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20 maio, 2012

Io guardo te


às vezes acontece. alguém que passa e diz algo inesperado e ao qual não conseguimos ficar indiferentes. alguém que passa por um instante e não se detém: io guardo te. e sem porquê, as palavras repetem-se dentro de nós, dos sentidos à inteligência, da inteligência ao coração, à procura de um sentido. io guardo te. é com um olhar que tudo começa, embora pareça que nada acontece. eu olho para ti. tu olhas para mim. quantas vezes paramos para olhar com olhos de ver? quantas vezes nos deixamos olhar sem medos, nem máscaras?

[é engraçada a coincidência do guardo italiano com o guardo português. duas palavras iguais com significados aparentemente diferentes. há olhares superficiais que não guardam nada do que vêem... mas há olhares que se deixam tocar,  que se comprometem, que guardam algo do que vêem, sem qualquer ilusão de o poderem conter ou deter. imagino que os pais também guardam os filhos dentro do olhar, mesmo quando perdem a ilusão de os poderem proteger.]


01 setembro, 2011

Magis 2011: Peregrinar

Ainda estou a tentar fazer o balanço destas férias. E não me atrevo a grandes conclusões por suspeitar que há experiências, pessoas, encontros, descobertas cujas repercussões só poderemos avaliar mais tarde, pelos frutos. As árvores (e as vidas) avaliam-se pelos frutos.
Tenho para mim que não é só a viagem que me seduz, mas todas as dimensões do peregrinar. Viajar caminhando, devagar, com tempo para estar nos lugares e para estar com as pessoas, com tempo para conversar, com tempo para parar, com tempo para ter tempo. Viajar com pouco, deixando o supérfluo para trás e procurando o essencial. Viajar com as dificuldades e fragilidades que o caminho faz questão de revelar. Viajar com sentido e objectivo para uma meta que não é necessariamente o lugar de destino, mas um novo olhar, uma sabedoria que do caminhar se traz para a vida. E depois, cada destino é também o ponto de partida para um nova viagem, para um regresso, ou para uma nova partida.
Pode às vezes parecer rotineira a viagem da vida. Daí a importância de trazer um olhar renovado para a rotina de todos os dias. E a coragem de enfrentar medos e de nos propormos a ultrapassar obstáculos, mesmo que eles nos pareçam, à partida, montanhas intransponíveis. Afinal, depois de subir a primeira montanha impossível todas as outras nos parecem mais acessíveis.
Podemos nivelar a nossa vida por baixo, correr poucos riscos, viver agarrados às nossas velhas seguranças, achar que não somos capazes de mais e melhor, mas é mentira. Os ideais só são ideais se forem elevados. E há algum risco maior do que a vida desperdiçada? O melhor é não nos satisfazermos com pouco quando o coração pede magis. Correr o risco de trilhar vales e montanhas. Até porque as montanhas sobem-se todas da mesma maneira: um passo de cada vez. Entretanto, convém não esquecer de aproveitar a viagem e a paisagem, porque as metas que valem a pena são difíceis de alcançar.

Magis: Peregrinação entre San Sebastian e Arantzazu - 9 a 14 de Agosto de 2011

23 julho, 2011

oportunidades


a vida é frágil. parece energia fulgurante. parece intocável. parece garantida.
às vezes vivemos como se fôssemos imortais. desperdiçamos. energia. tempo. oportunidades. dizemos: haverá outras oportunidades, mas não é exactamente verdade.
as oportunidades que desperdiçamos não voltam. as oportunidades que desperdiçamos não se repetem.
haverá outros tempos, outras pessoas, outras oportunidades, nós próprios seremos outros.
a inacção é uma forma de acção. as oportunidades que virão, serão outras. mesmo outras. melhores? piores? é muito difícil sabê-lo.


10 julho, 2011

esse lugar invisível que te habito sem saberes II


É provável a ilusão. O desejo tem destas coisas. A vontade férrea de persistir, de se ultrapassar, de passar do pensamento à acção. É capaz de criar qualquer ilusão para servir o seu ardil. Eu não posso ser quem tu desejas, não posso ser quem tu precisas, o tempo todo. É uma ilusão, mas a sensação do meu desejo é essa, a ilusão do meu desejo é essa: é seres em mim, já, o que ainda não sabes e eu ser em ti o que ainda não sentes. Desde sempre. Desde que nasceste e até morreres e mesmo que nunca o venhas a saber. Eu ser em ti, desde sempre, esse lugar invisível que te habito sem saberes.


22 junho, 2011

esse lugar invisível que te habito sem saberes


gastei os meus passos a caminhar,
mas não cheguei a nenhum lugar.
devolvi o meu corpo à terra,
mas ela não o recebeu.
abri o meu flanco para dar de beber aos pássaros,
mas eles não se aproximaram.
voltei para casa, sozinha, sem ti,
mas haverá algum lugar onde tu não estejas?


18 junho, 2011

Distâncias


Há momentos em que estamos perto demais.
Às vezes a diferença mínima de alguns milímetros é o suficiente para ultrapassar a barreira da distância de segurança mínima garantida, uma linha invisível, quase, quase imperceptível.
Em cima da linha não é possível ficar. Ou se mergulha de cabeça. Ou se recua sem hesitar.
Acontece, às vezes, que o desejo quer avançar quando a razão quer recuar. Isto não torna mais difícil a decisão (para quem tem a certeza de quem é e do que quer para si). Às vezes queríamos poder acreditar na ilusão de que outra decisão é possível, mesmo quando sabemos que não é. Queríamos poder adiá-la quando no fundo ela esta tomada à partida.
O desejo ameaça sempre que vai dar luta, mas não se pode ceder à chantagem só para tentar manter uma paz aparente. Se a verdadeira paz quer ser (re)conquistada vamos à luta que o desejo tem mais garganta que poder. (Lutar faz bem. Aquece nas noites frias. Traz diversidade à banalidade dos dias. Fortalece os músculos interiores da renúncia e da vontade).


14 junho, 2011

Caetano e Maria Gadú - O Quereres (Ao Vivo)



sabe bem ouvir cantar assim ao fim da tarde (ou a qualquer hora) em casa (ou em qualquer lugar). sabe a férias quando há ainda muito trabalho pela frente, mas apetece, de repente, fazer uma pausa para respirar. parar como quem tem todo o tempo p'ra parar, sem correr, parar só, mesmo, mesmo devagar (como um beijo devia ser: instante parado no tempo de quem não tem pressa de partir, nem de chegar).

eu estou descompassada com a vida,
a vida a correr e eu perdida,
não sei se atrasada ou diante da terra prometida
(sem a ver).
o desencontro às vezes sabe a despedida,
mas não me parece perdido o tempo que perdi
(e ainda perco)
a aprender a perder.

liberdade é coisa de difícil apetecência, menos de apetecer e mais de paciência.
às vezes apetece menos, de querer estar perto demais.
às vezes apetece mais, de querer voar p'ra bem longe, onde não se toca nem se vê.
às vezes parece de menos, de não haver espaço para se ser quem se é.
às vezes parece demais, de quase roçar a solidão.
há que estudar a arte da iluminância, menos de ânsia e mais luz (e de esperanc(i)a)
para aprender a ganhar até quando se fica a perder.



18 abril, 2011

sentido de oportunidade II


enquanto não as conhecemos as pessoas são caras indistinguíveis na multidão. podemos passar por elas, vezes sem conta, sem as vermos. depois de falarmos com elas uma vez, passamos a vida a encontrá-las, mesmo sem querermos.


09 março, 2011

(in)versão


quando não te vejo é que não te esqueço,
quando não me falas é que não me calo,
quando não me tocas é que te desejo,
e neste desencontro nada te subtrai,
só se multiplica a tua longa ausência.

quanto mais analiso a raiz do questão
mais me confundo e mais me convenço
da ausência de ciência nesta (in)consciência.

quanto mais verifico a insolução
mais me critico e mais me disperso,
mais te encontro e mais me afasto da razão.

esta (in)consciência ignora as leis da física
e da matemática e da linguagem e da gestão
e outras que tais...

mas eu não.

se a (in)consciência ignora todas as leis
eu ignoro a (in)consciência e outras que tais
e da tua presença me subtraio:

se te vejo mais depressa esqueço,
se me falas eu não te respondo,
e se me tocas não te quero mais.



20 janeiro, 2011

(des)existir II


às vezes a persistência é boa. é preciso saber esperar.

às vezes a persistência é teimosia. é preciso saber perder.


29 novembro, 2010

evitar (te)


porque me custa tanto falar (te)
porque me custa tanto calar (me)
escrevo aqui para evitar encontrar (me)
descrita noutro lugar onde pudesse encontrar (te)


09 setembro, 2010

Ser


a distância entre o que se pensa e o que se é,
a distância entre o que se faz e o que se pensa,
a distância entre o que se faz e o que se é,
são, a maior parte das vezes, muito maiores do que nós pensávamos...
são, a maior parte das vezes, muito maiores do que a raiz quadrada da soma do quadrado dos catetos.



05 julho, 2010

o encontro

quando nos aproximámos ficamos mais vulneráveis. subitamente o que outro diz ou faz pode ferir-nos em lugares até ali intocáveis. e pode até fazê-lo sem intenção, mas a dor não é menor por isso. por outro lado, se nos fecharmos para evitar a dor evitámos também todas as alegrias e surpresas do encontro. toda a luz e toda a sombra. tudo o que de bom e mau se aprende sobre os outros e sobre nós. evitar sentir é evitar viver. evitar viver é evitar ser. somos aquilo que somos com os outros. somos aquilo que somos sem os outros. somos aquilo que somos para os outros. somos aquilo que os outros são em nós. não podemos evitá-los sem nos evitarmos a nós mesmos. como explicam Daniel Faria e Rainer Maria Rilke para se ser grande há que ser frágil (quando digo grande entenda-se inteiro, íntegro, verdadeiro, belo).


A tua pequenez é enorme.
Nada te pode vencer.
Não recuses nenhum dos teus limites, só eles dizem a grandeza do que tens.

Daniel Faria



Entrega sempre a tua beleza
sem cálculo, sem palavras.
Calas-te. E ela diz por ti: eu sou.
E com mil sentidos chega,
chega finalmente a cada um.

Rainer Maria Rilke,
in “O Livro das Imagens"


20 abril, 2010


silêncio.
pudesse calar-te às vezes,
ou fazer-te falar,
quando quero,
quando expiro,
quando não sei dizer-te
que preciso.
(nunca sei dizer-te nada).



espera.
dos dias roubados
ao silêncio.
de esperança perdida
na azáfama dos dias roubados
ao silêncio.
estas brancas palavras de esperança perdida
na azáfama dos dias roubados
ao silêncio.



foz.
do outro lado do mar.
do outro lado do rio.
do outro lado de nós.


27 novembro, 2009

inspiro.
dentro desse instante quase,
dentro do desejo à solta
prestes a gritar.
não sou quem esperas,
vai-te embora, vai à volta,
não sou quem me demoras.

um segundo.
é o tempo que tenho para te perder.
é o tempo de te respirar por dentro.
é o tempo de uma porta a bater.
é o tempo de cair na armadilha,
tenho frio, tenho chuva, tenho medo.
é o barulho de um carro a bater de frente.
é uma parede branca ao relento.
é um semáforo intermitente.

14 julho, 2009

ser(á) outro




dedilho nos meus dedos
a tua (im)paciência.

aspiro à integridade como a um balão de ar quente
que já partiu e que vejo sempre ao longe,
um ponto minúsculo no horizonte.

dedilho nos meus dedos
a noite e a verdade.
consagro inúteis o desejo e a vontade.

substraio o resto ao produto do divisor pelo quociente
e deito fora o excesso de dividendo.
sobra a verdade que ninguém quer, só eu,
que não me serve de tão pequena e vã,
mas emagreço só para lhe servir
e de todos me afasto e me despeço.


16 junho, 2009

sono


sonâmbula a noite
nos meus dedos.
dedilho as horas
na tua pele, pêlos,
ossos fundos no sono
que respiras,
longínquo.





17 agosto, 2008

Pormenores


estou sem telemóvel. uma coisa que antes não fazia falta nenhuma e que hoje em dia parece quase impensável. sabe-me bem. estou incontactável 90% do tempo. quase ninguém tem o meu número de casa. se alguém me tentar ligar ou me mandar uma mensagem só saberei com algumas horas ou mesmo dias de atraso. eu própria só posso marcar encontros à moda antiga. sem confirmações, sem toques, sem mensagens. é nostálgico. sabe-me bem. sabe-me a férias, embora não esteja de férias. mas é nas férias que marcamos assim, encontros informais, com aqueles que encontramos no caminho, com horas para chegar, sem horas para terminar...

02 julho, 2008

Radiohead - Idioteque

e com esta termino... entrando na órbita do cometa radiohead à velocidade alucinante de idioteque. definitely in the mood for radiohead.