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05 novembro, 2012

Dúvida


se me calar agora,
se não te disser nada,
se deixar falar em meu lugar todas as vozes
da polifonia imprevisível dos dias,
até a minha voz se tornar imperceptível,
um eco, um rumor,
pouco mais que nada.
se me calar agora,
será que vais ouvir
em cada palavra por dizer
o desejo em flor
que no meu corpo amadurece?

se te calares agora,
se não me disseres nada,
se o teu silêncio entrar
pelas portas e janelas
que a tua voz em mim abriu
de par em par,
e com ele o frio
e com ele os pássaros que bebem a sede
nos umbrais, nas veias, nos beirais.
se te calares agora,
será que vou saber
em cada palavra que não dizes
o segredo que o teu corpo
em cada gesto amanhece?

se a distância correr entre nós
como um rio,
e nos afastar por fora
e nos habitar por dentro:
lodo nos meus dedos,
peixes nos teus olhos.
será que o meu desejo se vai diluir,
nos peixes dos teus olhos rasos de água?
será que os teus gestos se vão desfazer em cinzas,
no lodo das minhas mãos fechadas?


24 janeiro, 2012

à noite II


quatro paredes brancas, altas, concentradas,
às vezes um sinal
de que é possível respirar.
às vezes.
e continuar.
quatro paredes brancas, altas, concentr...


à noite


à noite
teço os meus dias,
os meus dedos.
ao longe: as palavras.
as melodias interiores das palavras.
ao perto: incandescente,
luxuriante, a luz
da alvorada.
prometida.



22 abril, 2011

Arvo Part - Fratres For Cello And Piano




pela música não pelo filme (embora tenha gostado do filme).
pelo silêncio a que (est)a música nos impele.
e mais não digo: (hoje).


18 abril, 2011

sentido de oportunidade I


mais do que muitas palavras,
mais do que palavras a mais,
o silêncio diz-te muito bem
e cala-me ainda melhor.


31 março, 2011

Haikus - Tentativa 1


na multidão de anónimos
caminhar.
silêncio.




no muro dos dias
tricotar janelas,
ver.




tempo de dar.
tempo de parar.
(in)decisão.




entra pela porta fechada.
a verdade nos gestos, o silêncio na boca.
a beleza.




ruído de passos.
ninguém.
a memória.


24 dezembro, 2010

oração


que o silêncio te diga
o que não te sei dizer.
que o silêncio te abrace
se não te posso tocar.

que o rio do tempo
te traga a salvo para casa,
seja ela no mar
ou noutro qualquer lugar.

[se a fizeres sobre as ondas
que as saibas navegar,
se a construíres nas nuvens
que aprendas a sonhar.]


06 dezembro, 2010

inverno


estico o teu silêncio sobre os dias
como um cobertor pequeno demais,
fica sempre um pé, um braço, uma hora
à mercê dos temporais.

escrevo para completar o cobertor.
dirás talvez: palavras a mais.
escrevo para aquecer a dor
nos locais onde o frio se demora.



29 novembro, 2010

evitar (te)


porque me custa tanto falar (te)
porque me custa tanto calar (me)
escrevo aqui para evitar encontrar (me)
descrita noutro lugar onde pudesse encontrar (te)


22 novembro, 2010

Pressentilêncios


não sei se é de luz este instante,
de silêncio, ou espanto.
não sei se é o sabor deste encontro
que me acorda por dentro.
pressinto os teus passos no rumor dos dias,
é solitário o teu caminho,
vã é a minha pressa.
o tempo não se detém na curva das horas,
a manhã submersa, a tarde tão escassa,
passas por mim amanhã?
(passas por mim agora?)
é tua esta voz? é teu este braço?
não te digo ainda o que me adivinho,
hoje ainda é cedo, o momento é raro,
hoje só pressinto, espero um dia claro,
hoje faz cinzêncio, paro, calo, espero.


10 novembro, 2010

Silêncio ou nada


vou escrever um manifesto. dirá assim:
senta-te aí e não digas nada: é isso estar.


29 junho, 2010

"Eu sou o amor"



um filme que é um lugar fora do tempo. um espaço que se abre sobre o silêncio. também (mas não só) porque a banda sonora e o silêncio se conjugam na perfeição, como raramente se vê. raramente se vê o silêncio tão bem filmado.
Tilda Swinton é espantosa na contensão, no espanto, no abandono de certos gestos, e é impossível não respirar a sua personagem na sua viagem caleidoscópica, viagem interior vista de fora para dentro e de dentro para fora.
todo o filme vive desse estado de contensão-explosão permanente, que atravessa a personagem da realidade aos sonhos, da rotina à acção. filme em câmara lenta prestes a ruir, como se a beleza não pudesse existir mais do que alguns instantes, a cor sobre o branco, a luz sobre a pele, a ordem sobre o caos, o silêncio, o silêncio, o silêncio. no fim o silêncio.




imagem retirada daqui


27 maio, 2010

depois da tarde


palavras suspensas na garganta
por um fio invisível, rente à língua,
à míngua de água. fome.
palavras suspensas no ar
como frutos em queda entre o sonho e o chão,
Palavras suspensas no verbo
cair. [dizer, silenciar, mudar, partir]
palavras suspensas na vontade:
[medo] de te [ser]
palavras suspensas nas mentiras que tecemos.
viscosas. mãos. fundo.


24 maio, 2010

a tarde


a tua pele de sal.
a tua boca de mar.
o teu corpo de areia e de sol.


a tua boca de sal.
a tua boca de sal.
a tua boca de sal.


16 maio, 2010

espera(r)


esperar irrita. esperar custa. às vezes até dói. às vezes parece inglório, um desperdício de tempo, parece sinónimo de estar parado... mas não é. esperar é respeitar o tempo dos outros. esperar é respeitar o nosso próprio tempo. esperar é respeitar o tempo da vida, que nem sempre coincide com o nosso. é um óptimo exercício para se descobrir o que se quer, porque os desejos não aguentam esperar e vão caindo de maduros (ou de verdes: há desejos que nunca chegam a amadurecer, nem o merecem) até sobrarem só os desejos que darão bons frutos, desejos construtivos que fazem parte do que se quer e não daquilo que apetece e que está sempre a mudar.

esperar é a capacidade dos que ainda são capazes de viver com esperança, dos que ainda são capazes de acreditar no mundo, nas pessoas, na beleza, na verdade, na justiça,...

esperar está para a acção como o silêncio para a música (ou para a palavra) e já se sabe que não há boa música sem silêncio.


20 abril, 2010


silêncio.
pudesse calar-te às vezes,
ou fazer-te falar,
quando quero,
quando expiro,
quando não sei dizer-te
que preciso.
(nunca sei dizer-te nada).



espera.
dos dias roubados
ao silêncio.
de esperança perdida
na azáfama dos dias roubados
ao silêncio.
estas brancas palavras de esperança perdida
na azáfama dos dias roubados
ao silêncio.



foz.
do outro lado do mar.
do outro lado do rio.
do outro lado de nós.


06 outubro, 2009

sede


chuva
e essa poeira lentíssima que vem com ela,
como um lençol invisível que cobre os ombros de todos
de triteza e de cinzento.

chuva
torrencial
de vazio e de desejo,
diluindo a visão e a memória.

terra
quente e muda de sede,
poros dilatados, e vales, rios e bocas
abertos ao céu, língua áspera de fome,
se mãos tivesse das nuvens beberia
sofregamente.

07 novembro, 2008

silencio


podia dizer-te com palavras
coisas normais dos dias e das pedras,
coisas do andar e do fazer.
podia dizer-te com palavras
coisas simples e claras,
coisas do sentir e do ser.
mas não direi nada
que não saibas já,
por isso calo todas as palavras
e procuro dentro de mim a tua voz.

08 outubro, 2008

do tempo que demoro chegar a casa


nessas horas em que me sobram palavras
não te digo nenhuma,
antes cerro os dentes,
sustenho a respiração
e fico ali imóvel
perante o desenrolar invisível
desse fio, desse rio, desse mar de
palavras infindáveis e mudas
que não te direi.
fico ali como fonte inesgotável,
guardando a água para o lado de dentro
(até me constipar de desesperança):
não há palavras que me sirvam,
não há palavras que nos sirvam.
nada do que eu penso me pode explicar,
nada do que eu sinto te pode salvar,
onde eu sou tu já não estás,
onde tu és eu nunca estou.
às vezes porém,
regresso a casa com esse travo na boca
do deserto e da sombra
que trazes nos teus passos...
(porque não pressinto em ti nenhuma luz)
regresso a casa e demoro a chegar,
demoro a recuperar dessa dor
que não te larga,
dessa resignação, dessas cinzas,
dessa morte que te habita antes do tempo,
regresso a casa e demoro a deixar-te.

02 setembro, 2008

os últimos dias


aqui onde o tempo não passa
eu sou
esta sede de encontro e distância,
eu sou
a memória da esperança,
eu vou
voltar ao zero, ao princípio, ao silêncio,
apagando todas as marcas
que me deixaram na pele.
eu principio
e ninguém me procura as asas
(não sabem).
eu quero, ser
terra de ninguém.
esse instante suspenso numa gota de orvalho
antes de cair