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20 maio, 2012

Io guardo te


às vezes acontece. alguém que passa e diz algo inesperado e ao qual não conseguimos ficar indiferentes. alguém que passa por um instante e não se detém: io guardo te. e sem porquê, as palavras repetem-se dentro de nós, dos sentidos à inteligência, da inteligência ao coração, à procura de um sentido. io guardo te. é com um olhar que tudo começa, embora pareça que nada acontece. eu olho para ti. tu olhas para mim. quantas vezes paramos para olhar com olhos de ver? quantas vezes nos deixamos olhar sem medos, nem máscaras?

[é engraçada a coincidência do guardo italiano com o guardo português. duas palavras iguais com significados aparentemente diferentes. há olhares superficiais que não guardam nada do que vêem... mas há olhares que se deixam tocar,  que se comprometem, que guardam algo do que vêem, sem qualquer ilusão de o poderem conter ou deter. imagino que os pais também guardam os filhos dentro do olhar, mesmo quando perdem a ilusão de os poderem proteger.]


16 setembro, 2010

Academia de Verão











há imagens que valem muitas palavras, dias que valem vários meses, encontros que dão sentido a anos de desencontros. os últimos dias de férias foram afinal os primeiros. os primeiros em paz e em esperança. os que trouxeram mais respostas e novas perguntas. e sede, sede de mais. mais verdade, mais liberdade, mais coragem, mais conhecimento, mais integridade, mais transparência... parece às vezes que são demasiados desejos para uma pessoa só, mas a mim faz-me pensar: por que me deixo viver tanto tempo com menos, satisfeita com pouco, sem sonhar mais, sem procurar as respostas, (e as perguntas), alheia à minha própria sede... é estranho, não é?



06 julho, 2010

Pérolas aos Poucos - Zé Miguel Wisnik


Hoje faço 28 anos. O ano passou por mim a correr, com a intensidade dos anos de mudança: mudança de direcção, sabor de coisas novas, mas familiares cá dentro, como aquelas pessoas que encontramos e parece que conhecemos há muito, ou aquelas que raramente vemos, mas parece que nunca saíram de perto de nós.
as escolhas são difíceis, porque abrem umas portas, mas fecham outras e nunca temos certezas absolutas. só podemos avaliá-las pelos frutos, pela luz nova que trazem à vida, pela felicidade que nos dão apesar do cansaço e das dificuldades, pela paz interior que sentimos apesar do futuro ser tão incerto como sempre foi...
os aniversários são geralmente dias em que as pessoas nos oferecem coisas (espero que poucas, porque já tenho tudo o que preciso), mas dei por mim a pensar no que terei eu oferecido às pessoas ao longo deste ano, se estive atenta ao que as pessoas precisavam de mim, se estive presente na vida das pessoas que hoje se lembraram de mim ou se andei demasiado ocupada com as minhas coisas.
que presente é que damos aos outros todos dias? não falo dos presentes embrulhados com laço e tudo, mas do dia de hoje, do tempo presente, da presença que temos no tempo presente das pessoas, do espaço-tempo que ocupamos, roubamos, oferecemos e de como o fazemos.
lembrei-me de uma canção que descobri há pouco tempo e que gosto muito: "Pérolas aos poucos". Será que damos sempre pérolas aos outros, ou seja, sempre o melhor de nós? Será que sentimos que as pérolas que damos se perdem? Eu acho que aquilo que dou é sempre muito pouco, vem do pouco que eu sou, mas acredito que nada daquilo que se dá, nada daquilo que se partilha se perde. só se perdem as pérolas que guardamos para nós e não são úteis a ninguém.






27 março, 2009

Férias


último dia de aulas. alunos irrequietos, ansiosos, divertidos, faladores, impacientes. professores cansados, inquietos, animados, relaxados...

Todos ansiosos por ficarem de férias da escola e uns dos outros, porque no fundo, no fundo, gostamos muito uns dos outros, mas chega um dia em que já não nos podemos ver à frente e precisamos todos (professores e alunos) de férias uns dos outros para respirar e recomeçar com nova energia.

Balanço final: tudo o que é bom dá muito trabalho, cansa, ocupa tempo e espaço mental (mesmo quando se está fora da escola)... mas quando é bom (quando se gosta), é mesmo muito bom.

24 outubro, 2008

do fazer, do estar e do sonhar


Penso muitas vezes e repito-o para mim própria: não há tarefas menores. Depois na prática nem sempre me lembro disso. Hoje volto a esta ideia, com mais vontade ainda de a pôr em prática. Se a cada pequena tarefa, se em cada pessoa que encontro colocar toda a minha dedicação, cada encontro e cada tarefa ganha um novo sentido. Eu realizo-me mais porque estou presente naquilo que estou a fazer, sou mais feliz e faço mais felizes os outros. Não quero com isto dizer que devo viver prisioneira do presente. Posso estar dedicada ao presente e elevar os olhos para o futuro, com esperança, com confiança, posso e devo sonhar mais alto e melhor. Aliás se viver bem o presente, com as suas dificuldades e sofrimentos, com as suas alegrias e oportunidades, se levar a vida a sério e lhe procurar sentido, vou com certeza sonhar melhor.

16 maio, 2007

o reino






















acredito na felicidade de viver um dia de cada vez,
e no valor das pequenas coisas.
acredito na amizade,
no amor gratuito,
na beleza interior.
acredito na paz.
acredito na liberdade interior.


acredito que vale a pena olhar para o futuro com esperança,
e que é possível optimizar (n)o presente.
acredito que no silêncio se dizem muitas coisas, e se ouve muito melhor.
acredito que melhor é possível, acredito que é possível mudar.
acredito que vale a pena lutar pela justiça e pela verdade.
acredito que faz sentido viver uma vida com sentido,
ou passar a vida a procurá-lo.


acredito na comunicação.
acredito na urgência do perdão.
acredito na busca do essencial.
acredito no poder transformador de um olhar,
acredito no poder transformador do amor.




fotografia encontrada aqui




23 janeiro, 2007

ao ritmo do coração




há algo de satisfação silenciosa em acordar à hora prevista, sair para o frio da manhã, atingir passo a passo pequenos objectivos, sentir que o tempo passa naturalmente. há algo de promessa cumprida no nascer do sol. há algo de felicidade contida no simplesmente estar... sem fazer nada, sem dizer nada, 1min, 2min, 3min, ... o tempo que se puder e quiser. há algo de incompleto e de insatisfeito em cada um. há algo que nos faz correr, há algo que nos faz sonhar, há algo que nos faz arriscar mais. mas também há paz nesse arriscar-se quando se tem um rumo certo no coração em vez de navegar à deriva.



10 abril, 2006

Espera

há poucos poemas que sei de cor... este sei-o há anos. continua a ecoar em mim ao longo do tempo. há dias em que soa tão certo como o tic-tac do relógio com tudo o que há de inevitavél nele, e talvez por isso exista algo de paz nessa eterna angústia. a paz da inevitabilidade. a paz não da resignação, mas da aceitação daquilo que é, e daquilo que se é...

este poema recorda-me o principio da "viagem" que me levou à Póvoa e que me faz continuar por lá no seio de uma família nova. por isso aqui fica uma dedicatória a essas famílias que escolhemos e ajudamos a construir, essas famílias que no princípio são como vasos fora de casa e parecem tão desprotegidas, mas depois vão ganhando raizes e tornam-se outras casas fora de casa.


Espera

Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

Eugénio de Andrade