bebo a minha sede
da qualidade higroscópica do sal,
da claridade nuclear do sol,
da poeira interestelar do sul.
Imagem: Nebulosa do Lago
Credit & Copyright: CFHT (Telescópio Canadá-Francia-Hawai), J. C. Cuillandre
bebo a minha sede
da qualidade higroscópica do sal,
da claridade nuclear do sol,
da poeira interestelar do sul.
Imagem: Nebulosa do Lago
Credit & Copyright: CFHT (Telescópio Canadá-Francia-Hawai), J. C. Cuillandre
fico extasiada com o verde!...
diferentes tons de verde,
diferentes (de)graus de luz...
quero este verde gravado no meu peito,
verde ácido, verde risco,
verde sonoro da primavera.
quero esta música de vento e pássaros,
este rumor ansioso de sonhos claros,
quero que o verde ventre da calma
rasgue os azuis raros e (trans)lúcidos da minha alma.
quero o verde antigo, verde mordido de maçãs e tílias,
verde sabor a horas vagas,
verde olhar (des)encantado,
verdes tristezas, verdes fados,
verdes pedidos, verdes (so)rrisos,
verdes abraços apertados,
verdes futuros encerrados
nas horas dos dias por vi(r)ver,
verdes desejos, verdes enredos,
verdes sentidos escondidos
nos caminhos por (per)correr.
à janela me esqueço de mim
e fico a ver o mundo passar.
respiro só às vezes e devagar
para não aumentar a concentração
de dióxido de carbono no ar...
à janela me esqueço de ti
e dos mundos e dos outros que te inventei.
fico assim grávida de imobilidade
atenta ou alheia à realidade
(ninguém vê, ninguêm sabe...)
à janela estendo, em silêncio,
rios de vozes das multidões interiores.
à janela me concentro e me disperso,
perco-me nos rostos e nas cores,
nas esquinas dos olhares e arredores...
à janela me transformo, me transfaço, me transcedo:
peça a peça, sangue e sede,
pedra a pedra, desejo e pele,
passo a passo, osso e dor.
Quadro: Person at the window by Salvador Dali
pudesse ser pedra
ou rio
ou flor,
água do mar,
ou asa de cotovia,
o meu canto romperia a aurora
nas fontes,
inventaria sentidos
ao dia,
correria, correria,
só para ver se te via.

I hate that you're so silent and oh! so bright!
It makes me feel I'm always wrong and you’re always right.
I hate when you say that you have nothing to say!
It makes me keep all unanswered questions in my mind.
I hate that we never see each other really,
Even though, if we did, I would probably hit you.
I hate not to hate you at all, although I should,
But it's all right…I've made up my mind:
What I thought I knew
What I thought I could or should have done,
I’ll let it fade away.
Meanwhile I’ll meet the dawn, feed my heart with morning light.
I guess I can say:
"Goodbye, I'm going home"
estico o olhar para tentar ver mais longe,
entro no silêncio como entra o frio nas casas: por uma qualquer fresta imperceptível,
relativizo este ou aquele encontro, o que já passou, o que não vai ser,
o sentimento que de cansaço se calou,
uma tristeza que já esqueceu porque chorou,
e tento perceber-me envolvida nesta rede de (des)encontros, nesta correria incessante da cidade dos homens...
(E se parar agora, será que se desviam a tempo ou me atropelam?)
se às vezes me sinto só arrastada pela corrente,
também sei, por esperança, que sentidos indecifráveis se revelam quando menos esperamos.
onde está então a felicidade? em acordar de manhã, em fazer o melhor possível, em abrir as janelas do coração aos outros e ao vento e ao frio se assim calhar, em recomeçar sempre, em desistir do que não é verdade, mas sim desejo desordenado, em ser fiel à verdade interior, em procurar sempre mais...
(e podia continuar indefinidamente…
e vou continuar com certeza, mas não aqui)
tudo o que não foi,
tudo o que sonhei,
mas não realizei,
tudo o que deixei
(e tudo o que me deixaste),
tudo o que não escolhi,
tudo o que não vivi,
tudo o que não me rasguei,
mas me assalta inesperadamente
quando o tempo se esquece de passar,
de tudo isso me liberto,
de todas essas memórias virtuais,
que inventei para mim,
(ou para nós)
e que me pré-ocupam internamente...
liberto-me de todo o desgaste inútil,
e deixo a cada dia o devido valor
e o proporcional trabalho,
não mais.
a cada dia o seu início
e o seu fim,
a cada dia uma esperança que não me pertencendo me atravessa,
a cada um o amor (e a dedicação) que não nascendo em mim, me ultrapassa.

uma certa cor na luz de fim de tarde,
o aroma da chuva na terra,
o rodopiar das folhas com o vento,
o ar de repente frio na cara,
o olhar grávido de compreensão de um desconhecido,
o silêncio,
o reflexo do céu num rio, num lago, numa poça de água,
a sensação táctil do tronco de uma árvore velha,
como se ao toque se transferisse uma mensagem indecifrável,
um segredo feito de tempo e de estar.
há dias em que sou consciente de ser parte desse cenário maior onde a vida se desenrola (umas vezes governada pela termodinâmica, outras vezes limitada pela cinética, umas vezes aparentemente previsível, outras vezes descrevendo inesperados desvios e desafiando à invenção de novas energias de estabilização)
há dias em que simplesmente respirar aproxima, ou distancia… porquê? não sei…
descobriria talvez se pudesse decifrar todo este discurso vibracional que nos envolve, em que inevitavelmente conjugamos, dia após dia, o verbo ser (com mais ou menos convicção).
uma qualquer flor florindo não consegue senão ser. nela reconheceremos facilmente uma beleza intrínseca… natural. já entre gentes (entes, entes…) é fácil cair na tentação de a não reconhecer ou de a confundir com o que os olhos podem ver, quando a beleza é, tão simplesmente, a simultaneidade de verdade e benignidade no mesmo ente (gente, gente…). e por isso à partida todos têm em si a essência da beleza, que será tão mais perceptível à "vista" desarmada quanto mais fiel se for à verdade interior. difícil?… (também) aliciante! (com certeza)