29 junho, 2010

Pensamento II


a verdade mais dolorosa é melhor que a mentira mais piedosa.


Pensamento I


às vezes enganámo-nos a nós próprios.
e no fundo sabemos que estamos a enganar-nos.
mas queríamos tanto estar enganados.
(ou seja, não estar enganados).


21 junho, 2010

quase...

depois de três semanas sem parar, tempo para arrumar...




o quarto.



(e a cabeça)




e também tempo para ler,
tempo para estudar,
tempo para parar,
tempo para sair,
tempo para...
descansar!



10 junho, 2010

sem título

na fronteira
de todos os pensamentos nenhum.
vazio, imóvel, frio,
em cada palavra,
em cada gesto te desafio.
toque, sopro, espaço,
em cada dia me deito,
em cada hora me esqueço,
escondo, minto, nego,
corro, fujo, faço.

07 junho, 2010

Conjugar o verbo acolher


é bom ter amigos. pessoas com quem se está bem, com se pode ser quem se é... às vezes mostramos o que não somos para não mostrarmos o que somos e isso deixa-nos sempre menores, insatisfeitos, porque a felicidade está na integridade, em sermos nós em todas as circunstâncias por mais chato ou difícil que isso às vezes pareça.
é bom abrir o coração a quem chega, sem falsas expectativas, respeitando a verdade do outro e a nossa própria verdade, percebendo que a felicidade está mais em acolher do que em receber. são tantas as vezes em que nos aproximamos ansiosos por receber, angustiados por concretizar os nossos desejos e os nossos planos independentemente da vontade e da situação do outro.
lá no fundo, precisamos todos, todos os dias, de nos sentirmos aceites naquilo que somos, não mais, nem menos, inteiros, com as nossas qualidades e defeitos. Se começássemos a fazê-lo hoje com as pessoas que conhecemos ou que encontramos no caminho a vida não seria diferente?

Conjugar o verbo estar


às vezes ficamos tão preocupados com o não cumprimento dos nossos planos que não aproveitamos o momento, nem as pessoas que temos ao nosso lado.
depois o dia passa, a noite vem, passa outro dia e outra noite e com o passar do tempo as coisas já não parecem tão terríveis, porque não o são de facto.
é importante relativizar e rirmo-nos de nós próprias, da nossa impaciência, da nossa urgência, quando aquilo que podemos de facto controlar à nossa volta é ínfimo...

27 maio, 2010

depois da tarde


palavras suspensas na garganta
por um fio invisível, rente à língua,
à míngua de água. fome.
palavras suspensas no ar
como frutos em queda entre o sonho e o chão,
Palavras suspensas no verbo
cair. [dizer, silenciar, mudar, partir]
palavras suspensas na vontade:
[medo] de te [ser]
palavras suspensas nas mentiras que tecemos.
viscosas. mãos. fundo.


24 maio, 2010

a tarde


a tua pele de sal.
a tua boca de mar.
o teu corpo de areia e de sol.


a tua boca de sal.
a tua boca de sal.
a tua boca de sal.


22 maio, 2010

leis da física



o calor dilata os corpos.


o calor dilata os dias...





16 maio, 2010

espera(r)


esperar irrita. esperar custa. às vezes até dói. às vezes parece inglório, um desperdício de tempo, parece sinónimo de estar parado... mas não é. esperar é respeitar o tempo dos outros. esperar é respeitar o nosso próprio tempo. esperar é respeitar o tempo da vida, que nem sempre coincide com o nosso. é um óptimo exercício para se descobrir o que se quer, porque os desejos não aguentam esperar e vão caindo de maduros (ou de verdes: há desejos que nunca chegam a amadurecer, nem o merecem) até sobrarem só os desejos que darão bons frutos, desejos construtivos que fazem parte do que se quer e não daquilo que apetece e que está sempre a mudar.

esperar é a capacidade dos que ainda são capazes de viver com esperança, dos que ainda são capazes de acreditar no mundo, nas pessoas, na beleza, na verdade, na justiça,...

esperar está para a acção como o silêncio para a música (ou para a palavra) e já se sabe que não há boa música sem silêncio.


20 abril, 2010


silêncio.
pudesse calar-te às vezes,
ou fazer-te falar,
quando quero,
quando expiro,
quando não sei dizer-te
que preciso.
(nunca sei dizer-te nada).



espera.
dos dias roubados
ao silêncio.
de esperança perdida
na azáfama dos dias roubados
ao silêncio.
estas brancas palavras de esperança perdida
na azáfama dos dias roubados
ao silêncio.



foz.
do outro lado do mar.
do outro lado do rio.
do outro lado de nós.


19 março, 2010

Espera


as contrariedades testam a persistência e fortalecem o espírito?


ah! então é isso. já me sinto mais musculosa.



29 janeiro, 2010

Cinzas



Estes são os dias brancos
em que me esqueço
e o sal queima à nascença o teu desejo
filigrana de cinzas nos meus dedos.

Não era tarde
se viesses perder-me agora
e aos teus passos ruíssem as paredes
e o vento frio por dentro me habitasse.

Não era tarde, era a hora
tão esperada e por isso já esquecida,
de quem sempre espera
e nunca se demora.

Se tu soubesses (se o saber bastasse)
as nuvens que me enchem os pulmões
e que de respirar meu corpo amadurece
e cai desamparado nos umbrais.


04 janeiro, 2010

às vezes

às vezes faz-me falta ser conhecida.
para não ter que ser outra coisa qualquer senão ser.

27 novembro, 2009

inspiro.
dentro desse instante quase,
dentro do desejo à solta
prestes a gritar.
não sou quem esperas,
vai-te embora, vai à volta,
não sou quem me demoras.

um segundo.
é o tempo que tenho para te perder.
é o tempo de te respirar por dentro.
é o tempo de uma porta a bater.
é o tempo de cair na armadilha,
tenho frio, tenho chuva, tenho medo.
é o barulho de um carro a bater de frente.
é uma parede branca ao relento.
é um semáforo intermitente.

06 outubro, 2009

sede


chuva
e essa poeira lentíssima que vem com ela,
como um lençol invisível que cobre os ombros de todos
de triteza e de cinzento.

chuva
torrencial
de vazio e de desejo,
diluindo a visão e a memória.

terra
quente e muda de sede,
poros dilatados, e vales, rios e bocas
abertos ao céu, língua áspera de fome,
se mãos tivesse das nuvens beberia
sofregamente.

29 setembro, 2009

perspectiva






paciência é procurar paz no meio de tudo o que acontece

e não se espera
e de tudo o que se espera

e não acontece.






10 setembro, 2009

regresso






era uma vez uma noite,

um encontro tantas vezes adiado,

o silêncio.

entre todas as vozes a tua,

para todas as perguntas: liberdade.




04 setembro, 2009

antes de sair


quando de repente o que era certo deixa de ser e as desventuras se sucedem e parece que não há chão nem direcção e o tempo desgasta a realidade porque as coisas continuam a acontecer aleatoriamente embora se gostasse de ter o condão de as fazer parar, é porque a frase é muito longa e me esqueci de respirar.
a todo o momento acontecem coisas que não se conseguem controlar, a vida acontece e é imprevisível e inesperada, angustiante e irrelevante na medida em que não há nada a fazer a não ser continuar.
ou então aproveitar um fim-de-semana fora e parar. arrefecer o pensamento, deixar correr cá fora o que está dentro, deixar passar por dentro o tempo lento de estar fora do sítio, fora de casa, fora do tempo, como se houvesse, às vezes, um tempo fora do tempo. onde me sinta em casa. um tempo, fora do tempo, fora de casa, onde me sinta em casa.

14 julho, 2009

ser(á) outro




dedilho nos meus dedos
a tua (im)paciência.

aspiro à integridade como a um balão de ar quente
que já partiu e que vejo sempre ao longe,
um ponto minúsculo no horizonte.

dedilho nos meus dedos
a noite e a verdade.
consagro inúteis o desejo e a vontade.

substraio o resto ao produto do divisor pelo quociente
e deito fora o excesso de dividendo.
sobra a verdade que ninguém quer, só eu,
que não me serve de tão pequena e vã,
mas emagreço só para lhe servir
e de todos me afasto e me despeço.