15 fevereiro, 2012

Jeff Buckley - I know It's over



'Cause tonight is just like any other night



24 janeiro, 2012

à noite II


quatro paredes brancas, altas, concentradas,
às vezes um sinal
de que é possível respirar.
às vezes.
e continuar.
quatro paredes brancas, altas, concentr...


à noite


à noite
teço os meus dias,
os meus dedos.
ao longe: as palavras.
as melodias interiores das palavras.
ao perto: incandescente,
luxuriante, a luz
da alvorada.
prometida.



22 janeiro, 2012

o corpo: sinfonia em (des)construção


o tempo contraria o movimento do corpo.
quem dera parar. quem dera parar.
não há nada, nada, passível de ser detido
um só instante,
nem dentro do corpo, nem fora dele.
a imobilidade do corpo é uma ilusão.
a solidez do corpo é uma ilusão.
é mais sólido o tempo
no seu permanente movimento,
a empurrar tudo para o presente do futuro,
do que o corpo.
é mais sólido o ar,
do que o corpo.
as moléculas imperecíveis do ar,
azoto, oxigénio, vapor de água, ozono,
dióxidos vários, monóxidos mil,
pedras infinitesimais da matéria em permanente vibração
dilacerando os corpos ao passar.
é mais sólida a dor de existir
do que o corpo.
essa dor impossível de esconder,
é só o ar, é o ar ao passar,
essa dor impossível de mostrar,
ninguém quer ver, ninguém quer ver.
seria tão mais fácil desexistir,
seria tão mais fácil deixar o corpo ganhar:
agora já não posso parar, agora já não podes parar.
a pele intocada, intocável,
a pele habitada, lugar onde o tempo se dilata,
a pele obstinada, insolente,
deslizando líquida sobre os objectos-ossos-orgãos,
desenhando as curvas oblíquas do silêncio.
a noite é tão funda
que te prende as palavras à garganta
como nuvens, palavras-voláteis-mudas.
por isso quando falas, quando calas, chuva.
(não digo nada, não digas nada)
adivinho-te no corpo, encerradas, planícies desmedidas,
onde a infância te corre descalça
e o brilho selvagem da esperança
te fere o olhar ainda.
abre os olhos: vê,
a beleza do mundo entra pelos olhos adentro
incandescente e rara,
capaz de derrubar qualquer fronteira.
abre os olhos: sente,
a dor do mundo entra pelos ossos adentro,
fera e fria,
capaz de arrefecer qualquer convicção.
a morte aqui tão perto. omnipresente.
o tempo escorre-te dos dedos
a uma velocidade logicamente irracional.
o tempo escorre-te dos medos:
quem queres ser afinal?
a morte aqui tão perto,
dentro do teu corpo-coroa-cara,
a uma distância infinitesimal.
abre os olhos: ouve,
a sinfonia intermitente da vida,
a pulsação suspensa por um fio. frágil.
no dia em que o meu coração parar,
todos os meus átomos serão finalmente livres para ser
terra, pedra, rio, pássaro, fogo, sal,
elementos (in)significantes na harmonia imanente do mundo,
a vibrar para além de mim, antes de mim, depois de mim.
agora.
ainda.
dentro de ti.
dentro de mim.
[os elementos são.
não há outra opção senão ser.
é uma certeza nuclear.]



Bon Iver - Perth (Deluxe)




longe demais ou perto demais?
demasiado lento ou demasiado rápido?
o que vemos? como vemos?
o mistério permanente do tempo
ao alcance do nosso olhar?


04 janeiro, 2012

metamorfose


podia ser só uma impressão. uma coincidência. qualquer coisa que parecia, mas não era. um reflexo e não uma luz interior. mas parecia. qualquer coisa no olhar. ou uma paz na voz, na cor, no gesto invisível, na frequência de vibração das moléculas do ar. parecia diferente. e era mesmo. só ele o sabia.

03 janeiro, 2012

(con)sentida contradição


e agora, e ainda,
de cada vez que me lembrar,
esquecer.

e quase, e claro,
de cada vez que consentir,
perder.

e às vezes, e sempre,
de cada vez que desejar,
morrer.

10 dezembro, 2011

O olhar e o ver

em tempos de crise, e em todos os tempos, há pessoas que desistem e pessoas que reconhecem e agarram as oportunidades, há pessoas que bloqueiam e pessoas que sabem recomeçar uma, duas, três... as vezes que for preciso, há pessoas que se fecham em si mesmas e pessoas que se abrem aos outros. e não quero com isto dizer que o mundo se divide em dois tipos de pessoas, mas que nós, em diferentes tempos, podemos ter diferentes reacções aos acontecimentos, às pessoas, aos sentimentos. 

a qualidade do olhar é um factor preponderante. como vemos? o que vemos? continuamos a maravilhar-nos, ou tudo nos parece mais do mesmo? arriscamos expor-nos, ou temos uma imagem a defender? quando vemos injustiça, sofrimento,... sentimos-nos interpelados ou tornámo-nos indiferentes? o que vemos nos outros? os nossos pré-conceitos? os nossos pré-desejos? será que lá no fundo, bem no fundo, inconfessavelmente, ainda achamos que temos o direito de ser felizes e que os outros tem a obrigação de nos fazer felizes? ou vemos os outros como realmente são, com liberdade interior, sem julgar e sem exigir que correspondam aos nossos desígnios? 

viver atento, acordado, alerta para aquilo que nos rodeia não é um objectivo que em alguma altura está definitivamente conquistado, é uma atitude que se exercita constantemente, é uma meta nunca alcançada, podemos sempre fazer melhor, sempre. será que fazemos?

06 outubro, 2011

A vida inteira



Recuperamos, nas férias, dos cansaços, dos desencantos, das derrotas, dos desencontros,... Recuperamos a paz. Recuperamos os desafios e os desejos que deixamos adormecer dentro de nós. Encontramos outros e (re)encontramo-nos as nós mesmos, iguais, mas diferentes, com mais tempo e mais verdade para ser e para estar.
E assim, iguais, mas diferentes, somos novamente lançados para a rotina, para os trabalhos e os cansaços, as alegrias e os desencantos, as vitórias e as derrotas, os encontros e os desencontros,... Como reagimos? Com que força resistimos? Com que pressa desistimos? De que fibra somos feitos? De que nos alimentamos? Que sentimentos nos invadem às primeiras contrariedades? Esperança ou desespero? Paciência ou raiva? Em que é que mudamos afinal? O que é que trazemos de novo para cada novo dia? O que é que trazemos de novo para o dia dos outros?

Silencio-me e observo. Tantas caras, tanta vida, tantas vozes, tanta pressa, tanta música, à minha volta tudo se movimenta. A cada novo dia, a vida inteira começa. Em cada novo dia, a felicidade reside inteira, disponível, semente à espera de ser árvore. Cada novo dia é uma oportunidade inteira para mudar a minha vida. A minha vida vive-se sempre, inteira, num só dia: hoje. O que dei eu hoje? O que recebi? O que desperdicei?




Paciência



"Uma árvore é uma semente que cresce devagar e em silêncio."
 Bruno Munari



12 setembro, 2011

Sem nada a perder




medo de perder,
medo de sofrer,
medo de viver,
medo de morrer,
medo de ser,
medo de parecer,
medo de errar,
medo de acertar,
medo de ter,
medo de não ter,
medo de ter medo,
...



e se pudéssemos viver sem medo?



01 setembro, 2011

Magis 2011: Peregrinar

Ainda estou a tentar fazer o balanço destas férias. E não me atrevo a grandes conclusões por suspeitar que há experiências, pessoas, encontros, descobertas cujas repercussões só poderemos avaliar mais tarde, pelos frutos. As árvores (e as vidas) avaliam-se pelos frutos.
Tenho para mim que não é só a viagem que me seduz, mas todas as dimensões do peregrinar. Viajar caminhando, devagar, com tempo para estar nos lugares e para estar com as pessoas, com tempo para conversar, com tempo para parar, com tempo para ter tempo. Viajar com pouco, deixando o supérfluo para trás e procurando o essencial. Viajar com as dificuldades e fragilidades que o caminho faz questão de revelar. Viajar com sentido e objectivo para uma meta que não é necessariamente o lugar de destino, mas um novo olhar, uma sabedoria que do caminhar se traz para a vida. E depois, cada destino é também o ponto de partida para um nova viagem, para um regresso, ou para uma nova partida.
Pode às vezes parecer rotineira a viagem da vida. Daí a importância de trazer um olhar renovado para a rotina de todos os dias. E a coragem de enfrentar medos e de nos propormos a ultrapassar obstáculos, mesmo que eles nos pareçam, à partida, montanhas intransponíveis. Afinal, depois de subir a primeira montanha impossível todas as outras nos parecem mais acessíveis.
Podemos nivelar a nossa vida por baixo, correr poucos riscos, viver agarrados às nossas velhas seguranças, achar que não somos capazes de mais e melhor, mas é mentira. Os ideais só são ideais se forem elevados. E há algum risco maior do que a vida desperdiçada? O melhor é não nos satisfazermos com pouco quando o coração pede magis. Correr o risco de trilhar vales e montanhas. Até porque as montanhas sobem-se todas da mesma maneira: um passo de cada vez. Entretanto, convém não esquecer de aproveitar a viagem e a paisagem, porque as metas que valem a pena são difíceis de alcançar.

Magis: Peregrinação entre San Sebastian e Arantzazu - 9 a 14 de Agosto de 2011

26 agosto, 2011

24 agosto, 2011

No coração do mundo


há algo na viagem que nos fascina e seduz.
que nos chama por dentro. sem palavras.
um outro mundo lá fora. longe das nossas seguranças.
uma busca comum que silenciosamente nos guia:
para onde vai a tua vida?
para onde vai este dia?
de todas as cores. de todos os lugares.
para lá dos medos o invisível reluz.
um desejo onde desconhecidos se reconhecem.
um amor que torna próximos os distantes.
um mundo inteiro lá fora. à nossa espera.

03 agosto, 2011

Contagem (de)crescente


Dia -1

Música: CD "Em fuga" - Tiago Betterncourt & Mantha
Objectos: Mochila, lista de coisas a levar, coisas propriamente ditas
Acção: Fazer a mala.

O que precisamos realmente? O que levamos e o que deixamos para traz? Viver com mais. Viver com menos. O que nos faz realmente falta? O que podemos dispensar? Torna-se mais fácil decidir quando sabemos que vamos ter que carregar a mochilas às costas no caminho... (mas não temos sempre? não carregamos o peso das coisas todos os dias?) As escolhas que fazemos influenciam a viagem. Que viagem queremos fazer? Que valor damos realmente às coisas? Será que elas têm esse valor? Ou poderíamos viver melhor sem elas? Fazer escolhas. Fazer a mala é fazer escolhas. Fazer a mala é um exercício de liberdade.


Preâmbulo


a partida marcada. daqui a dois dias. e a mala por fazer. ainda. tempo não me tem faltado. porquê? adiar. sou perita em adiar. não pensar. para não ter que pensar. em quê? na partida. na chegada. no espaço entre. no tempo durante. para não pensar. para não ter medo. de quê? sei lá. do barulho. do silêncio. da multidão. da solidão. de tudo. de nada. de perder. de encontrar.

a viagem marcada. definitiva. agora já não há nada a fazer. já não há tempo. já nem sequer há tempo para não pensar.


23 julho, 2011

oportunidades


a vida é frágil. parece energia fulgurante. parece intocável. parece garantida.
às vezes vivemos como se fôssemos imortais. desperdiçamos. energia. tempo. oportunidades. dizemos: haverá outras oportunidades, mas não é exactamente verdade.
as oportunidades que desperdiçamos não voltam. as oportunidades que desperdiçamos não se repetem.
haverá outros tempos, outras pessoas, outras oportunidades, nós próprios seremos outros.
a inacção é uma forma de acção. as oportunidades que virão, serão outras. mesmo outras. melhores? piores? é muito difícil sabê-lo.


perspectivas


Às vezes a distância... é o melhor remédio.
Quando estamos perto demais nem sempre temos consciência do plano geral.
Dava jeito, às vezes, conseguirmos ver-nos (a nós, às nossas opções, às nossas relações) à distância.


10 julho, 2011

esse lugar invisível que te habito sem saberes II


É provável a ilusão. O desejo tem destas coisas. A vontade férrea de persistir, de se ultrapassar, de passar do pensamento à acção. É capaz de criar qualquer ilusão para servir o seu ardil. Eu não posso ser quem tu desejas, não posso ser quem tu precisas, o tempo todo. É uma ilusão, mas a sensação do meu desejo é essa, a ilusão do meu desejo é essa: é seres em mim, já, o que ainda não sabes e eu ser em ti o que ainda não sentes. Desde sempre. Desde que nasceste e até morreres e mesmo que nunca o venhas a saber. Eu ser em ti, desde sempre, esse lugar invisível que te habito sem saberes.