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24 março, 2012

(In)utilidade


"A cada coisa o seu tempo".
Para ser feliz é preciso estarmos no tempo presente, concentrados, inteiros, capazes de respirar fundo, capazes de sentir o pulsar da vida por dentro, na multidão ou no deserto, no trabalho ou no descanso. Encontrar em cada tempo o seu sentido.
É importante cultivar a inutilidade. Parar. Estar. Contemplar. Ouvir. Respirar. Contrariar a tendência instalada do fazer, fazer, fazer... Passamos tanto tempo ocupados a fazer que às vezes parece que nos esquecemos de passar tempo a ser.

Aqui fica um elogio à inutilidade:


23 maio, 2011

70 km/h


no sábado levava a avó e a Lina no carro:
"olhe aquela é a casa do Fernando, está a ver?"
"e agora, já sabe onde é que estamos?"
"não, ainda não atravessamos a ponte"
"olhe o milho como está grande, nasceu muito bem"
percebi finalmente por que é que o meu avô conduzia tão devagar.
porque quando se conduz rápido demais, como eu normalmente conduzo, não se consegue ver se o milho já nasceu.


20 janeiro, 2011

(des)existir II


às vezes a persistência é boa. é preciso saber esperar.

às vezes a persistência é teimosia. é preciso saber perder.


22 dezembro, 2010

natal


há quem não acredite, há quem pense que é um hábito histórico-cultural, há quem só veja as aparências, há quem reúna a família, há quem se lembre de quem mais precisa, há quem gaste demasiado e ofereça muito pouco de si, há quem já não se lembre, há quem esteja tão sozinho como em todos os outros dias, há quem goste das decorações e se deixe ofuscar pelas luzes...

natal: um nascimento que começou há mais de 2000 anos e nunca mais parou de acontecer. que significado pode isso ter, hoje, para cada um?


21 dezembro, 2010

palavras tantas


muitas vezes (a maior parte das vezes) tenho muitas coisas a dizer a muito poucas pessoas, geralmente a uma só pessoa. quando essa pessoa não está presente ou disponível, não sei o que fazer com todas as palavras que me sobram: guardo-as nos bolsos, mas os bolsos ficam cheios depressa demais, digo-as a outras pessoas, mas não parecem entendê-las, calo-as, mas continuam a crescer em número e intensidade. não me resta outra solução senão escrevê-las. às vezes basta uma enumeração indiscriminada, outras vezes escrevo alguma coisa secundária em que perco algum tempo a pensar, outras vezes tenho que escrever exactamente o que queria dizer. tenho algumas palavras preferidas, poucas, raras, palavras de estimação que uso frequentemente, mas com cerimónia (luz, sombra, espera, raras, liberdade). às vezes apetece-me usá-las todas de uma só vez, ceder à urgência de dizer tudo (tudo o quê?), ficar reduzida a cinzas, vazio, ausência de mim em mim (paciência, procura, medo, paz, pássaros, urgência, rio). às vezes, por muito que queira falar, os outros pedem-me silêncio (distância, cinzas, ausência, silêncio, morte, espaço, vazio). que assim seja (parar, escrever).


05 dezembro, 2010

paz


dentro do corpo um grito mudo,
quando a alma me pede revolução
e a razão surda lhe diz que não.
já sinto na pele as marcas da guerra,
já sinto na boca o sabor do medo.
desta vez peço paz, fico em terra,
não tenho forças para lutar em vão.
desta vez pedes paz, calo a ambição,
ouço o teu silêncio azul-denso-fundo.


do outro lado


hoje vou calar o desejo, a procura, o dever,
ignorar essa voz que me agita os sentidos,
vislumbrar um poema e não o escrever,
recusar essa sede de perto e de mais,
ver-te ao longe na rua e não te chamar,
ser de vento, invisível, desaparecer,
não ter nada a dizer e esquecer-me do resto,
já não ser, não pensar, ser silêncio profundo,
ser outro, ser além, ser o resto do mundo.


02 dezembro, 2010

nada


não vou escrever, não vou escrever, não vou escrever, não vou escrever, (isto sou eu a não escrever) dói-me, mas não vou escrever, não vou escrever, não vou escrever, não vou escrever, estou calada, está-se mesmo a ver que estou calada, não digo nada, fico aqui quietinha e calada, não vou escrever, hoje definitivamente não vou escrever mesmo nada.


01 dezembro, 2010

ouvi dizer I


quando o que quero é dizer coisas simples:
pedra, mão, rio, mar, terra, fogo, ar
e só me saem redes intrincadas,
frases complexas, palavras complicadas,
devia respeitar as regras do jogo
e desaparecer, agora, enquanto não está ninguém a ver,
mas quem disse que eu sei jogar?


10 novembro, 2010

Silêncio ou nada


vou escrever um manifesto. dirá assim:
senta-te aí e não digas nada: é isso estar.


21 junho, 2010

quase...

depois de três semanas sem parar, tempo para arrumar...




o quarto.



(e a cabeça)




e também tempo para ler,
tempo para estudar,
tempo para parar,
tempo para sair,
tempo para...
descansar!



04 setembro, 2009

antes de sair


quando de repente o que era certo deixa de ser e as desventuras se sucedem e parece que não há chão nem direcção e o tempo desgasta a realidade porque as coisas continuam a acontecer aleatoriamente embora se gostasse de ter o condão de as fazer parar, é porque a frase é muito longa e me esqueci de respirar.
a todo o momento acontecem coisas que não se conseguem controlar, a vida acontece e é imprevisível e inesperada, angustiante e irrelevante na medida em que não há nada a fazer a não ser continuar.
ou então aproveitar um fim-de-semana fora e parar. arrefecer o pensamento, deixar correr cá fora o que está dentro, deixar passar por dentro o tempo lento de estar fora do sítio, fora de casa, fora do tempo, como se houvesse, às vezes, um tempo fora do tempo. onde me sinta em casa. um tempo, fora do tempo, fora de casa, onde me sinta em casa.

07 novembro, 2008

silencio


podia dizer-te com palavras
coisas normais dos dias e das pedras,
coisas do andar e do fazer.
podia dizer-te com palavras
coisas simples e claras,
coisas do sentir e do ser.
mas não direi nada
que não saibas já,
por isso calo todas as palavras
e procuro dentro de mim a tua voz.

20 agosto, 2008

Primeiros dias num call center


segunda, dia 1 = dores de cabeça, dores de cabeça, dores de cabeça, que dia é hoje? quando é que são 23h, dores de cabeça... noite mal dormida, sem conseguir desligar o cérebro, sem conseguir parar...

terça, dia 2 = são 23h, log off. não correu tão mal... consegui ter apetite para jantar, consegui dormir, sem dores de cabeça

quarta, dia 3 = ?


imagem daqui



28 agosto, 2007

Parar...



"Mon representa e significa uma porta. Se colocarmos debaixo da porta o signo do Sol, converte-se em Ma: espaço, umbral, margem, vão, vazio, intervalo, entre, pausa.
Chamamos cultura da pausa à tradição oriental de dar importância aos silêncios na conversação, às margens na pintura, aos vãos livres na arquitectura, ao não dito na mensagem e à receptividade na contemplação."



em A Sabedoria do Oriente - do sofrimento à felicidade
de Juan Masiá






Precisamos de pausas. vários tipos de pausas. pausas de instantes ao longo do dia, como que para respirar fundo e continuar. pausas de períodos curtos de tempo, para nos dedicarmos a algo diferente, um passatempo, uma actividade desportiva, um momento de leitura, ou até de contemplação num jardim, em frente ao mar, ou na varanda lá de casa, algumas vezes por semana, ou até, se possível, uma vez por dia. pausas de vários dias, ou algumas semanas, que normalmente designamos por férias, para sair da correria do dia a dia e descansar (embora nem sempre consigamos descomplicar de tão habituados que estamos já a estar sempre ocupados a fazer alguma coisa). pausas ao longo da vida, momentos de paragem antes de uma decisão importante. esse espaço entre. espaço de silêncio e de decisões. espaço depois de e antes de. importa dar valor a esse tempo. esse momento presente, com mais ou menos angústia, com mais ou menos duração, com mais ou menos peso na nossa vida futura. muitas vezes nem temos consciência da importância e das consequências de uma decisão. mas é hoje que ela se constrói e nos transforma.
todas as pausas são importantes. preciso tanto de parar para decidir, como de parar para respirar. felizmente nestas férias consegui um pouco das duas.
é importante parar... nem que seja...






... à velocidade da luz







fotografia do sítio do costume




18 junho, 2007

tempo


há dias em que parece que o tempo nos atropela
de tanto que corre desvairado em direcção ao futuro.
e passa, passa quase sem tocar, quase sem sentir,
só se ouve assim uma espécie de zumbido nos ouvidos,
ou é o vento que arrefece os sentidos...
ou então palavras apagadas pelas distâncias,
corações cerrados e mal-entendidos.

eu só quero silêncio.
não me façam perguntas
que não sei responder,
não me peçam razões
que não sei escrever.
eu só quero silêncio.
e parar
parar aqui um instante
enquanto tudo passa.
não quero sequer entender,
só respirar fundo e parar,
tudo o que dói e tudo o que ri,
tudo o que chega e tudo o que se parte,
cristalizar o momento numa fotografia interminável
e amanhã, talvez, recomeçar.



02 junho, 2006

Cada vez mais aqui

"Queres lutar com quem?
Para doer aonde?
Para ser o quê?
Achas que ninguém vê?

E p'ra quê fingir?
Porquê mentir e remar na dor?
Achas que ninguém vê?

Também eu queria parar...
chorar
cair... p'ra me levantar,
p'ra te puxar!
Te fazer sorrir...
não voltar a cair!...

Não me olhes assim!
Continuo a ser quem fui!
Cada vez mais aqui...
não dances tão longe..!
que eu já te vi...

Também eu queria parar...
chorar
cair... p'ra me levantar,
p'ra te puxar!
Te fazer sorrir...
não voltar a fugir!..."

Toranja

23 maio, 2006

"«Todo Fluye», dijo Heráclito. Todo está en movimiento y nada dura eternamente. Por eso no podemos «descender dos veces al mismo río», pues cuando desciendo al río por segunda vez, ni yo ni el río somos los mismos."

El mundo de Sofía, Jostein Gaarder

até as esperas, momentos em que aparentemente paramos (às vezes
porque precisamos, às vezes porque não sabemos o que fazer,
às vezes porque os outros precisam e nos afastamos
lentamente até existir ar suficiente entre nós
para podermos ambos respirar) são
momentos de movimento,
lento movimento
do tempo
que
passa
sem cessar.
Parar para aprender
a estar em silêncio. Parar para
deixar passar as nuvens e voltar a ver claro.
Parar para olhar o sofrimento de frente e procurar
nele um caminho de renovação. Parar para crescer por dentro.
Parar para me tornar um mundo melhor para alguém.

Parar dificilmente será estar parado...
no fim, nem eu nem o rio seremos os mesmos.

22 maio, 2006


menti. estou presa no presente.
não tenho outro momento que não seja aqui.
não tenho outro lugar que não seja agora.


fotografia de Guilherme Limas retirada daqui