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30 novembro, 2010

claramente obscuro


a taça vazia sobre o muro.(existir não chega).
um gesto de atenção chegaria para encher a taça.
(um gesto quase banal devolveria o estado de graça).
um movimento mais brusco e desilude-se a ilusão.
um passo impreciso entre a confiança e a dúvida,
um gesto inseguro por um móbil mais puro.
cala-te, mas não te esqueças do que ias dizer.
calo-me, mas não me esqueço do que posso sofrer.

os dias sucedem-se na lista telefónica do esquecimento
(que dia é hoje? é teu este dia?)
agarro-me ao meu (medo ou) mecanismo de segurança interna-dor (msi-dor)
e escrevo (me) sucessivamente em dó menor
para disfarçar a falta de talento para entender o mundo:
dó, ré, mib, ré, dó, solilóquio mudo em tom profundo
(queres ver a cor deste tempo, dos dias que eu já sei de cor?
dos dias iguais a todos os dias: cadência suspensivo-controla-dor)

não há palavras que me sirvam, que me aqueçam, que me calem
mas para dizer o que (te) digo, melhor seria estar calada,
pois às palavras tantas sinto que te engano, me desdigo:
não é minha a tua voz, não é teu o meu desejo,
não é tua a minha esperança, não é meu o teu cansaço.
silencio o cálculo da probabilidade das imponderabilidades e descanso,
hoje é só mais um daqueles dias de desassossego mais intenso
em que me claro, espero, escuro, penso, calo, quero tudo! adormeço.


10 julho, 2008

em vão


um dia alguém há-de encontrar esse corpo que é teu
que tu dizes que morreu
e que recusas procurar.
(que recusas reclamar.)


01 maio, 2006

crossing the desert of spectroscopy



(até já consigo ver nestes cactos uma espécie de multipletos mal resolvidos...

o espectrómetro devia ser um fiat 600... se fosse um ferrari...)

27 março, 2006

10:10 (take 2)

... (o computador bloqueou... serei capaz de repetir o que já tinha escrito?) ... (estas reticências são diferentes das primeiras, sou eu a respirar fundo, enquanto ainda consigo)

hoje liguei o computador as 10:10 (antes dele bloquear) e lembrei-me: "tenho um blog" que é uma associação mental como qualquer outra. no entanto é provável que se sigam a esta outras (associações mentais) mais estranhas e improváveis... o empregado do bar enganou-se e serviu-me meia de leite de café e eu não tive coragem de reclamar (há dias em que consigo ser mais implacável, um bocadinho, o suficiente, mas hoje parece que não). o máximo que consegui de mim foi um hesitação quando perguntou com a chávena na mão, ou talvez a chávena suspensa no ar, insuflada da vida própria que eu lhe adivinhava... seja como for, ele perguntou: "meia de leite" (e neste caso as palavras carregavam dentro de si a interrogação, não precisam de prefixos ou sufixos ou pontos de interrogação) e quando me olhou, com olhar interrogativo, não tive coragem de o desiludir e disse baixinho (com esperança de que não me ouvisse, porque à segunda-feira de manhã talvez não ouvisse tão bem como nos outros dias): "sim, é para mim" (não sei se foi bem isso que disse, mas foi, pelo menos, essa a intenção). caminhei pois em direcção à mesa carregando a pesada chávena... o café a pesar-me nos ombros, ou a mochila, talvez a mochila. na minha frente estavam as fotografias de uma festa qualquer da faculdade. tentei distrair-me mas o café ali e eu já nervosa antes de o beber. pensei então: "talvez não seja assim tão mau, hoje preciso de me concentrar e estudar, bebo só metade e não digo a ninguém", porque se dissesse talvez alguém em pânico me prendesse e amordaçasse e vendasse e fechasse numa sala à espera que o efeito passasse ou que eu me calasse o que na prática é a mesma coisa, ou corresponde ao mesmo instante, ou talvez não, talvez exista algum desfasamento quase imperceptível, o tempo que demora o pensamento a ser verbalizado. talvez eu a meio de uma frase e de repente sem saber como continuá-la porque o pensamento ainda lá, cada vez mais difuso, mas as palavras a afastarem-se de mim, e eu embora correndo atrás delas, sempre perdendo alguma, porque elas não se comportam como um bando, não correm todas na mesma direcção, dispersam-se no ar como a água no vazio, afastando-se em todas as direcções como se não sentissem a gravidade. chega! (ou cheguei, cheguei ficaria igualmente bem, mas mais egocêntrico, fica chega) chega! (para reforçar a ideia) talvez seja essa a conclusão: as palavras não sentem gravidade alguma, nem a da terra nem aquela que podem transmitir (aquela que lhes permite deixar alguém preso ao chão, preso ao chão de um instante, preso em busca da reacção na não-reacção, preso no silêncio da gravidade do que as palavras transmitem com a leveza de quem não sente a gravidade que tem.