quando o que quero é dizer coisas simples: pedra, mão, rio, mar, terra, fogo, ar e só me saem redes intrincadas, frases complexas, palavras complicadas, devia respeitar as regras do jogo e desaparecer, agora, enquanto não está ninguém a ver, mas quem disse que eu sei jogar?
a taça vazia sobre o muro.(existir não chega). um gesto de atenção chegaria para encher a taça. (um gesto quase banal devolveria o estado de graça). um movimento mais brusco e desilude-se a ilusão. um passo impreciso entre a confiança e a dúvida, um gesto inseguro por um móbil mais puro. cala-te, mas não te esqueças do que ias dizer. calo-me, mas não me esqueço do que posso sofrer.
os dias sucedem-se na lista telefónica do esquecimento (que dia é hoje? é teu este dia?) agarro-me ao meu (medo ou) mecanismo de segurança interna-dor (msi-dor) e escrevo (me) sucessivamente em dó menor para disfarçar a falta de talento para entender o mundo: dó, ré, mib, ré, dó, solilóquio mudo em tom profundo (queres ver a cor deste tempo, dos dias que eu já sei de cor? dos dias iguais a todos os dias: cadência suspensivo-controla-dor)
não há palavras que me sirvam, que me aqueçam, que me calem mas para dizer o que (te) digo, melhor seria estar calada, pois às palavras tantas sinto que te engano, me desdigo: não é minha a tua voz, não é teu o meu desejo, não é tua a minha esperança, não é meu o teu cansaço. silencio o cálculo da probabilidade das imponderabilidades e descanso, hoje é só mais um daqueles dias de desassossego mais intenso em que me claro, espero, escuro, penso, calo, quero tudo! adormeço.
gosto de coleccionar manhãs, manhãs de chuva cinzentas e tristes, manhãs claras de frio desperta-dor, manhãs submissas de verão e calor, manhãs amenas de outono e de cor, manhãs de dormir até ser tarde, manhãs de correr por obrigação, manhãs de procurar liberdade, manhãs de perder a direcção.
porque me custa tanto falar (te) porque me custa tanto calar (me) escrevo aqui para evitar encontrar (me) descrita noutro lugar onde pudesse encontrar (te)
aquilo que na vida posso controlar com precisão é tão ínfimo que a maior parte do tempo vivo em luta com tudo aquilo que não posso controlar. resultado: perco tempo e energia para nada. se pudesse decidia agora: desistir de controlar tudo e viver em paz com o aumento de entropia consequente... mas essa é precisamente uma das coisas que não consigo controlar.
sob a aparente calma dos dias, sob a pele, como uma segunda alma, a urgência constante do encontro, a urgência constante da viagem. atravesso os meses com a mala arrumada, pouca coisa: coragem, liberdade, quase nada. tacteio na escuridão do presente, vasculho no rumor indecifrável da rotina, um sinal, uma palavra, uma imagem que me devolva a memória do futuro, que me inspire as coordenadas da próxima paragem. hoje, agora, amanhã: não estou parada, estou um passo mais perto da chegada estou um instante mais perto da partida.
acredito, lá bem no fundo acredito na esperança dos dias, na lógica das árvores, no rumor dos águas, na intenção do vento, na solidão das pedras, na liberdade dos pássaros, na lucidez do tempo.
não sei se é de luz este instante, de silêncio, ou espanto. não sei se é o sabor deste encontro que me acorda por dentro. pressinto os teus passos no rumor dos dias, é solitário o teu caminho, vã é a minha pressa. o tempo não se detém na curva das horas, a manhã submersa, a tarde tão escassa, passas por mim amanhã? (passas por mim agora?) é tua esta voz? é teu este braço? não te digo ainda o que me adivinho, hoje ainda é cedo, o momento é raro, hoje só pressinto, espero um dia claro, hoje faz cinzêncio, paro, calo, espero.
de repente o medo. não sei se é a noite a chegar ou se sou eu que finjo não procurar, mas não sei o que fazer se tiver encontrado. não faço nada. fico aqui? fico perto? fico ao lado? escrevo? não escrevo? paro? escuto? espero? respiro-te de-pressa, mas não declaro. aproximo-me devagar, observo e calo, mas quero-te perto e isso é tão raro.
uma carta! corri para o correio. há tanto tempo que não recebia uma carta. o papel, o cheiro, o desenho das letras, carimbos, selos, o tempo nas dobras, língua, cola, voz, tinta, esperança, silêncio, medo.
guardei a carta no bolso, sem abrir. adiei-te como quem prolonga um prazer. caminhar pelo dia com uma carta por ler. tua. o dia inteiro essa notícia repetida, esse segredo no bolso, um murmúrio intermitente a massajar-me a palma da mão, uma resistência imperceptível do papel contra a perna ao andar, uma corrente de ar porque alguma janela mal fechada no coração (ou é o medo a jogar ao esconde-esconde com a esperança. desarrumam-me tudo!)
quanto tempo vou aguentar? umas horas? um dia? mais que um dia? será que consigo dormir com esta carta no bolso? por ler. tua. não sei, mas sabe-me bem não ler, como quem caminha por instantes de olhos fechados na rua, sem ter medo de tropeçar, ou do que os outros vão pensar, porque no fundo caminhamos sempre de olhos fechados para o futuro. confio de olhos fechados que há muito mais do que aquilo que se vê. confio de olhos fechados que não preciso de tentar prever tudo o que vai acontecer.
com o início das aulas sinto que deixei de respirar: correria, trabalhos para fazer, artigos para ler, poucas horas de sono, leituras interrompidas, nenhum tempo para escrever, bons hábitos recém-adquiridos novamente perdidos... facilmente me desorganizo.
mas faz-me falta respirar. gosto mesmo deste ar frio, destas cores quentes de outono, desta dança das folhas pelo ar, desta vida que se transforma e se reduz ao essencial. quantas folhas teria eu de perder para me encontrar no essencial? com quantas máscaras enfrento os outonos e os invernos e os outros?
com tantas ideias, trabalhos, pré-ocupações, intenções, expectativas, quanto tempo sobra para simplesmente ser? quanto tempo sobra para me deixar surpreender? quanto tempo sobra para me deixar deslumbrar?
o que é que me deslumbrou hoje?
uma mensagem de agradecimento, um gesto, um toque (porque às vezes parece que nos esquecemos de tocar uns nos outros), gargalhadas de fim de tarde, uma música, as cores do kandinsky (outra vez).
há imagens que valem muitas palavras, dias que valem vários meses, encontros que dão sentido a anos de desencontros. os últimos dias de férias foram afinal os primeiros. os primeiros em paz e em esperança. os que trouxeram mais respostas e novas perguntas. e sede, sede de mais. mais verdade, mais liberdade, mais coragem, mais conhecimento, mais integridade, mais transparência... parece às vezes que são demasiados desejos para uma pessoa só, mas a mim faz-me pensar: por que me deixo viver tanto tempo com menos, satisfeita com pouco, sem sonhar mais, sem procurar as respostas, (e as perguntas), alheia à minha própria sede... é estranho, não é?
a distância entre o que se pensa e o que se é, a distância entre o que se faz e o que se pensa, a distância entre o que se faz e o que se é, são, a maior parte das vezes, muito maiores do que nós pensávamos... são, a maior parte das vezes, muito maiores do que a raiz quadrada da soma do quadrado dos catetos.
Os melhores dias de férias são, às vezes, aqueles em que se tem uma rotina fixa, intensa, como no tempo de aulas, mas a fazer alguma coisa completamente diferente, de preferência que se gosta e/ou se quer muito fazer. Conclusão: (quando se tem muito tempo de férias) os melhores dias de férias são aqueles em que se trabalha?
(um rumor longínquo) a memória da distância, memória do que não vi como se fosse possível guardar em mim uma memória do futuro (de um futuro).
eu quero sair daqui para nenhum lugar como quem caminha num quarto escuro e se mistura na escuridão e se escurece e ao ser habitada pelo espaço desaparece.
"TED TALKS": Apresentações de 20 min sobre os mais diversos temas (tecnologia, ciência, entretenimento, educação, economia...) disponibilizadas gratuitamente on-line no site: www.ted.com
"IDEAS WORTH SPREADING!"
Ideias que inspiram, que desafiam, ideias para todos os gostos e feitios, ideias bizarras (porque segundo dizem são as únicas que valem a pena) ideias geniais... vale a pena vasculhar o site. com certeza encontrarão uma apresentação que vos agrade (ou desagrade), que vos surpreenda, que vos inspire, que vos faça rir... Ideias não ocupam espaço, mas podem contagiar. Se têm medo de ser contagiados é melhor evitarem o site... mas eu continuo a pensar: Um local onde se partilham ideias?!? ora aí está uma ideia genial!
Esta apresentação, para além de ser feita por um orador verdadeiramente cativante, é sobre educação: um tema tão banal (porque usual, sempre presente e sempre discutido) como relevante (porque determina o nosso desenvolvimento individual e colectivo). De uma forma divertida e despretensiosa Ken Robinson coloca questões pertinentes... daquelas que fazem pensar e que podem despertar outras questões e novas ideias... queiramos ou não é uma área em que estamos todos envolvidos... somos todos fruto de uma certa educação e acabamos, mais tarde ou mais cedo, de uma maneira ou de outra, por estar envolvidos na educação de outros... estará realmente a educação a matar a criatividade? o que aprendemos e o que desaprendemos? o que mudar e como mudar para melhor?
revelar - associação das acções rever e dar, reavaliar e expor, ou expor e depois rever, segundo a ordem que se quiser. Mostrar o até então escondido, secreto, invisível, explicar o oculto, misterioso, indecifrável. Elucidar ou elucidar-se, dar ou dar-se.
revelação - acção que se revela, mostra, expõe... pode ser uma acção muito parada (como uma imagem)... ou até uma inacção (como uma ausência)... o que importa é que o acto de exposição se explique a si próprio.
eu que nunca sei dizer o que sinto (mais depressa fujo, mais depressa minto) e detesto que me vejam chorar (mais depressa coro, mais depressa finjo ter um cisco no olho ou uma alergia ao oxigénio do ar) comovo-me em segredo, por tudo e por nada, a toda a hora, em qualquer lugar.
e por falar em canções (mas agora canções a sério) aqui fica o B-Fachada, despretensioso e arejado, tradicional e inovador, descontraído e corrosivo... Para quem não conhece vale a pena parar e escutar, nem que seja para não gostar... parece-me que já não encontrava letras assim desde o Sérgio Godinho, ou desde o Manel Cruz.
Já agora, o novo disco "Há festa na moradia" está disponível para download gratuito em www.mbarimusica.com/. Música para agitar depois de usar, para agitar o corpo, para agitar ideias, para arejar o coração. Disco para embalar as férias e o Verão.
eu gosto é de ilusões: a realidade é um balde de água fria que me acorda às quatro e meia, cinco e pico, seis e dia com mais fome e menos fé.
enquanto o tempo se entre-tem, se entre-tece e o silêncio me des-ilude, me entorpece, vou ver se escrevo, vou ver se calo, vou ver se esquece.
(porque eu não esqueço, eu não esqueço eu só peco, faço, parto, volto errante, fico só e só tropeço, corto horas e distâncias com a finita (im)precisão de um talhante)
e afinal a longa espera é sempre em vão e as palavras que eu te gasto são só a minha maneira de iludir a solidão.
em tempos de crise passam-se as férias em casa... mas há viagens que se podem fazer sem sair do lugar. um bom livro pode levar-nos a qualquer lugar... seja ele um livro de viagens, um romance, um livro de ficção científica ou um policial. um bom concerto pode fazer-nos viajar no espaço e no tempo, por terras estranhas, por praças e desertos, por cores e sabores até então desconhecidos, do oriente ao ocidente, das águas gélidas do norte aos quentes ritmos africanos...
e tudo isto por muito pouco dinheiro: nas bibliotecas municipais requisitam-se livros de graça; no verão há festivais de música para todos os gostos a preços para todos os bolsos.
(e se não quisermos mesmo "sair do lugar" podemos sempre viajar... na internet.)
na minha última viagem fui de Marrocos à Turquia, da Galiza à Alexandria, uma viagem no tempo e no espaço conduzida por Jordi Savall, Driss El Maloumi, Pedro Estevan e Dimitris Psonis. Para quem não esteve lá, mas gostaria de ter estado, basta esperar pela próxima visita de Jordi Savall (desta vez com os Hespèrion XXI) à Casa da Música no dia 6 de Novembro.
Hoje começa o Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim com nada mais nada menos do que Jordi Savall (e companhia) num concerto de Músicas antigas e Músicas do mundo que promete ser um encontro entre Oriente e Ocidente, porque na diversidade está a nossa maior riqueza e a música é sempre um meio privilegiado para o diálogo entre os povos.
O concerto de hoje está esgotado... (e eu vou estar lá :-) mas vale a pena estarem atentos ao programa e passarem por lá para ouvir boa música a preços reduzidos depois de uma boa tarde de praia (de preferência num dia em que não esteja vento e nevoeiro como) e de um banho no mar (se tiverem coragem de enfrentar a temperatura do mar da Póvoa...)
Hoje faço 28 anos. O ano passou por mim a correr, com a intensidade dos anos de mudança: mudança de direcção, sabor de coisas novas, mas familiares cá dentro, como aquelas pessoas que encontramos e parece que conhecemos há muito, ou aquelas que raramente vemos, mas parece que nunca saíram de perto de nós.
as escolhas são difíceis, porque abrem umas portas, mas fecham outras e nunca temos certezas absolutas. só podemos avaliá-las pelos frutos, pela luz nova que trazem à vida, pela felicidade que nos dão apesar do cansaço e das dificuldades, pela paz interior que sentimos apesar do futuro ser tão incerto como sempre foi...
os aniversários são geralmente dias em que as pessoas nos oferecem coisas (espero que poucas, porque já tenho tudo o que preciso), mas dei por mim a pensar no que terei eu oferecido às pessoas ao longo deste ano, se estive atenta ao que as pessoas precisavam de mim, se estive presente na vida das pessoas que hoje se lembraram de mim ou se andei demasiado ocupada com as minhas coisas.
que presente é que damos aos outros todos dias? não falo dos presentes embrulhados com laço e tudo, mas do dia de hoje, do tempo presente, da presença que temos no tempo presente das pessoas, do espaço-tempo que ocupamos, roubamos, oferecemos e de como o fazemos.
lembrei-me de uma canção que descobri há pouco tempo e que gosto muito: "Pérolas aos poucos". Será que damos sempre pérolas aos outros, ou seja, sempre o melhor de nós? Será que sentimos que as pérolas que damos se perdem? Eu acho que aquilo que dou é sempre muito pouco, vem do pouco que eu sou, mas acredito que nada daquilo que se dá, nada daquilo que se partilha se perde. só se perdem as pérolas que guardamos para nós e não são úteis a ninguém.
quando nos aproximámos ficamos mais vulneráveis. subitamente o que outro diz ou faz pode ferir-nos em lugares até ali intocáveis. e pode até fazê-lo sem intenção, mas a dor não é menor por isso. por outro lado, se nos fecharmos para evitar a dor evitámos também todas as alegrias e surpresas do encontro. toda a luz e toda a sombra. tudo o que de bom e mau se aprende sobre os outros e sobre nós. evitar sentir é evitar viver. evitar viver é evitar ser. somos aquilo que somos com os outros. somos aquilo que somos sem os outros. somos aquilo que somos para os outros. somos aquilo que os outros são em nós. não podemos evitá-los sem nos evitarmos a nós mesmos. como explicam Daniel Faria e Rainer Maria Rilke para se ser grande há que ser frágil (quando digo grande entenda-se inteiro, íntegro, verdadeiro, belo).
A tua pequenez é enorme. Nada te pode vencer. Não recuses nenhum dos teus limites, só eles dizem a grandeza do que tens.
um filme que é um lugar fora do tempo. um espaço que se abre sobre o silêncio. também (mas não só) porque a banda sonora e o silêncio se conjugam na perfeição, como raramente se vê. raramente se vê o silêncio tão bem filmado.
Tilda Swinton é espantosa na contensão, no espanto, no abandono de certos gestos, e é impossível não respirar a sua personagem na sua viagem caleidoscópica, viagem interior vista de fora para dentro e de dentro para fora.
todo o filme vive desse estado de contensão-explosão permanente, que atravessa a personagem da realidade aos sonhos, da rotina à acção. filme em câmara lenta prestes a ruir, como se a beleza não pudesse existir mais do que alguns instantes, a cor sobre o branco, a luz sobre a pele, a ordem sobre o caos, o silêncio, o silêncio, o silêncio. no fim o silêncio.
às vezes enganámo-nos a nós próprios. e no fundo sabemos que estamos a enganar-nos. mas queríamos tanto estar enganados. (ou seja, não estar enganados).
é bom ter amigos. pessoas com quem se está bem, com se pode ser quem se é... às vezes mostramos o que não somos para não mostrarmos o que somos e isso deixa-nos sempre menores, insatisfeitos, porque a felicidade está na integridade, em sermos nós em todas as circunstâncias por mais chato ou difícil que isso às vezes pareça.
é bom abrir o coração a quem chega, sem falsas expectativas, respeitando a verdade do outro e a nossa própria verdade, percebendo que a felicidade está mais em acolher do que em receber. são tantas as vezes em que nos aproximamos ansiosos por receber, angustiados por concretizar os nossos desejos e os nossos planos independentemente da vontade e da situação do outro.
lá no fundo, precisamos todos, todos os dias, de nos sentirmos aceites naquilo que somos, não mais, nem menos, inteiros, com as nossas qualidades e defeitos. Se começássemos a fazê-lo hoje com as pessoas que conhecemos ou que encontramos no caminho a vida não seria diferente?
às vezes ficamos tão preocupados com o não cumprimento dos nossos planos que não aproveitamos o momento, nem as pessoas que temos ao nosso lado.
depois o dia passa, a noite vem, passa outro dia e outra noite e com o passar do tempo as coisas já não parecem tão terríveis, porque não o são de facto.
é importante relativizar e rirmo-nos de nós próprias, da nossa impaciência, da nossa urgência, quando aquilo que podemos de facto controlar à nossa volta é ínfimo...
palavras suspensas na garganta por um fio invisível, rente à língua, à míngua de água. fome. palavras suspensas no ar como frutos em queda entre o sonho e o chão, Palavras suspensas no verbo cair. [dizer, silenciar, mudar, partir] palavras suspensas na vontade: [medo] de te [ser] palavras suspensas nas mentiras que tecemos. viscosas. mãos. fundo.
esperar irrita. esperar custa. às vezes até dói. às vezes parece inglório, um desperdício de tempo, parece sinónimo de estar parado... mas não é. esperar é respeitar o tempo dos outros. esperar é respeitar o nosso próprio tempo. esperar é respeitar o tempo da vida, que nem sempre coincide com o nosso. é um óptimo exercício para se descobrir o que se quer, porque os desejos não aguentam esperar e vão caindo de maduros (ou de verdes: há desejos que nunca chegam a amadurecer, nem o merecem) até sobrarem só os desejos que darão bons frutos, desejos construtivos que fazem parte do que se quer e não daquilo que apetece e que está sempre a mudar.
esperar é a capacidade dos que ainda são capazes de viver com esperança, dos que ainda são capazes de acreditar no mundo, nas pessoas, na beleza, na verdade, na justiça,...
esperar está para a acção como o silêncio para a música (ou para a palavra) e já se sabe que não há boa música sem silêncio.
20 abril, 2010
silêncio. pudesse calar-te às vezes, ou fazer-te falar, quando quero, quando expiro, quando não sei dizer-te que preciso. (nunca sei dizer-te nada).
espera. dos dias roubados ao silêncio. de esperança perdida na azáfama dos dias roubados ao silêncio. estas brancas palavras de esperança perdida na azáfama dos dias roubados ao silêncio.
foz. do outro lado do mar. do outro lado do rio. do outro lado de nós.
às vezes faz-me falta ser conhecida. para não ter que ser outra coisa qualquer senão ser.
27 novembro, 2009
inspiro. dentro desse instante quase, dentro do desejo à solta prestes a gritar. não sou quem esperas, vai-te embora, vai à volta, não sou quem me demoras.
um segundo. é o tempo que tenho para te perder. é o tempo de te respirar por dentro. é o tempo de uma porta a bater. é o tempo de cair na armadilha, tenho frio, tenho chuva, tenho medo. é o barulho de um carro a bater de frente. é uma parede branca ao relento. é um semáforo intermitente.
chuva e essa poeira lentíssima que vem com ela, como um lençol invisível que cobre os ombros de todos de triteza e de cinzento.
chuva torrencial de vazio e de desejo, diluindo a visão e a memória.
terra quente e muda de sede, poros dilatados, e vales, rios e bocas abertos ao céu, língua áspera de fome, se mãos tivesse das nuvens beberia sofregamente.
quando de repente o que era certo deixa de ser e as desventuras se sucedem e parece que não há chão nem direcção e o tempo desgasta a realidade porque as coisas continuam a acontecer aleatoriamente embora se gostasse de ter o condão de as fazer parar, é porque a frase é muito longa e me esqueci de respirar. a todo o momento acontecem coisas que não se conseguem controlar, a vida acontece e é imprevisível e inesperada, angustiante e irrelevante na medida em que não há nada a fazer a não ser continuar. ou então aproveitar um fim-de-semana fora e parar. arrefecer o pensamento, deixar correr cá fora o que está dentro, deixar passar por dentro o tempo lento de estar fora do sítio, fora de casa, fora do tempo, como se houvesse, às vezes, um tempo fora do tempo. onde me sinta em casa. um tempo, fora do tempo, fora de casa, onde me sinta em casa.
aspiro à integridade como a um balão de ar quente que já partiu e que vejo sempre ao longe, um ponto minúsculo no horizonte.
dedilho nos meus dedos a noite e a verdade. consagro inúteis o desejo e a vontade.
substraio o resto ao produto do divisor pelo quociente e deito fora o excesso de dividendo. sobra a verdade que ninguém quer, só eu, que não me serve de tão pequena e vã, mas emagreço só para lhe servir e de todos me afasto e me despeço.
em dias como o de hoje, não sei se é o céu, se é o calor, se é um campo qualquer de passagem na janela do carro (a acordar qualquer coisa na memória), só sei que inspiro (como que dizendo que é algo que me vem de fora para dentro) e/ou expiro (como que dizendo que é alguma coisa que me vem de dentro para fora) essa vontade de caminhar de mochila às costas, outra vez, como se não houvesse tempo.
não escrevo porque não tenho nada a dizer... ou porque não sei escrever, ou porque o tempo me pede contas de tudo o que não faço e de tudo o que faço e não devia fazer porque devia estar a fazer outra coisa qualquer (que provavelmente não me apetece fazer).
não escrevo porque tavez me encontre e talvez me diga o que não quero saber.
não escrevo porque me preocupo e pré-ocupar-me ocupa-me todo o tempo que eu poderia ter para escrever. preocupo-me com as aulas que correm menos bem e com as aulas que correm mesmo mal e com as aulas que correm mais ou menos. preocupo-me com os papéis que tenho que preencher e com os planos que tenho que fazer e com as decisões que se aproximam não como se eu as decidisse, mas como se elas se antecipassem e me cobrassem resposta: agora! preocupo-me, não, chateio-me, chateio-me com os livros que compro e que não consigo ler, ou porque nem começo ou porque me esqueço ou porque desisto de acabar. chateio-me se falo alto, se sou impaciente, se chego atrasada, se sou criticada, se não arranjo tempo para estar, se prefiro mentir a enfrentar, se prefiro fugir a parecer menor. chateio-me se não sei parar, se não sei agradecer, se não sei rezar, se não digo bom dia, se não me comprometo, se não sou útil quando podia ser, se não sou livre (tanto quanto podia ser).
chateio-me se me chateio comigo mesma demasiadas vezes sobre demasiadas coisas desnecessariamente.
Há portas que temos que atravessar sozinhos. Para além do medo, para além do tempo, para além de nós mesmos e das nossas defesas. Há portas através das quais nos dividimos, e outras que nos deixam mais inteiros.
Esta foi a primeira porta que atravessamos na Peregrinação dos centros. Da qual voltamos sozinhos, mas unidos a todos os que lá estiveram por um mesmo ideal. E de repente já não estamos tão sozinhos como quando partimos.
Fortaleza de Almeida, século XVII fotografia retirada daqui
último dia de aulas. alunos irrequietos, ansiosos, divertidos, faladores, impacientes. professores cansados, inquietos, animados, relaxados...
Todos ansiosos por ficarem de férias da escola e uns dos outros, porque no fundo, no fundo, gostamos muito uns dos outros, mas chega um dia em que já não nos podemos ver à frente e precisamos todos (professores e alunos) de férias uns dos outros para respirar e recomeçar com nova energia.
Balanço final: tudo o que é bom dá muito trabalho, cansa, ocupa tempo e espaço mental (mesmo quando se está fora da escola)... mas quando é bom (quando se gosta), é mesmo muito bom.
quase uma semana sem net. o suficiente para me sentir desligada de uma parte do mundo. agora que estou de volta aproveito para recomendar que acompanhem as histórias do sul, uma aventura partilhada, uma viagem que acaba de começar e que terminará no dia 1 de Junho na casa da música com um concerto (às 15h) para míudos (e graúdos que ainda não se esqueceram de sonhar).
Ontem finalmente me decidi a podar o meu bonsai... (Não tirei fotografias antes e depois, ou seja, esta imagem não é do meu bonsai...)
A questão é: não sei como podar um bonsai. Deduzi que devia tentar orientar o crescimento dos ramos preservando uma imagem global que me parecesse natural. Não sei se o que fiz está bem ou se está mal, mas se a árvore morrer entretanto acho que vou ter a minha resposta. Se ela sobreviver fico na mesma: não sei se foi porque eu podei bem, ou se foi o bonsai que resistiu à agressão por teimosia. (uma coisa é certa, o bonsai está a durar mais tempo do que todos os peixes que me ofereceram antes dele)
Segundo me lembro do que já li, os ramos do bonsai não devem cruzar-se uns com os outros, devem ter espaço para crescer de forma confortável. Depois há aquela questão do tronco fazer um S... mas isso está nitidamente fora do meu alcance!
É difícil cortar ramos, nunca sabemos se estamos a fazer a opção certa; é didícil cortar com o supérfluo e deixar só o que é essencial, embora depois de cortar pareça óbvio que viver com menos nos dá mais liberdade de movimento e até de pensamento. É difícil dizer não, quando se é constantemente bombardeado com opções, necessidades, imposições. É difícil resistir e manter a velocidade escolhida quando a toda a volta o mundo se movimenta ao dobro da velocidade, incitando ao passar: faz mais isto e mais aquilo, olha esta oportunidade, vira ali, corre acolá.
hoje aproveito também para fazer publicidade a um blog que descobri há pouco. já há livros do autor espalhados por aí. é um blog altamente recomendável, escrito com sentido de humor, opiniões interessantes e interpelantes. a actualização é praticamente diária, ou seja, todos os dias há coisas novas:
Eu não estive no Sudoeste, estive ontem no Coliseu do Porto e foi muito bom!!! Aqui ficam 3 videos do Sudoeste para lembrar a noite de ontem e para aqueles que não tem visto o que o litle david boy anda a fazer :-)
[O Presidente americano Barack Obama decretou hoje o encerramento do centro de detenção de Guantánamo dentro de um ano e ordenou o encerramento, o mais depressa possível, dos outros centros de detenção que a CIA mantém actualmente no estrangeiro para suspeitos de terrorismo. Decretou ainda que os EUA respeitem as convenções de Genebra no modo de actuação com prisioneiros de guerra.
“Aquilo que eu faço agora, não é apenas o cumprimento das promessas que fiz durante a campanha eleitoral, mas também, acredito, uma concepção que remonta aos pais fundadores (dos Estados Unidos) segundo os quais nós esperamos respeitar as normas fundamentais de comportamento, não apenas quando isso for fácil, mas igualmente quando é difícil”]
Bons discursos que se traduzem em actos ajudam a acreditar de novo na Política. Ainda que os sistemas humanos não traduzam nunca a perfeição dos ideais vale sempre a pena lutar para melhorar o que está mal, mesmo quando é difícil, ou principalmente quando é difícil. Muito se tem falado sobre ele nos últimos meses. Barak Obama conseguiu com o seu carisma transmitir a coragem e a esperança que os seus eleitores ansiavam, mas agora é que as palavras se vão escrever na história. Ao contrário da maioria, presidentes de países com os EUA tem o poder de escrever directamente na história do mundo e de afectar milhares de pessoa, para o bem e para o mal. Acredito que pode ser mesmo para o bem. Precisamos de boas notícias.
Às vezes uma sala é pequena demais para tanta desafinação, principalmente quando querem experimentar todos ao mesmo tempo. Haja paciência e sentido de humor!
Dizem que a última vez que nevou cá foi há 25 anos, teria eu quase 2 anos. Já não me lembrava de ver nevar, mas hoje vi. Saí com os míudos da sala e viemos para o recreio ver. A maior parte nunca tinha visto nevar por isso o entusiasmo foi geral. - Professora, parece que é Natal! Porque os postais de Natal tem uma neve que nunca vemos cá. Hoje estivemos todos no recreio, dentro de um desses postais de Natal.
Infelizmente não tinha máquina fotográfica comigo, por isso só tirei fotografias quando cheguei a casa e já tinha parado de nevar. A neve improvável fotografada para a posteridade, porque não se sabe quando será a próxima vez.
Não tenho propósitos de ano novo. Não pretendo mudar muitas coisas. Só algumas. Umas de cada vez. Não tenho pressa. Prefiro pensar o novo ano um dia de cada vez. Hoje onde é que me encontrei? Onde é que me perdi? Quem é que eu ajudei e quem é que me ajudou? Hoje qual é a melhor coisa que posso fazer com aquilo que eu tenho nas mãos: com este tempo, com estas pessoas, com estes sentimentos, com estes medos, com estes desejos, com estas dificuldades, com este dinheiro, com esta oportunidade?
11 dezembro, 2008
O tempo mostra-me que as horas de aulas que estão no horário se multiplicam fora do horário: horas para preparar as aulas, horas para corrigir trabalhos, horas para escrever planificações e avaliações, horas para reuniões, horas para procurar e comprar material, horas para ir e para voltar. Acaba por sobrar pouco tempo, pouco mas que ainda chega para os ensaios coro, os ensaios da festa de natal da catequese, o atelier de escrita criativa, tempo para ouvir "Dreams in colour" do David Fonseca...
tempo para ler os "Contos de Beedle o Bardo" de J. K. Rowling...
tempo para apreciar as cores do poente quando volto para casa, tempo para estar em silêncio, tempo para beber chocolate quente, tempo para almoços e jantares de natal, tempo para passear com a família. Só não sobra tempo para arrumar o quarto... estranho...
Numa época em que tanto se fala e se discute o ensino em Portugal, recomenda-se um filme francês que ganhou a Palma de Ouro em Cannes... Entre les murs Um documentário ficcional: uma turma multiétnica e um professor de francês em eterna negociação, tentando coordenar regras e sentimentos, ensino e diálogo, liberdade e disciplina. Um retrato fascinante dos desafios e das dificuldades que se vivem nas salas de aula todos os dias.
gosto das cores do outono. apetece-me sair de casa de máquina em punho e fotografar as árvores do caminho, uma a uma, como quem recorta o instante suspenso de uma folha prestes a cair e cola essa imagem na retina e na memória até outro tempo e outra luz a apagar. gosto das cores e dos cheiros da terra, e da geada anunciando a branco um inverno próximo. gosto do ar muito frio na cara, das iluminações de natal rasgando a noite, do fumo e do sabor das castanhas assadas na rua... porque sinto em todas as coisas a esperança tangível de um amor anunciado.
podia dizer-te com palavras coisas normais dos dias e das pedras, coisas do andar e do fazer. podia dizer-te com palavras coisas simples e claras, coisas do sentir e do ser. mas não direi nada que não saibas já, por isso calo todas as palavras e procuro dentro de mim a tua voz.
a paz não é só um sonho. daqui não conseguirei, talvez, lutar pela paz do outro lado do mundo, mas vale a pena perceber se onde estou construo paz ou causo discórdia e desunião. onde me sinto em paz? como transmitir paz? ser quem se é dá paz interior, aceitar os outros como são deve dar-lhes paz a eles... digo eu... será?
Penso muitas vezes e repito-o para mim própria: não há tarefas menores. Depois na prática nem sempre me lembro disso. Hoje volto a esta ideia, com mais vontade ainda de a pôr em prática. Se a cada pequena tarefa, se em cada pessoa que encontro colocar toda a minha dedicação, cada encontro e cada tarefa ganha um novo sentido. Eu realizo-me mais porque estou presente naquilo que estou a fazer, sou mais feliz e faço mais felizes os outros. Não quero com isto dizer que devo viver prisioneira do presente. Posso estar dedicada ao presente e elevar os olhos para o futuro, com esperança, com confiança, posso e devo sonhar mais alto e melhor. Aliás se viver bem o presente, com as suas dificuldades e sofrimentos, com as suas alegrias e oportunidades, se levar a vida a sério e lhe procurar sentido, vou com certeza sonhar melhor.
A informação e a consciencialização são essenciais para que cada vez mais se reivindiquem direitos essenciais de doentes, famílias e até de profissionais de saúde. É preciso que a morte seja integrada com naturalidade na vida, que se respeite o tempo de morrer porque para morrer também é preciso tempo. E durante esse tempo há muito para fazer, muito para aprender, muito para viver.
nessas horas em que me sobram palavras não te digo nenhuma, antes cerro os dentes, sustenho a respiração e fico ali imóvel perante o desenrolar invisível desse fio, desse rio, desse mar de palavras infindáveis e mudas que não te direi. fico ali como fonte inesgotável, guardando a água para o lado de dentro (até me constipar de desesperança): não há palavras que me sirvam, não há palavras que nos sirvam. nada do que eu penso me pode explicar, nada do que eu sinto te pode salvar, onde eu sou tu já não estás, onde tu és eu nunca estou. às vezes porém, regresso a casa com esse travo na boca do deserto e da sombra que trazes nos teus passos... (porque não pressinto em ti nenhuma luz) regresso a casa e demoro a chegar, demoro a recuperar dessa dor que não te larga, dessa resignação, dessas cinzas, dessa morte que te habita antes do tempo, regresso a casa e demoro a deixar-te.
parece que tenho tanto tempo livre no horário, mas não me sobra tempo nenhum, ando sempre atrasada, sempre a correr, continuo a não ter tempo para nada... estranho... ou é dos meus olhos, ou da minha falta de disciplina, ou... é o tempo que passa a correr... logo agora que estava a gostar tanto de ler:
"So when the fight is over, And the storm is through, Now will you pick another? What will you get into?
So you stand in the corner, With those boxing gloves on you, You’re old, scared and lonely, Yeah we’ve all been there too… We’ve been all there too…
Kiss me, oh kiss me, If that can make it right. Try me, find me, Just throw them on me… Those failed expectations… Floods and afflictions you’re through. Cause I just might, take them home with me."
um livro, dois cds, 79 faixas, 10 anos, um homem, muitos convidados... uma obra. o que é uma obra pode dizer do seu autor? muito depende do que o autor nos deixa ver...
neste livro, neste album, nesta obra, Manel Cruz deixa a porta entreaberta e cada um encontra uma obra diferente, talvez. para além das letras está a escrita, para além das músicas estão os instrumentos e os sons, e a gravação em si, e a mistura... como quem segue as pistas de uma história indecifrável, seguem-se as páginas e as faixas desta obra, numa odisseia de instantes e sabores e humores... no limite só nos é dado a ver aquilo que o autor nos deixa ver. no limite só nos é dado a ver aquilo que somos. para aqueles que se reconhecem, para aqueles que procuram, para aqueles que se perdem, para aqueles que viajam com a mesma angústia por estes dias, por estes tempos, por estes sonhos. para esses é esta porta familiar, para esses é esta obra um princípio da explicação das insónias habituais. ou uma tentativa de explicação. para esses estas palavras estão debaixo da língua à espera de serem ditas. para esses estas músicas estão debaixo da pele à espera de serem sentidas. para os outros não sei. se alguém se atreve a fazer um objecto assim, inclassificável no conteúdo e na forma porque pessoal, e pessoal também na construção, no tempo que demorou, se alguém se atreve... gostem ou não gostem, há coragem e há verdade. as duas já são raras e juntas ainda mais. e também há talento, neste caso.
aqui onde o tempo não passa eu sou esta sede de encontro e distância, eu sou a memória da esperança, eu vou voltar ao zero, ao princípio, ao silêncio, apagando todas as marcas que me deixaram na pele. eu principio e ninguém me procura as asas (não sabem). eu quero, ser terra de ninguém. esse instante suspenso numa gota de orvalho antes de cair
...é esta a música destes dias sem direcção. outra vez no espaço invisível, indizível. estou no intervalo, no espaço entre... a arder os inevitáveis sentidos dos outros. é isto o presente.
"por fim, por fim sinto a vida que passa, na boca do mundo não se sabe quem é quem"
coisas com luz. há dias em que precisamos de coisas com luz. faz-nos falta. há dias em que o cansaço parece maior, ou a esperança parece menor, e precisamos de ser iluminados por algo ou por alguém para recuperar qualquer coisa que parece que perdemos e não sabemos bem o que é. às vezes basta rir. rir de uma parvoíce qualquer. e tudo fica mais leve.
Vou criar uma nota para casos futuros: não dar tanta importância às coisas às coisas? às coisas em geral
segunda, dia 1 = dores de cabeça, dores de cabeça, dores de cabeça, que dia é hoje? quando é que são 23h, dores de cabeça... noite mal dormida, sem conseguir desligar o cérebro, sem conseguir parar...
terça, dia 2 = são 23h, log off. não correu tão mal... consegui ter apetite para jantar, consegui dormir, sem dores de cabeça
devemos olhar para as coisas com um olhar claro. quanto mais penso, falo, experimento, mais me convenço disso. um olhar claro significa, primeiro, ver a verdade, não cair na tentação de querer ver o que não está lá, nem fechar os olhos àquilo que nos incomoda. não ser displicente, nem ser indiferente. um olhar claro também quer dizer, trazer luz para, iluminar aquilo que se olha, ver o positivo, ver o construtivo, e quem sabe até sonhar mais, melhorar. há pessoas capazes disto. não é só uma qualidade. é um exercício diário, alcançável, com mais ou menos esforço. é transmissível também, na medida em que a forma como olhamos e como falamos das coisas transmitem luz ou sombra aos outros. fico a perguntar-me: e eu, o que andarei a transmitir aos outros? mais luz ou mais sombra?
estou sem telemóvel. uma coisa que antes não fazia falta nenhuma e que hoje em dia parece quase impensável. sabe-me bem. estou incontactável 90% do tempo. quase ninguém tem o meu número de casa. se alguém me tentar ligar ou me mandar uma mensagem só saberei com algumas horas ou mesmo dias de atraso. eu própria só posso marcar encontros à moda antiga. sem confirmações, sem toques, sem mensagens. é nostálgico. sabe-me bem. sabe-me a férias, embora não esteja de férias. mas é nas férias que marcamos assim, encontros informais, com aqueles que encontramos no caminho, com horas para chegar, sem horas para terminar...
as duas músicas foram postadas há muito, mas só apareceram agora. por isso há aqui dois ontens e nenhum deles é ontem. o ontem do herbie hancock foi dia 3 de agosto. o ontem do mário laginha foi dia 9 de agosto. estiveram ambos no Palácio de Cristal, em dois lugares diferentes do jardim. dois concertos muito diferentes. gostei mais do segundo. menos barulho, menos gente, mais intimista. soube-me melhor.
tocaram esta música ontem nos jardins do Palácio de Cristal (entre outras)... é bom ouvir jazz sentada na relva, sentindo na pele o ar frio da noite enquanto a lua descia no céu por entre as folhas das árvores. ao ouvir esta música é preciso respirar nos tempos certos: dentro de nós há tanto espaço, (entre nós) há tanto espaço...
uma das músicas que ouvi ontem. mas esta versão da Corinne faz-me parar. há algo de infantil no sussurrar e tanto de cuidado e de contido na forma como canta. um equilíbrio frágil. parece que se pode partir a qualquer instante (é preciso ouvir com a mesma delicadeza)
há viagens que têm que ser feitas. viagens inevitáveis. ao fundo de nós. ao fundo dos outros. onde nos perdemos, às vezes, por muito tempo, até já não sabermos bem quem somos nem como voltar. viagens que doem. e fazem crescer. há viagens que tenho que fazer. sozinha muitas delas. aparentemente. muitas vezes até para mim pareço parada, parece que a vida é que passa por mim, mas estou em viagem, constantemente. hoje já nada em ti me pode deter, já nada em mim te pode perder. posso parar, quando puder dizer: a minha paz está dentro de mim, a minha casa está dentro de ti.
um filme onde o vilão brilha mais do que o herói... um brilho estranho é certo, o raiar da loucura e da violência gratuita, sem leis, sem limites, pelo puro prazer do caos... assustador portanto. a reflectir dos outros o lado mais frágil, a alimentar-lhes as dúvidas e as limitações... somos capazes de viver os nossos princípios até às últimas consequências?
4h dentro de uma sala, mas não senti o tempo passar. uma peça sem heróis, o retrato de uma sociedade decadente. um homem no centro da história que se deixa arrastar na sua própria pele, preso nas suas teias e nas suas relações... pela inacção vai-se corrompendo e vai corrompendo tudo e todos. porque ser livre implica fazer opções, Platónov, o homem, não se liberta nunca, nem liberta ninguém.
alguns dos convidados iluminaram mais que o anfitrião. ouvir jazz no meio de uma multidão, não é coisa que procure muito, aconteceu. felizmente quando fecho os olhos estou sozinha estou só a ouvir com o corpo inteiro, e ouvir é não pensar.
depois de um ano a escrever a tese, as provas duraram 1h,30... parece curto. (há peças de teatro mais longas). correu bem (falta-me aprender francês para ser a donzela perfeita). desde então ainda não parei, mas no fim de semana reparei que o tempo é todo meu... estranhei, mas sou capaz de me habituar.