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06 dezembro, 2010

de outra cor


ainda bem que chove por estes dias, assim não tenho que me preocupar com o que vestir para disfarçar a dor, porque o mundo é da minha cor. eu visto as nuvens e caminho incólume através da tempestade. eu deixo o frio brilhar através dos meus dedos. deixo desejos e medos soltos no vento para ele os dispersar. o meu grito é o ribombar dos trovões e o rumor da chuva sobre a terra sou eu a murmurar.


01 julho, 2008

Vivaldi - Stabat mater (RV 621) - Andreas Scholl


à procura da perfeição...
parece fácil.

02 junho, 2006

Cada vez mais aqui

"Queres lutar com quem?
Para doer aonde?
Para ser o quê?
Achas que ninguém vê?

E p'ra quê fingir?
Porquê mentir e remar na dor?
Achas que ninguém vê?

Também eu queria parar...
chorar
cair... p'ra me levantar,
p'ra te puxar!
Te fazer sorrir...
não voltar a cair!...

Não me olhes assim!
Continuo a ser quem fui!
Cada vez mais aqui...
não dances tão longe..!
que eu já te vi...

Também eu queria parar...
chorar
cair... p'ra me levantar,
p'ra te puxar!
Te fazer sorrir...
não voltar a fugir!..."

Toranja

01 junho, 2006

A Alquimia da dor

As salas de espera são sempre férteis em revistas muito desactualizadas... assim encontrei uma revista de janeiro de 2006 com um artigo intitulado Alquimia da dor... sobre um livro com o mesmo título de uma professora de Budismo chamada Tsering Paldron... aqui ficam algumas passagens do artigo...

"«para muita gente ser feliz é não sofrer. Por isso, ser feliz é impossível. Vivemos num mundo onde o sofrimento é omnipresente: não há recanto, país ou latitude onde possamos escapar-lhe. Não existe remédio, terapia ou droga que nos ponha ao abrigo dele, e irrompe na nossa vida quando menos esperamos». Para os budistas, «o grande paradoxo da existência é que, embora ninguém queira sofrer, a sobrevivência faz-se à custa do sofrimento»."
"Os ensinamentos de Buda tentam levar-nos a perceber que «a natureza do mundo é sofrimento, por isso é inútil esperar que a felicidade possa dele porvir. Não são os objectos - obtidos à custa de sofrimento - que nos podem dar felicidade. Não são os fenómenos - efémeros e passageiros - que nos podem dar serenidade. Se queremos alcançar a felicidade, temos de apostar no próprio espírito, que é onde nasce todo o sofrimento e toda a felicidade»."

"não é por acaso que os momentos de maior sofrimento são também os mais ricos em tomadas de consciência - o que indica que o sofrimento pode ter um efeito salutar e um papel importante na nossa vida"
"a grande alquimia do sofrimento reside no facto de, para o transformarmos, termos de nos deixar transformar por ele."

"quando o sofrimento surge, estamos prontos para procurar o culpado, acusar toda a gente, mover acções em tribunal. Procuramos assim alívio, mas na realidade só estamos a piorar a situação: «Se usarmos toda essa energia para aprendermos a dominar o nosso espírito e para evitarmos que este continue a destruir-nos, o resultado será mais positivo»"

"Nada neste mundo é permanente, e o budismo aconselha a pensar que todas as situações por mais terríveis que sejam, tem uma duração limitada. Acabam por passar. Pensar que uma dada circunstância negativa vai durar muito tempo faz-nos sofrer mais."

"«nem tudo é totalmente bom nem totalmente mau»"

"Outro dos nossos grandes erros, à luz da doutrina budista, é a rejeição do sofrimento. «Habituámo-nos ao happy ending e achamos que temos direito a ele. Ficamos frustrados quando a história acaba mal porque desde crianças nos prometem que seremos felizes para sempre. (...) «estaremos mais preparados para enfrentar o sofrimento se soubermos que ele existe, que não lhe somos imunes, que nada nos garante que não venha bater-nos à porta. O síndroma do happy ending leva-nos a reagir como meninos mimados nos momentos difíceis. Tornámo-nos seres tão frágeis que se alguém se oferecesse para ficar com o nosso sofrimento aceitaríamos sem hesitar».
O budismo propõe várias técnicas para nos ajudar a transformar o sofrimento. Mas a principal é nunca esquecermos que receberemos sempre o resultado das nossas acções - sejam elas positivas ou negativas. E que para conseguirmos alcançar a paz e a serenidade temos de saber controlar o nosso espírito - pois só assim conseguiremos uma verdadeira alquimia da dor.»"

(texto de Sofia Barrocas)


Pois, gostei tanto do artigo que não resisti... fez-me pensar... nesta sociedade onde a todo momento nos exigem que sejamos felizes (ou que nos divirtamos… porque existe muita confusão entre diversão e felicidade… quando a mim me parece que a felicidade andaria mais próxima da serenidade por exemplo) e ao mesmo tempo não nos preparam para lidar com a dor… nem com a nossa nem com a dos outros…
Porque ficamos geralmente tão embaraçados com a dor dos outros, com as lágrimas dos outros? Porque perdemos tanto tempo a pesar dores na balança e somos tantas vezes incapazes de perceber a dor do outro? Porque nos envergonhamos da nossa própria dor?

Parece-me que uma boa dose de aceitação (nota: aceitação é diferente de resignação) e perseverança devem ser úteis neste processo em que transformamos a dor… ou em que nos deixamos transformar por ela… seremos nós capazes desse atrevimento?… de não comprarmos a cultura da eterna euforia e de procurarmos a felicidade através de um caminho em que se conhece, aceita, e encara a dor com naturalidade e sabedoria?

A Tua Pequena Dor

"a tua pequena dor
quase nem sequer te dói
é só um ligeiro ardor
que não mata mas que mói

é uma dor pequenina
quase como se não fosse
e como uma tangerina
tem um sumo agridoce

de onde vem essa dor
se a causa não se vê
se não é por desamor
então é uma dor de quê?

não exponhas essa dor
é preciosa é só tua
não a mostres tem pudor
é o lado oculto da lua

não é vicío nem costume
deve ser inquietação
não há nada que a arrume
dentro do teu coração

certo é ser a dor de quem
não se dá por satisfeito
não a mates guarda bem
guardada no fundo do peito!"

by Carlos Tê/Rui Veloso
(Cabeças no ar)

24 maio, 2006

Pode alguém ser quem não é

"- Senhora de preto
diga o que lhe dói
é dor ou saudade
que o peito lhe rói
o que tem, o que foi
o que dói no peito?
- É que o meu homem partiu

Disse-me na praia
frente ao paredao
“tira a tua saia
da-me a tua mão
o teu corpo, o teu mar
teu andar, teu passo
que vai sobre as ondas, vem”

Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?

Seja um bom agoiro
ou seja um mau pressagio
sonhei com o choro
de alguém num naufragio
nao tenho confiança
já cansa este esperar
por uma carta em vão

“por cá me governo”
escreveu-me então
“aqui é quase Inverno
aí quase Verão
mês d’Abril, aguas mil
no Brasil também tem
noites de S. João e mar”

Pode alguém ser quem não é?

É estranho no ventre
ser de outro lugar
e tão confusamente
ver desmoronar
um a um sonhos sãos
duas mãos
passando da alegria ao desamor

Pode alguém ser livre
se outro alguém não é
a algema dum outro
serve-me no pé
nas duas mãos,
sonhos vãos, pesadelos
diz-me:
Pode alguém ser quem nao é?"

Sérgio Godinho