22 janeiro, 2012

Bon Iver - Perth (Deluxe)




longe demais ou perto demais?
demasiado lento ou demasiado rápido?
o que vemos? como vemos?
o mistério permanente do tempo
ao alcance do nosso olhar?


04 janeiro, 2012

metamorfose


podia ser só uma impressão. uma coincidência. qualquer coisa que parecia, mas não era. um reflexo e não uma luz interior. mas parecia. qualquer coisa no olhar. ou uma paz na voz, na cor, no gesto invisível, na frequência de vibração das moléculas do ar. parecia diferente. e era mesmo. só ele o sabia.

03 janeiro, 2012

(con)sentida contradição


e agora, e ainda,
de cada vez que me lembrar,
esquecer.

e quase, e claro,
de cada vez que consentir,
perder.

e às vezes, e sempre,
de cada vez que desejar,
morrer.

10 dezembro, 2011

O olhar e o ver

em tempos de crise, e em todos os tempos, há pessoas que desistem e pessoas que reconhecem e agarram as oportunidades, há pessoas que bloqueiam e pessoas que sabem recomeçar uma, duas, três... as vezes que for preciso, há pessoas que se fecham em si mesmas e pessoas que se abrem aos outros. e não quero com isto dizer que o mundo se divide em dois tipos de pessoas, mas que nós, em diferentes tempos, podemos ter diferentes reacções aos acontecimentos, às pessoas, aos sentimentos. 

a qualidade do olhar é um factor preponderante. como vemos? o que vemos? continuamos a maravilhar-nos, ou tudo nos parece mais do mesmo? arriscamos expor-nos, ou temos uma imagem a defender? quando vemos injustiça, sofrimento,... sentimos-nos interpelados ou tornámo-nos indiferentes? o que vemos nos outros? os nossos pré-conceitos? os nossos pré-desejos? será que lá no fundo, bem no fundo, inconfessavelmente, ainda achamos que temos o direito de ser felizes e que os outros tem a obrigação de nos fazer felizes? ou vemos os outros como realmente são, com liberdade interior, sem julgar e sem exigir que correspondam aos nossos desígnios? 

viver atento, acordado, alerta para aquilo que nos rodeia não é um objectivo que em alguma altura está definitivamente conquistado, é uma atitude que se exercita constantemente, é uma meta nunca alcançada, podemos sempre fazer melhor, sempre. será que fazemos?

06 outubro, 2011

A vida inteira



Recuperamos, nas férias, dos cansaços, dos desencantos, das derrotas, dos desencontros,... Recuperamos a paz. Recuperamos os desafios e os desejos que deixamos adormecer dentro de nós. Encontramos outros e (re)encontramo-nos as nós mesmos, iguais, mas diferentes, com mais tempo e mais verdade para ser e para estar.
E assim, iguais, mas diferentes, somos novamente lançados para a rotina, para os trabalhos e os cansaços, as alegrias e os desencantos, as vitórias e as derrotas, os encontros e os desencontros,... Como reagimos? Com que força resistimos? Com que pressa desistimos? De que fibra somos feitos? De que nos alimentamos? Que sentimentos nos invadem às primeiras contrariedades? Esperança ou desespero? Paciência ou raiva? Em que é que mudamos afinal? O que é que trazemos de novo para cada novo dia? O que é que trazemos de novo para o dia dos outros?

Silencio-me e observo. Tantas caras, tanta vida, tantas vozes, tanta pressa, tanta música, à minha volta tudo se movimenta. A cada novo dia, a vida inteira começa. Em cada novo dia, a felicidade reside inteira, disponível, semente à espera de ser árvore. Cada novo dia é uma oportunidade inteira para mudar a minha vida. A minha vida vive-se sempre, inteira, num só dia: hoje. O que dei eu hoje? O que recebi? O que desperdicei?




Paciência



"Uma árvore é uma semente que cresce devagar e em silêncio."
 Bruno Munari



12 setembro, 2011

Sem nada a perder




medo de perder,
medo de sofrer,
medo de viver,
medo de morrer,
medo de ser,
medo de parecer,
medo de errar,
medo de acertar,
medo de ter,
medo de não ter,
medo de ter medo,
...



e se pudéssemos viver sem medo?



01 setembro, 2011

Magis 2011: Peregrinar

Ainda estou a tentar fazer o balanço destas férias. E não me atrevo a grandes conclusões por suspeitar que há experiências, pessoas, encontros, descobertas cujas repercussões só poderemos avaliar mais tarde, pelos frutos. As árvores (e as vidas) avaliam-se pelos frutos.
Tenho para mim que não é só a viagem que me seduz, mas todas as dimensões do peregrinar. Viajar caminhando, devagar, com tempo para estar nos lugares e para estar com as pessoas, com tempo para conversar, com tempo para parar, com tempo para ter tempo. Viajar com pouco, deixando o supérfluo para trás e procurando o essencial. Viajar com as dificuldades e fragilidades que o caminho faz questão de revelar. Viajar com sentido e objectivo para uma meta que não é necessariamente o lugar de destino, mas um novo olhar, uma sabedoria que do caminhar se traz para a vida. E depois, cada destino é também o ponto de partida para um nova viagem, para um regresso, ou para uma nova partida.
Pode às vezes parecer rotineira a viagem da vida. Daí a importância de trazer um olhar renovado para a rotina de todos os dias. E a coragem de enfrentar medos e de nos propormos a ultrapassar obstáculos, mesmo que eles nos pareçam, à partida, montanhas intransponíveis. Afinal, depois de subir a primeira montanha impossível todas as outras nos parecem mais acessíveis.
Podemos nivelar a nossa vida por baixo, correr poucos riscos, viver agarrados às nossas velhas seguranças, achar que não somos capazes de mais e melhor, mas é mentira. Os ideais só são ideais se forem elevados. E há algum risco maior do que a vida desperdiçada? O melhor é não nos satisfazermos com pouco quando o coração pede magis. Correr o risco de trilhar vales e montanhas. Até porque as montanhas sobem-se todas da mesma maneira: um passo de cada vez. Entretanto, convém não esquecer de aproveitar a viagem e a paisagem, porque as metas que valem a pena são difíceis de alcançar.

Magis: Peregrinação entre San Sebastian e Arantzazu - 9 a 14 de Agosto de 2011

26 agosto, 2011

24 agosto, 2011

No coração do mundo


há algo na viagem que nos fascina e seduz.
que nos chama por dentro. sem palavras.
um outro mundo lá fora. longe das nossas seguranças.
uma busca comum que silenciosamente nos guia:
para onde vai a tua vida?
para onde vai este dia?
de todas as cores. de todos os lugares.
para lá dos medos o invisível reluz.
um desejo onde desconhecidos se reconhecem.
um amor que torna próximos os distantes.
um mundo inteiro lá fora. à nossa espera.

03 agosto, 2011

Contagem (de)crescente


Dia -1

Música: CD "Em fuga" - Tiago Betterncourt & Mantha
Objectos: Mochila, lista de coisas a levar, coisas propriamente ditas
Acção: Fazer a mala.

O que precisamos realmente? O que levamos e o que deixamos para traz? Viver com mais. Viver com menos. O que nos faz realmente falta? O que podemos dispensar? Torna-se mais fácil decidir quando sabemos que vamos ter que carregar a mochilas às costas no caminho... (mas não temos sempre? não carregamos o peso das coisas todos os dias?) As escolhas que fazemos influenciam a viagem. Que viagem queremos fazer? Que valor damos realmente às coisas? Será que elas têm esse valor? Ou poderíamos viver melhor sem elas? Fazer escolhas. Fazer a mala é fazer escolhas. Fazer a mala é um exercício de liberdade.


Preâmbulo


a partida marcada. daqui a dois dias. e a mala por fazer. ainda. tempo não me tem faltado. porquê? adiar. sou perita em adiar. não pensar. para não ter que pensar. em quê? na partida. na chegada. no espaço entre. no tempo durante. para não pensar. para não ter medo. de quê? sei lá. do barulho. do silêncio. da multidão. da solidão. de tudo. de nada. de perder. de encontrar.

a viagem marcada. definitiva. agora já não há nada a fazer. já não há tempo. já nem sequer há tempo para não pensar.


23 julho, 2011

oportunidades


a vida é frágil. parece energia fulgurante. parece intocável. parece garantida.
às vezes vivemos como se fôssemos imortais. desperdiçamos. energia. tempo. oportunidades. dizemos: haverá outras oportunidades, mas não é exactamente verdade.
as oportunidades que desperdiçamos não voltam. as oportunidades que desperdiçamos não se repetem.
haverá outros tempos, outras pessoas, outras oportunidades, nós próprios seremos outros.
a inacção é uma forma de acção. as oportunidades que virão, serão outras. mesmo outras. melhores? piores? é muito difícil sabê-lo.


perspectivas


Às vezes a distância... é o melhor remédio.
Quando estamos perto demais nem sempre temos consciência do plano geral.
Dava jeito, às vezes, conseguirmos ver-nos (a nós, às nossas opções, às nossas relações) à distância.


10 julho, 2011

esse lugar invisível que te habito sem saberes II


É provável a ilusão. O desejo tem destas coisas. A vontade férrea de persistir, de se ultrapassar, de passar do pensamento à acção. É capaz de criar qualquer ilusão para servir o seu ardil. Eu não posso ser quem tu desejas, não posso ser quem tu precisas, o tempo todo. É uma ilusão, mas a sensação do meu desejo é essa, a ilusão do meu desejo é essa: é seres em mim, já, o que ainda não sabes e eu ser em ti o que ainda não sentes. Desde sempre. Desde que nasceste e até morreres e mesmo que nunca o venhas a saber. Eu ser em ti, desde sempre, esse lugar invisível que te habito sem saberes.


22 junho, 2011

esse lugar invisível que te habito sem saberes


gastei os meus passos a caminhar,
mas não cheguei a nenhum lugar.
devolvi o meu corpo à terra,
mas ela não o recebeu.
abri o meu flanco para dar de beber aos pássaros,
mas eles não se aproximaram.
voltei para casa, sozinha, sem ti,
mas haverá algum lugar onde tu não estejas?


Radiohead - Fake Plastic Trees



(nada a acrescentar)


18 junho, 2011

Distâncias


Há momentos em que estamos perto demais.
Às vezes a diferença mínima de alguns milímetros é o suficiente para ultrapassar a barreira da distância de segurança mínima garantida, uma linha invisível, quase, quase imperceptível.
Em cima da linha não é possível ficar. Ou se mergulha de cabeça. Ou se recua sem hesitar.
Acontece, às vezes, que o desejo quer avançar quando a razão quer recuar. Isto não torna mais difícil a decisão (para quem tem a certeza de quem é e do que quer para si). Às vezes queríamos poder acreditar na ilusão de que outra decisão é possível, mesmo quando sabemos que não é. Queríamos poder adiá-la quando no fundo ela esta tomada à partida.
O desejo ameaça sempre que vai dar luta, mas não se pode ceder à chantagem só para tentar manter uma paz aparente. Se a verdadeira paz quer ser (re)conquistada vamos à luta que o desejo tem mais garganta que poder. (Lutar faz bem. Aquece nas noites frias. Traz diversidade à banalidade dos dias. Fortalece os músculos interiores da renúncia e da vontade).


entrega


o que realmente me emociona são as pessoas.

pessoas com ganas de viver, orgânicas, de alma e carne e liberdade e desejo.
pessoas capazes de subir ao palco e dar tudo o que têm lá dentro, de bom e de frágil, de coragem e de medo, no fundo, tudo o que são.


14 junho, 2011

Caetano e Maria Gadú - O Quereres (Ao Vivo)



sabe bem ouvir cantar assim ao fim da tarde (ou a qualquer hora) em casa (ou em qualquer lugar). sabe a férias quando há ainda muito trabalho pela frente, mas apetece, de repente, fazer uma pausa para respirar. parar como quem tem todo o tempo p'ra parar, sem correr, parar só, mesmo, mesmo devagar (como um beijo devia ser: instante parado no tempo de quem não tem pressa de partir, nem de chegar).

eu estou descompassada com a vida,
a vida a correr e eu perdida,
não sei se atrasada ou diante da terra prometida
(sem a ver).
o desencontro às vezes sabe a despedida,
mas não me parece perdido o tempo que perdi
(e ainda perco)
a aprender a perder.

liberdade é coisa de difícil apetecência, menos de apetecer e mais de paciência.
às vezes apetece menos, de querer estar perto demais.
às vezes apetece mais, de querer voar p'ra bem longe, onde não se toca nem se vê.
às vezes parece de menos, de não haver espaço para se ser quem se é.
às vezes parece demais, de quase roçar a solidão.
há que estudar a arte da iluminância, menos de ânsia e mais luz (e de esperanc(i)a)
para aprender a ganhar até quando se fica a perder.



10 junho, 2011

o dia depois de ontem


este é o dia seguinte.
por isso convivem em mim dois sentimentos contrastantes. a satisfação pelo trabalho realizado. e um certo vazio, difícil de explicar... (saudades já de algo que terminou? ou a difícil tarefa de me re-equilibrar depois de ter exigido tanto de tudo, e de todos e de mim.)
às vezes penso que outra forma de viver e de trabalhar deve ser possível, eu é que ainda não a descobri, por isso gasto-me assim, na primeira pessoa do singular, no presente do indicativo. por isso às vezes o medo. porque entregar (me) assim é arriscado.
damos e recebemos, mas onde estamos? se estivermos só no que damos, arriscamos ficar sem nada? ou damos sem medo e em liberdade porque o fazemos a partir do centro, do núcleo duro daquilo que somos e daquilo em que acreditamos? e não tememos esvaziar-nos porque sabemos que o amor não se gasta nem se divide, antes se multiplica nas mãos de quem o dá.

29 maio, 2011

Modus operandi


vai aonde queres ir,
diz o que tens a dizer.
sê educado e sensato,
humilde, mas não condescendente,
corajoso, mas não intransigente,
livre acima de tudo,
na relação com as coisas e com as pessoas,
na certeza de que tudo passa,
(até a vida)
e portanto não tens nada a perder.


23 maio, 2011

70 km/h


no sábado levava a avó e a Lina no carro:
"olhe aquela é a casa do Fernando, está a ver?"
"e agora, já sabe onde é que estamos?"
"não, ainda não atravessamos a ponte"
"olhe o milho como está grande, nasceu muito bem"
percebi finalmente por que é que o meu avô conduzia tão devagar.
porque quando se conduz rápido demais, como eu normalmente conduzo, não se consegue ver se o milho já nasceu.


17 maio, 2011

GIVE CHILDREN A HEALTHY START IN LIFE


Why Bother? from ONE Campaign on Vimeo.


New and effective vaccines are now available to help prevent two of the biggest killers of children under 5: pneumonia and diarrhoea. With these vaccines we can save 4 million kids' lives in the next 5 years. But we've only got a few weeks to make it happen. Next month world leaders are meeting at the Global Alliance for Vaccines and Immunisation pledging conference to decide how much they will support the roll out of these vaccines in developing countries.


Help protect children for a lifetime by adding your name here:

http://www.one.org/international/actnow/vaccines/o.pl?id=2318-4763128-UKSEpRx&t=3



14 maio, 2011

Receita


um oásis.
só preciso de cinco minutos de oásis por dia para me abstrair da quantidade de trabalho que tenho pela frente e descansar.
e um café.
um café depois do almoço para enfrentar a tarde, noite, madrugada (o tempo que for) com energia aproximadamente constante.



22 abril, 2011

Arvo Part - Fratres For Cello And Piano




pela música não pelo filme (embora tenha gostado do filme).
pelo silêncio a que (est)a música nos impele.
e mais não digo: (hoje).


18 abril, 2011

sentido de oportunidade III


às vezes (muitas vezes) espero pelo momento certo para falar: quando houver silêncio, quando alguém fizer a pergunta certa, quando servirem o café, quando chegar mais alguém, quando alguém se for embora, quando for a hora certa... às vezes (às vezes) não chego a falar.


sentido de oportunidade II


enquanto não as conhecemos as pessoas são caras indistinguíveis na multidão. podemos passar por elas, vezes sem conta, sem as vermos. depois de falarmos com elas uma vez, passamos a vida a encontrá-las, mesmo sem querermos.


sentido de oportunidade I


mais do que muitas palavras,
mais do que palavras a mais,
o silêncio diz-te muito bem
e cala-me ainda melhor.


14 abril, 2011

Páscoa


o fim e o princípio sobrepostos,
lugar onde se cruzam todos os caminhos,
ponte para lá das palavras e dos gestos.

um amor que no silêncio se revela,
que na humildade se traduz
em entrega desmedida.


04 abril, 2011

É para já!


Passo a vida a adiar, coisas pequenas, coisas grandes, coisas assim-assim. Adio a hora de ir dormir, adio o sono para outro dia, adio a hora de acordar, adio o que tenho que ler, adio o que tenho que escrever, adio o que tenho que compor, adio o que tenho que estudar, adio a oração para amanhã, adio o exercício para depois de amanhã, adio e-mails que tenho que enviar, adio reuniões que tenho que marcar, adio pessoas que devia visitar, adio o que tenho para dizer, adio o que tenho para sentir, adio, adio, adio...

Facilmente, reparo, me habituo a adiar não só as coisas chatas, mas também as coisas boas, por medo, preguiça ou distracção. adio a felicidade para outro dia por que me esqueço de viver bem o tempo, as oportunidades, as pessoas de todos os dias...



E se hoje começar a olhar para os dias de outra forma? Se em vez se adiar decidir: é para já! É para já o trabalho, é para já deitar cedo e cedo erguer, é para já fazer exercício, é para já aproveitar melhor o tempo e ter tempo para ter tempo e ter tempo para descansar e ter tempo para estar. É para já a vida!



31 março, 2011

Haikus - Tentativa 1


na multidão de anónimos
caminhar.
silêncio.




no muro dos dias
tricotar janelas,
ver.




tempo de dar.
tempo de parar.
(in)decisão.




entra pela porta fechada.
a verdade nos gestos, o silêncio na boca.
a beleza.




ruído de passos.
ninguém.
a memória.


22 março, 2011

memória II


pela noite adentro.
o relógio a morder-me os calcanhares.
lentamente.


memória


à volta, à volta, à volta de um trabalho sobre memória...
parece que me tenho esquecido.


21 março, 2011

The National - England (Live Directors Cut)




repetidamente, por tempo indeterminado (acho que me estou a repetir)


The National - Runaway (Live Directors Cut)




estou viciada. posso ouvir The National todos os dias, as mesmas músicas, repetidamente, por tempo indeterminado.


20 março, 2011

dar... ou dar-se


dar sem querer nada em troca... é difícil? muito. mesmo quando nos convencemos de que somos desinteressados, muitas vezes esperamos uma retribuição, um reconhecimento, talvez apenas um obrigado bastasse, mas nada, nada de nada (mesmo nada) é difícil de digerir.

quanto mais não seja, dar dá, muitas vezes, alguma satisfação interior... mas dar pelo bem do outro e não para nos sentirmos melhores pessoas... dar a quem nos irrita, dar a quem nos tira (a paz e paciência), dar a quem nos incomoda... é difícil? muito.

e quando digo dar... não quero dizer necessariamente dar alguma coisa material, às vezes quero dizer dar-se. é difícil? muito, mas só o facto de estarmos atentos faz-nos encontrar muitas oportunidades de dar... oportunidades que temos todos os dias e que por distracção ou preguiça desperdiçamos.


15 março, 2011

é só isto?


Não gosto de improvisar, gosto de me preparar, não gosto de me sentir sem chão, gosto de controlar, gosto de saber a resposta certa antes de ouvir a pergunta... mas, às vezes, tanta segurança sabe-me a pouco.
Às vezes, pergunto-me: é só isto? Deve haver alguma coisa lá fora pela qual valha a pena arriscar, alguma coisa pela qual valha a pena lutar, alguma coisa que ultrapasse a banalidade dos dias, alguma coisa na qual o coração se reconheça. Deve haver.



09 março, 2011

(in)versão


quando não te vejo é que não te esqueço,
quando não me falas é que não me calo,
quando não me tocas é que te desejo,
e neste desencontro nada te subtrai,
só se multiplica a tua longa ausência.

quanto mais analiso a raiz do questão
mais me confundo e mais me convenço
da ausência de ciência nesta (in)consciência.

quanto mais verifico a insolução
mais me critico e mais me disperso,
mais te encontro e mais me afasto da razão.

esta (in)consciência ignora as leis da física
e da matemática e da linguagem e da gestão
e outras que tais...

mas eu não.

se a (in)consciência ignora todas as leis
eu ignoro a (in)consciência e outras que tais
e da tua presença me subtraio:

se te vejo mais depressa esqueço,
se me falas eu não te respondo,
e se me tocas não te quero mais.



06 março, 2011

2+2=5


na música, como na vida, é essencial ser generoso.
tudo aquilo que se dá de forma desprendida, despretensiosa, sincera e alegre é sempre melhor do que aquilo que pensamos que tínhamos para dar.
a música, como a vida, é feita de relações, onde, às vezes, se observa inesperadamente que o resultado final é superior à soma das partes: afinal sempre há lugares onde 2+2=5. E podiam ser muitos mais...

hoje, ou melhor, ontem, foi um prazer encher de música e vozes e vida o palacete pinto leite, hoje esvaziado dos móveis, dos instrumentos, dos professores e alunos do conservatório de música, mas não esvaziado da sua identidade, ou, por que não, da sua personalidade. porque há casas que absorvem e reflectem a história e as estórias que as habitaram, ecos de um passado que se projectam no presente, que nos contaminam e nos inspiram a fazer melhor. [somos duração e temos dentro de nós todos os tempos: o que já fomos, o que hoje somos e o que seremos.]


26 fevereiro, 2011

disciplina


muitas vezes sou prisioneira dos meus sentimentos e desejos.
hoje saio em liberdade condicional por bom comportamento.


22 fevereiro, 2011

a outra face


os nossos pré-conceitos afectam de forma determinante a atitude que temos perante os desconhecidos, se sorrimos ou não, se somos mais ou menos pacientes, se somos mais ou menos sinceros, ou melhor, mais ou menos parecidos com o que somos realmente.
as nossas experiências anteriores com as pessoas afectam a forma como as tratamos da segunda, da terceira, da décima e da milésima vez porque é muito difícil ultrapassar diferenças e mágoas prévias para arriscar ser gratuito e olhar com um olhar renovado uma e outra vez.
por último, a nossa opinião em relação a nós próprios, a nossa auto-estima, aquilo que achamos, mais ou menos conscientemente, que merecemos (ou não) reflecte-se a todo o momento nas nossas opções e acções em relação aos outros (como uma espécie de profecia que se auto-realiza). quantas vezes nos desvalorizamos silenciosamente, quantas vezes esquecemos que o valor intrínseco de cada um é completamente independente das qualidades e dos defeitos, do QI, das aparências, ...
eu que me reconheço como num espelho em todas estas armadilhas (dos pré-conceitos à auto-desvalorização) fico a pensar: como seriam as nossas relações se nos libertássemos de todas estas correntes?


18 fevereiro, 2011

horários


gosto da manhã. da luz da manhã. da sensação de que todas as coisas são ainda possíveis. do pequeno-almoço. do cheiro a café.
gosto da noite. do silêncio. de conduzir pelas estradas vazias. das conversas intermináveis. do luar. de ver o dia nascer. de ouvir o dia nascer.
gosto de dormir muito, mas não me consigo deitar cedo. por isso no tempo de aulas durmo pouco e vejo muitas manhãs. nas férias durmo muito e vejo muitas noites, poucas manhãs.

07 fevereiro, 2011

de férias...


quinze dias de férias muito ansiados depois de um semestre exaustivo. nos primeiros dias dormi até tarde e não fiz nada de jeito... o que rapidamente se tornou enervante. será que estou viciada no trabalho? será que já não consigo não ter nada para fazer? é triste. já o tinha sentido nas férias de verão. se não tenho nada marcado não faço nada, nem sequer saio de casa e fico a vegetar. rapidamente fico deprimida e as férias tornam-se cansativas e não o contrário. A solução portanto é arranjar objectivos:

Ir ao cinema:
Biutiful
Cisne Negro
Indomável
O discurso do Rei

Ler:
Tudo o que sobe deve convergir - Flannery O'Connor
1 Km de cada vez - Gonçalo Cadilhe
Northanger Abbey - Jane Austen
Antígona - Sófocles
A queda de um anjo - Camilo Castelo Branco
Fragmentos - Novalis
Poesia - q.b. - Daniel Faria, Eugénio de Andrade, Sophia de M. B. Andresen

Reler:
Terra dos Homens - Saint-Exupéry

Ouvir:
Du Temps & de L'instant - Jordi Savall,...
Mongrel - Mário Laginha Trio
Sinfonia nº 1 e Vathek - Luís de Freitas Branco
Integral das canções - Luís de Freitas Branco
Lieder - Vianna da Motta
Xinti - Sara Tavares
Lungs - Florence & the Machine
Forbidden Fruit - Nina Simone
B Fachada - B Fachada
Riot on an empty street - Kings of Convenience
Kid A - Radiohead
Boxer - The National

Rezar
Escrever
Tocar piano
Tocar guitarra
Arrumar o quarto (...)
Fazer exercício (.............)
Ir ver o mar
Não fazer nada
Estar com os amigos
Fazer um plano para o dia
Ir comer jesuítas à pastelaria Moura

serão objectivos a mais? vou ficar frustrada se não conseguir atingir os objectivos? não sei, mas li algures que fazer planos é a melhor maneira de evitar a inércia e a indecisão. e não fazer planos também não parece estar a resultar... por isso vou tentar!


29 janeiro, 2011

Mais


queremos sempre mais, mais liberdade, mais paz, mais felicidade, mais justiça, mais realização, mais verdade, mais amor, mais, mais, mais... mas será que procuramos no lugar certo? ou será que nos deixamos absorver pela procura? os tempos sucedem-se, uns mais fáceis, outros mais difíceis, às vezes parecem atropelar os nossos planos perfeitos e as nossas óptimas intenções...
sei que a liberdade será sempre incompleta, que a felicidade será sempre imperfeita. olho para dentro e percebo que já tenho, no fundo, a paz e a liberdade que preciso para o dia de hoje, para o tempo presente. desconcertante, não é? inesperadamente simples. queremos sempre mais, mas o tempo não se apressa, as conquistas demoram o seu tempo (às vezes a vida inteira) e cada tempo traz as suas próprias respostas.


28 janeiro, 2011

(des)existir III


há uma linha que marca a fronteira. há uma linha para lá do cansaço, para lá da razão... e cada passo que dás nessa direcção aumenta grão a grão o teu desfasamento com o resto do mundo. o mundo vai ficando cada vez mais longe e desfocado. o corpo cada vez mais lento e mais cansado. quanto tempo se pode caminhar nesse deserto? quanto tempo vive uma árvore sem raiz? quanto tempo até o corpo desistir? quanto tempo até o vento apagar os teus passos e não saberes mais para onde voltar? quando tempo? um dia? uma hora? um passo?


20 janeiro, 2011

(des)existir II


às vezes a persistência é boa. é preciso saber esperar.

às vezes a persistência é teimosia. é preciso saber perder.


18 janeiro, 2011

o lado-luz dos dias-sombra


hoje o meu cansaço é daqueles que tem raízes antigas e profundas, daqueles que continua a doer no corpo mesmo depois de dormir. [daqueles que quase me faria escrever (te).]
hoje o meu cansaço é também mais lúcido: vejo como me tenho deixado governar pelo trabalho e não tenho respeitado os meus limites, vejo que tudo o que me dói é falta de liberdade. falta de liberdade se só tenho tempo para trabalhar e se me desiludo como se tudo dependesse de mim. falta de liberdade se vivo centrada na minha vidinha, neste círculo fechado e pequeno onde só cabem as minhas necessidades urgentes, as minhas pessoas ausentes, as minhas dores, os meus cansaços, os meus objectivos. falta de liberdade se me iludo com os meus desejos e invento papéis para os outros, e desespero com a espera, e me angustio com as ausências e com a liberdade dos outros. [por que é tão difícil respeitar a liberdade dos outros de ficar ou de partir?]. falta de liberdade se por desilusão me isolo e ignoro a vida que chama lá fora todos os dias: tenta mais, faz mais, vive mais, dá mais! falta de liberdade se me ocupo e ignoro a vida que me chama cá dentro: acredita mais, faz melhor, vive em paz, dá gratuitamente!
no meio do cansaço percebi também que preciso muito desse lugar chamado casa e que esse lugar não é simplesmente um lugar-lugar, mas sim um lugar-pessoas. a minha casa é onde estão as minhas pessoas-casa. e quando estou muito cansada descanso melhor se estou ao lado delas. às vezes não preciso sequer de desabafar com elas, basta-me estar com elas e ouvi-las e falar das coisas banais dos dias e das coisas importantes que nos angustiam, que nos movem, que nos comovem, basta-me estar com elas sem dizer nada para me sentir em casa e ficar melhor. [se o cansaço me faz olhar melhor para mim, para os dias e para os outros, então não pode ser mau. afinal, nada é só bom ou só mau.]


15 janeiro, 2011

Coldplay - See You Soon




essencial para a felicidade de cada dia é a confiança. cada dia é uma oportunidade de fazer melhor, de ser melhor, mas há muitas coisas que não se conseguem controlar. tantas vezes nos deixamos arrastar pela correria do mundo, pela falta de tempo para parar, para estar. tantas vezes nos deixamos confundir pela distância entre o que desejamos e a realidade. é essencial confiar: "para tudo há um momento e um tempo para cada coisa que se deseja debaixo do céu". tempo para procurar e tempo para esperar. tempo para falar e tempo para calar. tempo para abraçar e tempo para evitar. tempo para encontrar e tempo para perder.


13 janeiro, 2011

dias de inverno e erosão


sentimentos e ilusões em constante confronto com a realidade - a erosão a gastar-me por dentro, a esculpir fronteiras, montanhas, falésias interiores. o cansaço à flor-da-pele a estender raízes para o lado de dentro... não sei por onde andam, mas às vezes sinto-as: pequenas vibrações, pequenas (in)dores.
cada palavra que escrevo é silêncio que me ocupas; a cada palavra-passo estou um instante mais longe. a cada instante inspiro o que te afastas e paro, espero. em cada instante adivinho o princípio, o meio, o fim, realidades separadas ou diferentes existências condensadas numa mesma realidade, presentes em potência em cada pessoa, em cada oportunidade, em cada escolha? isto é o princípio, ou o princípio do fim? ou somos um meio para atingir um fim? ou somos fins, mas não há meio de principiarmos?


11 janeiro, 2011

citação


"o esforço é uma espada de dois (le)gumes"


09 janeiro, 2011

o princípio, o meio, o fim


em cada tempo, acontecimento, pessoa ou relação estão contidas, em semente, o seu princípio e o seu fim. não os conseguimos ver, mas estão cá. não os consigo ver, mas trago-os dentro de mim. o princípio, o meio, o fim. não posso ver, mas posso confiar. olá, adeus, talvez sim, talvez não, quem sabe?...


fim do semestre


estes são dias de hibernar. não estou cá. estou retida. estou contida. estou ausente.


05 janeiro, 2011

(des)ilusão


Há dias em que todas as horas são distância.


04 janeiro, 2011

(des)existir


luz e sombra
angústia e sede:
a distância tece-te
em meus dedos.
já não sou livre,
já não sou perto,
sou a retórica dos teus medos,
sou a esperança esquecida,
sou a voz dos teus segredos,
sou a ausência da criança,
sou a manhã branca e mordida
pela pulga na balança.
sou as mãos do teu silêncio,
sou as noites que não dormes
e as insónias que não tens.
sou a palavra escondida
na tua página vazia,
sou a rotina que te azia.
sou o verbo que desistes,
sou o substantivo que não usas,
sou complemento directo a que resistes.
sou o cansaço que não dizes,
sou tua dor que não descansa,
sou o teu sonho por cumprir
por isso levanta-te e dança
que eu estou decidida,
vou ficar (estou perdida,
não tenho nada a perder).


03 janeiro, 2011


"Houvesse um sinal a conduzir-nos
E unicamente ao movimento de crescer no guiasse. Termos das árvores
A incomparável paciência de procurar o alto
A verde bondade de permanecer
E orientar os pássaros"


Daniel Faria
in "Poesia" (2009)
Edições Quasi


31 dezembro, 2010

2011


Três desejos muito pessoais para 2011, quase propósitos, embora eu não goste de propósitos... tenho tendência para não cumprir nenhum, por isso já nem vou escrever aqui: fazer exercício (que sei que preciso, mas nunca faço...) nem ler mais(que quero mesmo, mas nunca arranjo tempo, só nas férias). O que eu preciso, para que essas e outras coisas sejam possíveis, é de mais esperança (não precisamos todos?), disciplina e liberdade. (Mais vale começar já hoje e não deixar tudo para o próximo ano).

24 dezembro, 2010

oração


que o silêncio te diga
o que não te sei dizer.
que o silêncio te abrace
se não te posso tocar.

que o rio do tempo
te traga a salvo para casa,
seja ela no mar
ou noutro qualquer lugar.

[se a fizeres sobre as ondas
que as saibas navegar,
se a construíres nas nuvens
que aprendas a sonhar.]


22 dezembro, 2010

natal


há quem não acredite, há quem pense que é um hábito histórico-cultural, há quem só veja as aparências, há quem reúna a família, há quem se lembre de quem mais precisa, há quem gaste demasiado e ofereça muito pouco de si, há quem já não se lembre, há quem esteja tão sozinho como em todos os outros dias, há quem goste das decorações e se deixe ofuscar pelas luzes...

natal: um nascimento que começou há mais de 2000 anos e nunca mais parou de acontecer. que significado pode isso ter, hoje, para cada um?


21 dezembro, 2010

palavras tantas


muitas vezes (a maior parte das vezes) tenho muitas coisas a dizer a muito poucas pessoas, geralmente a uma só pessoa. quando essa pessoa não está presente ou disponível, não sei o que fazer com todas as palavras que me sobram: guardo-as nos bolsos, mas os bolsos ficam cheios depressa demais, digo-as a outras pessoas, mas não parecem entendê-las, calo-as, mas continuam a crescer em número e intensidade. não me resta outra solução senão escrevê-las. às vezes basta uma enumeração indiscriminada, outras vezes escrevo alguma coisa secundária em que perco algum tempo a pensar, outras vezes tenho que escrever exactamente o que queria dizer. tenho algumas palavras preferidas, poucas, raras, palavras de estimação que uso frequentemente, mas com cerimónia (luz, sombra, espera, raras, liberdade). às vezes apetece-me usá-las todas de uma só vez, ceder à urgência de dizer tudo (tudo o quê?), ficar reduzida a cinzas, vazio, ausência de mim em mim (paciência, procura, medo, paz, pássaros, urgência, rio). às vezes, por muito que queira falar, os outros pedem-me silêncio (distância, cinzas, ausência, silêncio, morte, espaço, vazio). que assim seja (parar, escrever).


20 dezembro, 2010

férias


primeiro dia de férias...(quais férias?)
como estou? doente. Que pontaria!!!


15 dezembro, 2010

tese


o desencontro não existe.
a probabilidade do encontro é directamente proporcional à vontade.


metáfora


fosse possível excluir todas as palavras menos uma, decantar, filtrar, destilar, purificar, extrair, recristalizar: uma palavra só que te dissesse, que atravessasse as fronteiras do corpo e do tempo e fosse em cada instante metáfora da tua presença em toda a parte.


dialéctica


nem tudo o que reluz faz frio,
nem tudo o que assombra é puro,
nem tudo o que seduz é bom,
nem tudo o que se diz é claro,
nem tudo o que se cala é escuro.


(da madrugada)


13 dezembro, 2010

perspectivas


e se tudo o que acontece for o melhor, mesmo que as vezes não pareça?
e se tentar fazer o melhor com tudo o que acontece, mesmo que às vezes não apeteça?


12 dezembro, 2010

Tiago Bettencourt & Inês Castel-Branco "Se Cuidas de Mim"




a propósito de coisas simples, uma canção simples. às vezes as coisas simples estão mais perto da perfeição. a amizade, por exemplo, uma coisa aparentemente simples...


coisas simples


há uma beleza nas coisas simples e claras, nas coisas que nos fazem bem e que às vezes parecem raras e outras vezes estão só escondidas pela quantidade enorme de tralha que nos ocupa os dias, sejam as listas intermináveis de coisas a fazer, seja a incapacidade de viver com mais liberdade e mais humildade. sou menos livre quando ignoro o que os outros precisam de mim e espero que eles sirvam as minhas necessidades, quando os manipulo mais ou menos conscientemente para servirem as minhas vontades, quando ajo por interesse e não de forma gratuita. sou menos humilde quando me recuso a pedir ajuda por me ter habituado a viver como se fosse auto-suficiente, como se não precisasse de ninguém. tantas coisas que podem tornar a vida mais difícil do que ela já é, desnecessariamente. a humildade é a verdade, já dizia a madre Teresa, é ser-se quem se é, não usar máscaras, não se sobrevalorizar e não se menosprezar, não parecer mais forte do que se é, não lutar continuamente para se esconder ou para se mudar aquilo que se é. É bom procurar a superação, é bom procurar fazer sempre o nosso melhor, mas se isso se tornar um fim em si podemos esquecer-nos de aproveitar o caminho. viver continuamente no limite pode tornar-nos piores pessoas, mais distraídas, mais cansadas, menos disponíveis para o que realmente interessa. Se o preço da superação for muito elevado, talvez seja caso para perguntar: será mesmo superação? não será maior superação aceitar os próprios limites e viver bem com eles?


06 dezembro, 2010

nina simone - how it feels to be free - montreux 1976




"i wish i would know how it feels to be free"
(i wish you to know how it feels to be free)



(uma mulher de armas!)


inverno


estico o teu silêncio sobre os dias
como um cobertor pequeno demais,
fica sempre um pé, um braço, uma hora
à mercê dos temporais.

escrevo para completar o cobertor.
dirás talvez: palavras a mais.
escrevo para aquecer a dor
nos locais onde o frio se demora.



de outra cor


ainda bem que chove por estes dias, assim não tenho que me preocupar com o que vestir para disfarçar a dor, porque o mundo é da minha cor. eu visto as nuvens e caminho incólume através da tempestade. eu deixo o frio brilhar através dos meus dedos. deixo desejos e medos soltos no vento para ele os dispersar. o meu grito é o ribombar dos trovões e o rumor da chuva sobre a terra sou eu a murmurar.


05 dezembro, 2010

paz


dentro do corpo um grito mudo,
quando a alma me pede revolução
e a razão surda lhe diz que não.
já sinto na pele as marcas da guerra,
já sinto na boca o sabor do medo.
desta vez peço paz, fico em terra,
não tenho forças para lutar em vão.
desta vez pedes paz, calo a ambição,
ouço o teu silêncio azul-denso-fundo.


do outro lado


hoje vou calar o desejo, a procura, o dever,
ignorar essa voz que me agita os sentidos,
vislumbrar um poema e não o escrever,
recusar essa sede de perto e de mais,
ver-te ao longe na rua e não te chamar,
ser de vento, invisível, desaparecer,
não ter nada a dizer e esquecer-me do resto,
já não ser, não pensar, ser silêncio profundo,
ser outro, ser além, ser o resto do mundo.


04 dezembro, 2010

liberdade


só é livre quem liberta.
não peças, dá.
não digas, faz.
não cales, sê.


integridade


"não é importante ser perfeito,
o que importa é ser inteiro"

(Jung)


verdade


não alimentes nenhuma mentira
(por mais ínfima que te pareça)
se queres viver na verdade.


02 dezembro, 2010

nada


não vou escrever, não vou escrever, não vou escrever, não vou escrever, (isto sou eu a não escrever) dói-me, mas não vou escrever, não vou escrever, não vou escrever, não vou escrever, estou calada, está-se mesmo a ver que estou calada, não digo nada, fico aqui quietinha e calada, não vou escrever, hoje definitivamente não vou escrever mesmo nada.


01 dezembro, 2010

um dia mais perto


caminho como quem traz permanentemente
um segredo invisível na mão,
uma pequena luz guardada sob a pele
na direcção do coração
que muda quase imperceptivelmente a cor
das ruas, dos outros, dos dias.


ouvi dizer II


dizem-me que cale, ignore, iluda,
que enterneça, que disfarce e entre-teça
e a seguir desapareça.
dizem-me que, com lucidez,
respeite as regras
e finja estar, tanto quanto possível,
absolutamente desinteressada.


ouvi dizer I


quando o que quero é dizer coisas simples:
pedra, mão, rio, mar, terra, fogo, ar
e só me saem redes intrincadas,
frases complexas, palavras complicadas,
devia respeitar as regras do jogo
e desaparecer, agora, enquanto não está ninguém a ver,
mas quem disse que eu sei jogar?


silenci-ar


Hoje é claramente um daqueles dias
em que está frio demais
para esperar pela noite em silêncio.

podíamos gritar...

[mas não há nada que cale melhor o frio
do que o instante imóvel,
o meu silêncio no teu olhar
o teu silêncio na minha boca,
o espanto]


30 novembro, 2010

claramente obscuro


a taça vazia sobre o muro.(existir não chega).
um gesto de atenção chegaria para encher a taça.
(um gesto quase banal devolveria o estado de graça).
um movimento mais brusco e desilude-se a ilusão.
um passo impreciso entre a confiança e a dúvida,
um gesto inseguro por um móbil mais puro.
cala-te, mas não te esqueças do que ias dizer.
calo-me, mas não me esqueço do que posso sofrer.

os dias sucedem-se na lista telefónica do esquecimento
(que dia é hoje? é teu este dia?)
agarro-me ao meu (medo ou) mecanismo de segurança interna-dor (msi-dor)
e escrevo (me) sucessivamente em dó menor
para disfarçar a falta de talento para entender o mundo:
dó, ré, mib, ré, dó, solilóquio mudo em tom profundo
(queres ver a cor deste tempo, dos dias que eu já sei de cor?
dos dias iguais a todos os dias: cadência suspensivo-controla-dor)

não há palavras que me sirvam, que me aqueçam, que me calem
mas para dizer o que (te) digo, melhor seria estar calada,
pois às palavras tantas sinto que te engano, me desdigo:
não é minha a tua voz, não é teu o meu desejo,
não é tua a minha esperança, não é meu o teu cansaço.
silencio o cálculo da probabilidade das imponderabilidades e descanso,
hoje é só mais um daqueles dias de desassossego mais intenso
em que me claro, espero, escuro, penso, calo, quero tudo! adormeço.


29 novembro, 2010

até ser tarde


gosto de coleccionar manhãs, manhãs de chuva cinzentas e tristes, manhãs claras de frio desperta-dor, manhãs submissas de verão e calor, manhãs amenas de outono e de cor, manhãs de dormir até ser tarde, manhãs de correr por obrigação, manhãs de procurar liberdade, manhãs de perder a direcção.


evitar (te)


porque me custa tanto falar (te)
porque me custa tanto calar (me)
escrevo aqui para evitar encontrar (me)
descrita noutro lugar onde pudesse encontrar (te)


26 novembro, 2010

a paz que eu não tenho


aquilo que na vida posso controlar com precisão é tão ínfimo que a maior parte do tempo vivo em luta com tudo aquilo que não posso controlar. resultado: perco tempo e energia para nada. se pudesse decidia agora: desistir de controlar tudo e viver em paz com o aumento de entropia consequente... mas essa é precisamente uma das coisas que não consigo controlar.


24 novembro, 2010

Maria Rita - Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)




"paz sem voz não é paz é medo [...]
é pela paz que eu não quero seguir admitindo"

(O Rappa, Marcelo Yuka)


De passagem


sob a aparente calma dos dias,
sob a pele, como uma segunda alma,
a urgência constante do encontro,
a urgência constante da viagem.
atravesso os meses com a mala arrumada,
pouca coisa: coragem, liberdade, quase nada.
tacteio na escuridão do presente,
vasculho no rumor indecifrável da rotina,
um sinal, uma palavra, uma imagem
que me devolva a memória do futuro,
que me inspire as coordenadas da próxima paragem.
hoje, agora, amanhã: não estou parada,
estou um passo mais perto da chegada
estou um instante mais perto da partida.


22 novembro, 2010

Lucidez


acredito,
lá bem no fundo acredito
na esperança dos dias,
na lógica das árvores,
no rumor dos águas,
na intenção do vento,
na solidão das pedras,
na liberdade dos pássaros,
na lucidez do tempo.


Grito


este grito no silêncio
é esperança ou medo?


Pressentilêncios


não sei se é de luz este instante,
de silêncio, ou espanto.
não sei se é o sabor deste encontro
que me acorda por dentro.
pressinto os teus passos no rumor dos dias,
é solitário o teu caminho,
vã é a minha pressa.
o tempo não se detém na curva das horas,
a manhã submersa, a tarde tão escassa,
passas por mim amanhã?
(passas por mim agora?)
é tua esta voz? é teu este braço?
não te digo ainda o que me adivinho,
hoje ainda é cedo, o momento é raro,
hoje só pressinto, espero um dia claro,
hoje faz cinzêncio, paro, calo, espero.


21 novembro, 2010

Depois da tarde


de repente o medo.
não sei se é a noite a chegar
ou se sou eu que finjo não procurar,
mas não sei o que fazer se tiver encontrado.
não faço nada.
fico aqui? fico perto?
fico ao lado?
escrevo? não escrevo?
paro? escuto? espero?
respiro-te de-pressa,
mas não declaro.
aproximo-me devagar, observo e calo,
mas quero-te perto
e isso é tão raro.




18 novembro, 2010

Lenine - "É O Que Me Interessa" - Trama Radiola




é esta a minha frequência de vibração hoje, ontem, amanhã, todos os dias, esta música repetida até à exaustão.


(falta de) liberdade?


nenhum gesto é neutro,
nem a escrita,
tudo é desejo, procura, intenção.


10 novembro, 2010

Silêncio ou nada


vou escrever um manifesto. dirá assim:
senta-te aí e não digas nada: é isso estar.


05 novembro, 2010

Segredo


uma carta! corri para o correio. há tanto tempo que não recebia uma carta. o papel, o cheiro, o desenho das letras, carimbos, selos, o tempo nas dobras, língua, cola, voz, tinta, esperança, silêncio, medo.
guardei a carta no bolso, sem abrir. adiei-te como quem prolonga um prazer. caminhar pelo dia com uma carta por ler. tua. o dia inteiro essa notícia repetida, esse segredo no bolso, um murmúrio intermitente a massajar-me a palma da mão, uma resistência imperceptível do papel contra a perna ao andar, uma corrente de ar porque alguma janela mal fechada no coração (ou é o medo a jogar ao esconde-esconde com a esperança. desarrumam-me tudo!)
quanto tempo vou aguentar? umas horas? um dia? mais que um dia? será que consigo dormir com esta carta no bolso? por ler. tua. não sei, mas sabe-me bem não ler, como quem caminha por instantes de olhos fechados na rua, sem ter medo de tropeçar, ou do que os outros vão pensar, porque no fundo caminhamos sempre de olhos fechados para o futuro. confio de olhos fechados que há muito mais do que aquilo que se vê. confio de olhos fechados que não preciso de tentar prever tudo o que vai acontecer.


energias alternativas


hoje sou uma máquina movida a café...
vrummmm, vrummm, cofff, cofff.


04 novembro, 2010

Inércia


inércia.
sono.
estupidez aguda
ou indolência generalizada?
o tempo a passar
e não fiz nada.
nada de nada.
...
vou fazer uma pausa.
(de quê?)


25 outubro, 2010

Citação


"A música tem de dar espiritualidade ao corpo para se tornar em sonoridade visível."


Jaques Dalcroze


19 outubro, 2010

outra vez

com o início das aulas sinto que deixei de respirar: correria, trabalhos para fazer, artigos para ler, poucas horas de sono, leituras interrompidas, nenhum tempo para escrever, bons hábitos recém-adquiridos novamente perdidos... facilmente me desorganizo.

mas faz-me falta respirar. gosto mesmo deste ar frio, destas cores quentes de outono, desta dança das folhas pelo ar, desta vida que se transforma e se reduz ao essencial. quantas folhas teria eu de perder para me encontrar no essencial? com quantas máscaras enfrento os outonos e os invernos e os outros?

com tantas ideias, trabalhos, pré-ocupações, intenções, expectativas, quanto tempo sobra para simplesmente ser? quanto tempo sobra para me deixar surpreender? quanto tempo sobra para me deixar deslumbrar?

o que é que me deslumbrou hoje?
uma mensagem de agradecimento, um gesto, um toque (porque às vezes parece que nos esquecemos de tocar uns nos outros), gargalhadas de fim de tarde, uma música, as cores do kandinsky (outra vez).