10 julho, 2011
esse lugar invisível que te habito sem saberes II
22 junho, 2011
esse lugar invisível que te habito sem saberes
gastei os meus passos a caminhar,
mas não cheguei a nenhum lugar.
devolvi o meu corpo à terra,
mas ela não o recebeu.
abri o meu flanco para dar de beber aos pássaros,
mas eles não se aproximaram.
voltei para casa, sozinha, sem ti,
mas haverá algum lugar onde tu não estejas?
09 março, 2011
(in)versão
quando não te vejo é que não te esqueço,
quando não me falas é que não me calo,
quando não me tocas é que te desejo,
e neste desencontro nada te subtrai,
só se multiplica a tua longa ausência.
quanto mais analiso a raiz do questão
mais me confundo e mais me convenço
da ausência de ciência nesta (in)consciência.
quanto mais verifico a insolução
mais me critico e mais me disperso,
mais te encontro e mais me afasto da razão.
esta (in)consciência ignora as leis da física
e da matemática e da linguagem e da gestão
e outras que tais...
mas eu não.
se a (in)consciência ignora todas as leis
eu ignoro a (in)consciência e outras que tais
e da tua presença me subtraio:
se te vejo mais depressa esqueço,
se me falas eu não te respondo,
e se me tocas não te quero mais.
26 fevereiro, 2011
disciplina
muitas vezes sou prisioneira dos meus sentimentos e desejos.
hoje saio em liberdade condicional por bom comportamento.
01 dezembro, 2010
ouvi dizer II
dizem-me que cale, ignore, iluda,
que enterneça, que disfarce e entre-teça
e a seguir desapareça.
dizem-me que, com lucidez,
respeite as regras
e finja estar, tanto quanto possível,
absolutamente desinteressada.
silenci-ar
Hoje é claramente um daqueles dias
em que está frio demais
para esperar pela noite em silêncio.
podíamos gritar...
[mas não há nada que cale melhor o frio
do que o instante imóvel,
o meu silêncio no teu olhar
o teu silêncio na minha boca,
o espanto]
30 novembro, 2010
claramente obscuro
a taça vazia sobre o muro.(existir não chega).
um gesto de atenção chegaria para encher a taça.
(um gesto quase banal devolveria o estado de graça).
um movimento mais brusco e desilude-se a ilusão.
um passo impreciso entre a confiança e a dúvida,
um gesto inseguro por um móbil mais puro.
cala-te, mas não te esqueças do que ias dizer.
calo-me, mas não me esqueço do que posso sofrer.
os dias sucedem-se na lista telefónica do esquecimento
(que dia é hoje? é teu este dia?)
agarro-me ao meu (medo ou) mecanismo de segurança interna-dor (msi-dor)
e escrevo (me) sucessivamente em dó menor
para disfarçar a falta de talento para entender o mundo:
dó, ré, mib, ré, dó, solilóquio mudo em tom profundo
(queres ver a cor deste tempo, dos dias que eu já sei de cor?
dos dias iguais a todos os dias: cadência suspensivo-controla-dor)
não há palavras que me sirvam, que me aqueçam, que me calem
mas para dizer o que (te) digo, melhor seria estar calada,
pois às palavras tantas sinto que te engano, me desdigo:
não é minha a tua voz, não é teu o meu desejo,
não é tua a minha esperança, não é meu o teu cansaço.
silencio o cálculo da probabilidade das imponderabilidades e descanso,
hoje é só mais um daqueles dias de desassossego mais intenso
em que me claro, espero, escuro, penso, calo, quero tudo! adormeço.
29 janeiro, 2010
Cinzas
em que me esqueço
e o sal queima à nascença o teu desejo
filigrana de cinzas nos meus dedos.
Não era tarde
se viesses perder-me agora
e aos teus passos ruíssem as paredes
e o vento frio por dentro me habitasse.
Não era tarde, era a hora
tão esperada e por isso já esquecida,
de quem sempre espera
e nunca se demora.
Se tu soubesses (se o saber bastasse)
as nuvens que me enchem os pulmões
e que de respirar meu corpo amadurece
e cai desamparado nos umbrais.
04 janeiro, 2010
27 novembro, 2009
dentro desse instante quase,
dentro do desejo à solta
prestes a gritar.
não sou quem esperas,
vai-te embora, vai à volta,
não sou quem me demoras.
um segundo.
é o tempo que tenho para te perder.
é o tempo de te respirar por dentro.
é o tempo de uma porta a bater.
é o tempo de cair na armadilha,
tenho frio, tenho chuva, tenho medo.
é o barulho de um carro a bater de frente.
é uma parede branca ao relento.
é um semáforo intermitente.
06 outubro, 2009
sede
chuva
e essa poeira lentíssima que vem com ela,
como um lençol invisível que cobre os ombros de todos
de triteza e de cinzento.
chuva
torrencial
de vazio e de desejo,
diluindo a visão e a memória.
terra
quente e muda de sede,
poros dilatados, e vales, rios e bocas
abertos ao céu, língua áspera de fome,
se mãos tivesse das nuvens beberia
sofregamente.
04 setembro, 2009
antes de sair
a todo o momento acontecem coisas que não se conseguem controlar, a vida acontece e é imprevisível e inesperada, angustiante e irrelevante na medida em que não há nada a fazer a não ser continuar.
ou então aproveitar um fim-de-semana fora e parar. arrefecer o pensamento, deixar correr cá fora o que está dentro, deixar passar por dentro o tempo lento de estar fora do sítio, fora de casa, fora do tempo, como se houvesse, às vezes, um tempo fora do tempo. onde me sinta em casa. um tempo, fora do tempo, fora de casa, onde me sinta em casa.
16 agosto, 2008
Herbie Hancock Feat Corinne Bailey Rae - River
uma das músicas que ouvi ontem. mas esta versão da Corinne faz-me parar. há algo de infantil no sussurrar e tanto de cuidado e de contido na forma como canta. um equilíbrio frágil. parece que se pode partir a qualquer instante (é preciso ouvir com a mesma delicadeza)
10 julho, 2008
(sem título)
um dia,
quando chegares,
reconhecer-te-ei pelas mãos.
não que as tuas mãos tenham algo de especial.
para todos os outros são umas mãos perfeitamente normais.
ninguém sabe, senão eu, que as tuas mãos já são minhas,
ninguém as conhece como eu que sempre as conheci.
não vou sequer dizer que as tuas mãos encaixam nas minhas
porque as minhas são pequenas e as tuas grandes demais:
nas tuas mãos cabe o tempo, a terra, o meu corpo inteiro,
nas tuas mãos beberei da chuva a primeira água das manhãs.
um dia,
quando chegares,
não vais saber quem sou eu,
só as tuas mãos reclamarão aquilo que já é teu.
sono leve, rente à pele, quem me vem adormecer?
no dia em que me tocares, saberás porque nasci.
02 julho, 2008
27 setembro, 2007
outra vez o tempo

engoliu o muito que tinha para te dizer e encheu-me de silêncio.
31 maio, 2007
o desejo
o meu desejo mais profundo
(aquele que nem eu sei)
então a minha vontade seria igual à tua,
e a fidelidade ao essencial
e a nada mais do que isso
me libertaria.
à procura desse desejo podia correr o mundo,
perder caminhos,
perguntar aos sábios,
e aos artistas,
ler todos os livros, jornais, revistas,
fazer experiências,
analisar hipóteses,
destilar pensamentos,
recolher elementos no seu estado mais puro,
deduzir fórmulas,
fazer cálculos,
reduzir os desejos aos mínimos múltiplos comuns,
maximizar rendimentos e eficiências,
efectuar simulações teóricas,
desprezar erros sistemáticos
corrigir erros fortuitos,
aplicar tratamentos estatísticos...
...
ou então, podia simplesmente parar.
09 maio, 2007
a busca
quem me dera poder escrever-te,
ou pintar o teu retrato,
ou encontrar-te na rua
e demorar-me ao teu lado.
quem me dera sonhar caminhos
que encham de futuros os teus olhos
e desejar desejos
de encontro à tua vontade.
quem me dera falar pouco
e dizer sempre verdade.
quem me dera deixar tudo,
perder os passos na madrugada,
correr o mundo de mãos vazias,
só para te abraçar no fim da estrada.
fotografia daqui
04 setembro, 2006
WISHing for a spotLESS mind
antes de te conhecer o teu nome ouvido por acaso na boca de alguém não fazia nascer nenhuma imagem ou sensação, era como uma palavra inventada numa língua estrangeira que não saberia em que prateleira arrumar, nem que espaço lhe destinar, e que esqueceria 32 segundos depois, ou talvez nem isso (32 segundos ainda é um tempo de existência considerável)
e agora? não sei (éne à ó til ésse é i)
será que pela distância ou pelo tempo, ou recorrendo a algum, qualquer, elixir de esquecimento se consegue reequilibrar a energia, eliminar as variáveis incontroláveis, repor a ordem ou a insensibilidade às diferenças, às distâncias, aos silêncios, às sombras, às memórias mais obstinadas?… provavelmente… (serão, talvez, precisos bem mais do que 32 segundos)
outras dúvidas: será que se quer? será que se quer querer?
é caso para dizer...
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(achei que ficava bem meditar o tempo em código morse...
13 julho, 2006
era o sorriso
e nele a promessa indizível
de tudo o que havia por dizer,
nele o mundo inexplorado.
algures uma fonte no centro da tristeza
reflectia nuvens prateadas
que ficavam assim, suspensas no olhar,
ou no silêncio que afinal nos alcançaste.
mas eu não quis ouvir
e mergulhei.
sempre à espera de um mundo inteiro
que não veio
que não vem.
depois falamos:
o tempo sempre adiado.
agora já não sei se sinto algo para além desse instante.
encostei a face esquerda à parede franca e fria
e esperei a transferência de calor
(de sentimentos)
voltarei reconstruída,
imbuída de outras missões mais específicas e precisas,
calcular, passar, escrever, falar, ir, voltar, …
infinitamente repetíveis
sem ânsias de sentido.
então quando me disseres:
depois falamos
responderei,
ok.
(ko, ok, ko, ok, ko…)
e já nada haverá em mim que te reconheça
ou se lembre ainda de uma parede branca
(franca, branca, franca, branca…)
noutro tempo,
(noutra vida)
que talvez sinta falta
do que não se disse,
do que não disseste.

