesso é imensamente compensador.

quanto serei eu capaz de dar de mim sem pedir nada em troca? há dias em que esta luta me dói até à alma (que é onde as coisas difíceis doem). há dias em que só desejar ser assim já é uma vitória. há dias em que só de tocar ao de leve nessa promessa de liberdade, e senti-la ganhar corpo, dá sentido a todos os fracassos, a todos os desânimos e faz desejar ir mais longe (ou ir mais fundo).







mais uma fotografia do jardim cá de casa


12 junho, 2008

Coldplay - Violet Hill

estão de volta...




parece que tiveram que desenterrar este novo album, sujaram-se (como se vê e como se ouve), arriscaram, e fica-lhes bem. não tiveram medo de se descolar da imagem que criaram. estive a ouvir o novo disco no myspace. recomendo. gostei de descobrir o vocalista num registo mais grave que o habitual (na música Yes, por exemplo). às vezes parece mais clara a influência dos radiohead (na música 42, por exemplo), mas de forma construtiva, como mais um passo para construir uma música dos coldplay; até porque a voz do chris tem identidade própria, tem luz própria. é uma agradável surpresa descobrir músicas que se desmultiplicam e mostram novas faces a cada virar de esquina, como se uma música fosse várias (como Cemeteries of London, 42, Yes e Death and all his friends). e o que dizer deste início de Lost: "just because I'm loosing doesn't mean I'm lost"? soa a desafio, soa a rebeldia, eu diria que define a intenção, mesmo que fosse para perder, este era o risco que tinham que correr...
Gosto bastante da cor que os instrumentos de corda trazem para Yes e Viva la vida. Mas Viva la vida é muito mais do que essa ambiência, é a afirmação de um risco que valeu a pena correrem, é a batida do coração nos novos coldplay, sintam-lhes a pulsação. A mesma pulsação que se ouve em Violet Hill. No fim não se vão embora sem respirar fundo ao som de Strawberry Swing que já está longe da terra de Violet Hill, já é outro lugar, ou talvez seja um caminho, um caminho para chegar a Death and all his friends. e não se pense que Death and all his friends soa a fim, não, soa a princípio: boa viagem!


01 junho, 2008

My blueberry nights


um filme de Wong Kar-Wai

















































































































qual é a distância entre duas pessoas? quanto tempo é a distância entre duas pessoas? quanto quanto tempo se demora a atravessar a perda? quanto tempo se demora a atravessar o tempo?

há muito tempo que não via um filme em que o tempo é uma das personagens. em que as coisas tem tempo para acontecer; em que as personagens tem tempo para falar e para calar, para perder e para se perderem; em que para encontrar não é preciso procurar é preciso desistir.

o que nos tira o sono? o que nos tira o chão? e quando isso acontece qual a distância que temos que percorrer? qual a largura desta estrada? quantos passos tem? quantos quilómetros? quantas pessoas? quanto tempo? o tempo entre estar e encontrar. pode ser um passo. pode ser um ano. pode não ser.





















If Love Were All - Rufus Wainwright

probabilidades


Era uma vez um homem extremamente organizado. Tudo nos seus dias acontecia segundo uma sequência estritamente planeada, a horas exactas e com durações precisas.
Esse homem tinha um amigo. O amigo era um homem muitíssimo desorganizado. Deixava-se sempre guiar pelo acaso, pelo inesperado. Era imprevisível, até para si próprio, o que iria fazer a seguir, ou onde iria estar.
Era para todos um mistério como é que estes dois homens se tinham encontrado. Era um mistério ainda maior como é que eles se continuavam a encontrar.
Se os encontros destes homens eram resultado da imponderabilidade de um, ou da constância do outro, (ou de uma terceira instância) ninguém sabia ao certo, mas, o facto, é que os encontros aconteciam, se repetiam, contrariando todas as probabilidades.