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08 fevereiro, 2013

haiku


um pássaro caiu desamparado no meio da estrada.
um saco de plástico atravessou-a movido por uma alma emprestada.
um homem parou na berma, olhando o céu, à espera da próxima queda.


04 dezembro, 2012

(des)encanto


como se fosse de vidro
partiu-se em silêncio na tua voz
e escorreu-me sobre as mãos,
líquido, impossível de deter.
ninguém o ouviu senão eu.

ou imaginei
nas vibrações mais subtis,
nas minúsculas bifurcações de sentido,
nas alterações microtonais da sonoridade de certas palavras.
talvez nunca tas tivesse ouvido antes
para poder analisar com precisão.
talvez tenha sido apenas um erro fortuito de audiação.

e, qual cristal-líquido suspenso sobre a esquina das horas,
frágil, desafi(n)ando a queda,
a tua voz
permaneça intacta.
tão simplesmente ilegível
como sempre foi.

ou a pena de não saber de cor todas cores da tua voz.



03 dezembro, 2012

tanto


medo de te perder nos dias, assim como que te encontrei:
por acaso.
medo do tempo e da distância:
tanto, tanta.
medo de ter medo, medo de confiar,
medo de dizer a verdade, medo de mentir,
medo de me dar, medo de fugir.





05 novembro, 2012

Dúvida


se me calar agora,
se não te disser nada,
se deixar falar em meu lugar todas as vozes
da polifonia imprevisível dos dias,
até a minha voz se tornar imperceptível,
um eco, um rumor,
pouco mais que nada.
se me calar agora,
será que vais ouvir
em cada palavra por dizer
o desejo em flor
que no meu corpo amadurece?

se te calares agora,
se não me disseres nada,
se o teu silêncio entrar
pelas portas e janelas
que a tua voz em mim abriu
de par em par,
e com ele o frio
e com ele os pássaros que bebem a sede
nos umbrais, nas veias, nos beirais.
se te calares agora,
será que vou saber
em cada palavra que não dizes
o segredo que o teu corpo
em cada gesto amanhece?

se a distância correr entre nós
como um rio,
e nos afastar por fora
e nos habitar por dentro:
lodo nos meus dedos,
peixes nos teus olhos.
será que o meu desejo se vai diluir,
nos peixes dos teus olhos rasos de água?
será que os teus gestos se vão desfazer em cinzas,
no lodo das minhas mãos fechadas?


04 setembro, 2012

umut


o amanhã chegou: um dia normal,
a dor fantasma substituída por uma dor real.
estou só um pouco cansada:
ontem dormi mal.
o amanhã chegou: um dia desigual
à espera de se repetir infinitamente
até se tornar banal.
o amanhã chegou: é hoje.
olha de novo, vê melhor,
dispersa as nuvens que se condensam no olhar.
algum dia vais ter que deixar de viver por acaso
e arriscar:
que dia é hoje?
o que é que vais fazer, hoje, de propósito?
podes começar por algo pequeno,
aparentemente simples, aparentemente insignificante:
hoje é dia de desejar “bom dia”,
hoje é dia de almoçar com um amigo,
hoje é dia de aprender algo novo,
uma palavra, por exemplo: esperança,
hope, espoir, umut, hoop, håper, nadzieja, 期待, आशा, …
hoje é dia de ouvir a música do mundo à tua volta,
de olhos fechados, ouvir só,
hoje é dia de parar para agradecer,
hoje é dia de escrever um poema, ou uma canção,
hoje é o dia.


24 janeiro, 2012

à noite II


quatro paredes brancas, altas, concentradas,
às vezes um sinal
de que é possível respirar.
às vezes.
e continuar.
quatro paredes brancas, altas, concentr...


à noite


à noite
teço os meus dias,
os meus dedos.
ao longe: as palavras.
as melodias interiores das palavras.
ao perto: incandescente,
luxuriante, a luz
da alvorada.
prometida.



22 janeiro, 2012

o corpo: sinfonia em (des)construção


o tempo contraria o movimento do corpo.
quem dera parar. quem dera parar.
não há nada, nada, passível de ser detido
um só instante,
nem dentro do corpo, nem fora dele.
a imobilidade do corpo é uma ilusão.
a solidez do corpo é uma ilusão.
é mais sólido o tempo
no seu permanente movimento,
a empurrar tudo para o presente do futuro,
do que o corpo.
é mais sólido o ar,
do que o corpo.
as moléculas imperecíveis do ar,
azoto, oxigénio, vapor de água, ozono,
dióxidos vários, monóxidos mil,
pedras infinitesimais da matéria em permanente vibração
dilacerando os corpos ao passar.
é mais sólida a dor de existir
do que o corpo.
essa dor impossível de esconder,
é só o ar, é o ar ao passar,
essa dor impossível de mostrar,
ninguém quer ver, ninguém quer ver.
seria tão mais fácil desexistir,
seria tão mais fácil deixar o corpo ganhar:
agora já não posso parar, agora já não podes parar.
a pele intocada, intocável,
a pele habitada, lugar onde o tempo se dilata,
a pele obstinada, insolente,
deslizando líquida sobre os objectos-ossos-orgãos,
desenhando as curvas oblíquas do silêncio.
a noite é tão funda
que te prende as palavras à garganta
como nuvens, palavras-voláteis-mudas.
por isso quando falas, quando calas, chuva.
(não digo nada, não digas nada)
adivinho-te no corpo, encerradas, planícies desmedidas,
onde a infância te corre descalça
e o brilho selvagem da esperança
te fere o olhar ainda.
abre os olhos: vê,
a beleza do mundo entra pelos olhos adentro
incandescente e rara,
capaz de derrubar qualquer fronteira.
abre os olhos: sente,
a dor do mundo entra pelos ossos adentro,
fera e fria,
capaz de arrefecer qualquer convicção.
a morte aqui tão perto. omnipresente.
o tempo escorre-te dos dedos
a uma velocidade logicamente irracional.
o tempo escorre-te dos medos:
quem queres ser afinal?
a morte aqui tão perto,
dentro do teu corpo-coroa-cara,
a uma distância infinitesimal.
abre os olhos: ouve,
a sinfonia intermitente da vida,
a pulsação suspensa por um fio. frágil.
no dia em que o meu coração parar,
todos os meus átomos serão finalmente livres para ser
terra, pedra, rio, pássaro, fogo, sal,
elementos (in)significantes na harmonia imanente do mundo,
a vibrar para além de mim, antes de mim, depois de mim.
agora.
ainda.
dentro de ti.
dentro de mim.
[os elementos são.
não há outra opção senão ser.
é uma certeza nuclear.]



03 janeiro, 2012

(con)sentida contradição


e agora, e ainda,
de cada vez que me lembrar,
esquecer.

e quase, e claro,
de cada vez que consentir,
perder.

e às vezes, e sempre,
de cada vez que desejar,
morrer.

22 junho, 2011

esse lugar invisível que te habito sem saberes


gastei os meus passos a caminhar,
mas não cheguei a nenhum lugar.
devolvi o meu corpo à terra,
mas ela não o recebeu.
abri o meu flanco para dar de beber aos pássaros,
mas eles não se aproximaram.
voltei para casa, sozinha, sem ti,
mas haverá algum lugar onde tu não estejas?


31 março, 2011

Haikus - Tentativa 1


na multidão de anónimos
caminhar.
silêncio.




no muro dos dias
tricotar janelas,
ver.




tempo de dar.
tempo de parar.
(in)decisão.




entra pela porta fechada.
a verdade nos gestos, o silêncio na boca.
a beleza.




ruído de passos.
ninguém.
a memória.


09 março, 2011

(in)versão


quando não te vejo é que não te esqueço,
quando não me falas é que não me calo,
quando não me tocas é que te desejo,
e neste desencontro nada te subtrai,
só se multiplica a tua longa ausência.

quanto mais analiso a raiz do questão
mais me confundo e mais me convenço
da ausência de ciência nesta (in)consciência.

quanto mais verifico a insolução
mais me critico e mais me disperso,
mais te encontro e mais me afasto da razão.

esta (in)consciência ignora as leis da física
e da matemática e da linguagem e da gestão
e outras que tais...

mas eu não.

se a (in)consciência ignora todas as leis
eu ignoro a (in)consciência e outras que tais
e da tua presença me subtraio:

se te vejo mais depressa esqueço,
se me falas eu não te respondo,
e se me tocas não te quero mais.



05 janeiro, 2011

(des)ilusão


Há dias em que todas as horas são distância.


04 janeiro, 2011

(des)existir


luz e sombra
angústia e sede:
a distância tece-te
em meus dedos.
já não sou livre,
já não sou perto,
sou a retórica dos teus medos,
sou a esperança esquecida,
sou a voz dos teus segredos,
sou a ausência da criança,
sou a manhã branca e mordida
pela pulga na balança.
sou as mãos do teu silêncio,
sou as noites que não dormes
e as insónias que não tens.
sou a palavra escondida
na tua página vazia,
sou a rotina que te azia.
sou o verbo que desistes,
sou o substantivo que não usas,
sou complemento directo a que resistes.
sou o cansaço que não dizes,
sou tua dor que não descansa,
sou o teu sonho por cumprir
por isso levanta-te e dança
que eu estou decidida,
vou ficar (estou perdida,
não tenho nada a perder).


03 janeiro, 2011


"Houvesse um sinal a conduzir-nos
E unicamente ao movimento de crescer no guiasse. Termos das árvores
A incomparável paciência de procurar o alto
A verde bondade de permanecer
E orientar os pássaros"


Daniel Faria
in "Poesia" (2009)
Edições Quasi


15 dezembro, 2010

metáfora


fosse possível excluir todas as palavras menos uma, decantar, filtrar, destilar, purificar, extrair, recristalizar: uma palavra só que te dissesse, que atravessasse as fronteiras do corpo e do tempo e fosse em cada instante metáfora da tua presença em toda a parte.


dialéctica


nem tudo o que reluz faz frio,
nem tudo o que assombra é puro,
nem tudo o que seduz é bom,
nem tudo o que se diz é claro,
nem tudo o que se cala é escuro.


(da madrugada)


06 dezembro, 2010

inverno


estico o teu silêncio sobre os dias
como um cobertor pequeno demais,
fica sempre um pé, um braço, uma hora
à mercê dos temporais.

escrevo para completar o cobertor.
dirás talvez: palavras a mais.
escrevo para aquecer a dor
nos locais onde o frio se demora.



30 novembro, 2010

claramente obscuro


a taça vazia sobre o muro.(existir não chega).
um gesto de atenção chegaria para encher a taça.
(um gesto quase banal devolveria o estado de graça).
um movimento mais brusco e desilude-se a ilusão.
um passo impreciso entre a confiança e a dúvida,
um gesto inseguro por um móbil mais puro.
cala-te, mas não te esqueças do que ias dizer.
calo-me, mas não me esqueço do que posso sofrer.

os dias sucedem-se na lista telefónica do esquecimento
(que dia é hoje? é teu este dia?)
agarro-me ao meu (medo ou) mecanismo de segurança interna-dor (msi-dor)
e escrevo (me) sucessivamente em dó menor
para disfarçar a falta de talento para entender o mundo:
dó, ré, mib, ré, dó, solilóquio mudo em tom profundo
(queres ver a cor deste tempo, dos dias que eu já sei de cor?
dos dias iguais a todos os dias: cadência suspensivo-controla-dor)

não há palavras que me sirvam, que me aqueçam, que me calem
mas para dizer o que (te) digo, melhor seria estar calada,
pois às palavras tantas sinto que te engano, me desdigo:
não é minha a tua voz, não é teu o meu desejo,
não é tua a minha esperança, não é meu o teu cansaço.
silencio o cálculo da probabilidade das imponderabilidades e descanso,
hoje é só mais um daqueles dias de desassossego mais intenso
em que me claro, espero, escuro, penso, calo, quero tudo! adormeço.


22 novembro, 2010

Lucidez


acredito,
lá bem no fundo acredito
na esperança dos dias,
na lógica das árvores,
no rumor dos águas,
na intenção do vento,
na solidão das pedras,
na liberdade dos pássaros,
na lucidez do tempo.