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28 maio, 2012

I Wish I Knew How It Feels To Be Free (Live) - Nina Simone



Porque há coisas que não podem ser explicadas. um saber que nos atravessa, mas que não nos pertence, que não conquistamos, realidade experimentada que não pode ser contida nas palavras limitadas que usamos: liberdade, amor, verdade, justiça,...

"the one who knows does not say, the one who says does not know" (Anthony de Mello)

01 setembro, 2011

Magis 2011: Peregrinar

Ainda estou a tentar fazer o balanço destas férias. E não me atrevo a grandes conclusões por suspeitar que há experiências, pessoas, encontros, descobertas cujas repercussões só poderemos avaliar mais tarde, pelos frutos. As árvores (e as vidas) avaliam-se pelos frutos.
Tenho para mim que não é só a viagem que me seduz, mas todas as dimensões do peregrinar. Viajar caminhando, devagar, com tempo para estar nos lugares e para estar com as pessoas, com tempo para conversar, com tempo para parar, com tempo para ter tempo. Viajar com pouco, deixando o supérfluo para trás e procurando o essencial. Viajar com as dificuldades e fragilidades que o caminho faz questão de revelar. Viajar com sentido e objectivo para uma meta que não é necessariamente o lugar de destino, mas um novo olhar, uma sabedoria que do caminhar se traz para a vida. E depois, cada destino é também o ponto de partida para um nova viagem, para um regresso, ou para uma nova partida.
Pode às vezes parecer rotineira a viagem da vida. Daí a importância de trazer um olhar renovado para a rotina de todos os dias. E a coragem de enfrentar medos e de nos propormos a ultrapassar obstáculos, mesmo que eles nos pareçam, à partida, montanhas intransponíveis. Afinal, depois de subir a primeira montanha impossível todas as outras nos parecem mais acessíveis.
Podemos nivelar a nossa vida por baixo, correr poucos riscos, viver agarrados às nossas velhas seguranças, achar que não somos capazes de mais e melhor, mas é mentira. Os ideais só são ideais se forem elevados. E há algum risco maior do que a vida desperdiçada? O melhor é não nos satisfazermos com pouco quando o coração pede magis. Correr o risco de trilhar vales e montanhas. Até porque as montanhas sobem-se todas da mesma maneira: um passo de cada vez. Entretanto, convém não esquecer de aproveitar a viagem e a paisagem, porque as metas que valem a pena são difíceis de alcançar.

Magis: Peregrinação entre San Sebastian e Arantzazu - 9 a 14 de Agosto de 2011

26 agosto, 2011

24 agosto, 2011

No coração do mundo


há algo na viagem que nos fascina e seduz.
que nos chama por dentro. sem palavras.
um outro mundo lá fora. longe das nossas seguranças.
uma busca comum que silenciosamente nos guia:
para onde vai a tua vida?
para onde vai este dia?
de todas as cores. de todos os lugares.
para lá dos medos o invisível reluz.
um desejo onde desconhecidos se reconhecem.
um amor que torna próximos os distantes.
um mundo inteiro lá fora. à nossa espera.

18 junho, 2011

entrega


o que realmente me emociona são as pessoas.

pessoas com ganas de viver, orgânicas, de alma e carne e liberdade e desejo.
pessoas capazes de subir ao palco e dar tudo o que têm lá dentro, de bom e de frágil, de coragem e de medo, no fundo, tudo o que são.


14 junho, 2011

Caetano e Maria Gadú - O Quereres (Ao Vivo)



sabe bem ouvir cantar assim ao fim da tarde (ou a qualquer hora) em casa (ou em qualquer lugar). sabe a férias quando há ainda muito trabalho pela frente, mas apetece, de repente, fazer uma pausa para respirar. parar como quem tem todo o tempo p'ra parar, sem correr, parar só, mesmo, mesmo devagar (como um beijo devia ser: instante parado no tempo de quem não tem pressa de partir, nem de chegar).

eu estou descompassada com a vida,
a vida a correr e eu perdida,
não sei se atrasada ou diante da terra prometida
(sem a ver).
o desencontro às vezes sabe a despedida,
mas não me parece perdido o tempo que perdi
(e ainda perco)
a aprender a perder.

liberdade é coisa de difícil apetecência, menos de apetecer e mais de paciência.
às vezes apetece menos, de querer estar perto demais.
às vezes apetece mais, de querer voar p'ra bem longe, onde não se toca nem se vê.
às vezes parece de menos, de não haver espaço para se ser quem se é.
às vezes parece demais, de quase roçar a solidão.
há que estudar a arte da iluminância, menos de ânsia e mais luz (e de esperanc(i)a)
para aprender a ganhar até quando se fica a perder.



23 maio, 2011

70 km/h


no sábado levava a avó e a Lina no carro:
"olhe aquela é a casa do Fernando, está a ver?"
"e agora, já sabe onde é que estamos?"
"não, ainda não atravessamos a ponte"
"olhe o milho como está grande, nasceu muito bem"
percebi finalmente por que é que o meu avô conduzia tão devagar.
porque quando se conduz rápido demais, como eu normalmente conduzo, não se consegue ver se o milho já nasceu.


31 março, 2011

Haikus - Tentativa 1


na multidão de anónimos
caminhar.
silêncio.




no muro dos dias
tricotar janelas,
ver.




tempo de dar.
tempo de parar.
(in)decisão.




entra pela porta fechada.
a verdade nos gestos, o silêncio na boca.
a beleza.




ruído de passos.
ninguém.
a memória.


20 março, 2011

dar... ou dar-se


dar sem querer nada em troca... é difícil? muito. mesmo quando nos convencemos de que somos desinteressados, muitas vezes esperamos uma retribuição, um reconhecimento, talvez apenas um obrigado bastasse, mas nada, nada de nada (mesmo nada) é difícil de digerir.

quanto mais não seja, dar dá, muitas vezes, alguma satisfação interior... mas dar pelo bem do outro e não para nos sentirmos melhores pessoas... dar a quem nos irrita, dar a quem nos tira (a paz e paciência), dar a quem nos incomoda... é difícil? muito.

e quando digo dar... não quero dizer necessariamente dar alguma coisa material, às vezes quero dizer dar-se. é difícil? muito, mas só o facto de estarmos atentos faz-nos encontrar muitas oportunidades de dar... oportunidades que temos todos os dias e que por distracção ou preguiça desperdiçamos.


15 março, 2011

é só isto?


Não gosto de improvisar, gosto de me preparar, não gosto de me sentir sem chão, gosto de controlar, gosto de saber a resposta certa antes de ouvir a pergunta... mas, às vezes, tanta segurança sabe-me a pouco.
Às vezes, pergunto-me: é só isto? Deve haver alguma coisa lá fora pela qual valha a pena arriscar, alguma coisa pela qual valha a pena lutar, alguma coisa que ultrapasse a banalidade dos dias, alguma coisa na qual o coração se reconheça. Deve haver.



18 fevereiro, 2011

horários


gosto da manhã. da luz da manhã. da sensação de que todas as coisas são ainda possíveis. do pequeno-almoço. do cheiro a café.
gosto da noite. do silêncio. de conduzir pelas estradas vazias. das conversas intermináveis. do luar. de ver o dia nascer. de ouvir o dia nascer.
gosto de dormir muito, mas não me consigo deitar cedo. por isso no tempo de aulas durmo pouco e vejo muitas manhãs. nas férias durmo muito e vejo muitas noites, poucas manhãs.

03 janeiro, 2011


"Houvesse um sinal a conduzir-nos
E unicamente ao movimento de crescer no guiasse. Termos das árvores
A incomparável paciência de procurar o alto
A verde bondade de permanecer
E orientar os pássaros"


Daniel Faria
in "Poesia" (2009)
Edições Quasi


22 dezembro, 2010

natal


há quem não acredite, há quem pense que é um hábito histórico-cultural, há quem só veja as aparências, há quem reúna a família, há quem se lembre de quem mais precisa, há quem gaste demasiado e ofereça muito pouco de si, há quem já não se lembre, há quem esteja tão sozinho como em todos os outros dias, há quem goste das decorações e se deixe ofuscar pelas luzes...

natal: um nascimento que começou há mais de 2000 anos e nunca mais parou de acontecer. que significado pode isso ter, hoje, para cada um?


12 dezembro, 2010

Tiago Bettencourt & Inês Castel-Branco "Se Cuidas de Mim"




a propósito de coisas simples, uma canção simples. às vezes as coisas simples estão mais perto da perfeição. a amizade, por exemplo, uma coisa aparentemente simples...


coisas simples


há uma beleza nas coisas simples e claras, nas coisas que nos fazem bem e que às vezes parecem raras e outras vezes estão só escondidas pela quantidade enorme de tralha que nos ocupa os dias, sejam as listas intermináveis de coisas a fazer, seja a incapacidade de viver com mais liberdade e mais humildade. sou menos livre quando ignoro o que os outros precisam de mim e espero que eles sirvam as minhas necessidades, quando os manipulo mais ou menos conscientemente para servirem as minhas vontades, quando ajo por interesse e não de forma gratuita. sou menos humilde quando me recuso a pedir ajuda por me ter habituado a viver como se fosse auto-suficiente, como se não precisasse de ninguém. tantas coisas que podem tornar a vida mais difícil do que ela já é, desnecessariamente. a humildade é a verdade, já dizia a madre Teresa, é ser-se quem se é, não usar máscaras, não se sobrevalorizar e não se menosprezar, não parecer mais forte do que se é, não lutar continuamente para se esconder ou para se mudar aquilo que se é. É bom procurar a superação, é bom procurar fazer sempre o nosso melhor, mas se isso se tornar um fim em si podemos esquecer-nos de aproveitar o caminho. viver continuamente no limite pode tornar-nos piores pessoas, mais distraídas, mais cansadas, menos disponíveis para o que realmente interessa. Se o preço da superação for muito elevado, talvez seja caso para perguntar: será mesmo superação? não será maior superação aceitar os próprios limites e viver bem com eles?


06 dezembro, 2010

nina simone - how it feels to be free - montreux 1976




"i wish i would know how it feels to be free"
(i wish you to know how it feels to be free)



(uma mulher de armas!)


01 dezembro, 2010

um dia mais perto


caminho como quem traz permanentemente
um segredo invisível na mão,
uma pequena luz guardada sob a pele
na direcção do coração
que muda quase imperceptivelmente a cor
das ruas, dos outros, dos dias.


silenci-ar


Hoje é claramente um daqueles dias
em que está frio demais
para esperar pela noite em silêncio.

podíamos gritar...

[mas não há nada que cale melhor o frio
do que o instante imóvel,
o meu silêncio no teu olhar
o teu silêncio na minha boca,
o espanto]