05 novembro, 2010

Segredo


uma carta! corri para o correio. há tanto tempo que não recebia uma carta. o papel, o cheiro, o desenho das letras, carimbos, selos, o tempo nas dobras, língua, cola, voz, tinta, esperança, silêncio, medo.
guardei a carta no bolso, sem abrir. adiei-te como quem prolonga um prazer. caminhar pelo dia com uma carta por ler. tua. o dia inteiro essa notícia repetida, esse segredo no bolso, um murmúrio intermitente a massajar-me a palma da mão, uma resistência imperceptível do papel contra a perna ao andar, uma corrente de ar porque alguma janela mal fechada no coração (ou é o medo a jogar ao esconde-esconde com a esperança. desarrumam-me tudo!)
quanto tempo vou aguentar? umas horas? um dia? mais que um dia? será que consigo dormir com esta carta no bolso? por ler. tua. não sei, mas sabe-me bem não ler, como quem caminha por instantes de olhos fechados na rua, sem ter medo de tropeçar, ou do que os outros vão pensar, porque no fundo caminhamos sempre de olhos fechados para o futuro. confio de olhos fechados que há muito mais do que aquilo que se vê. confio de olhos fechados que não preciso de tentar prever tudo o que vai acontecer.


energias alternativas


hoje sou uma máquina movida a café...
vrummmm, vrummm, cofff, cofff.


04 novembro, 2010

Inércia


inércia.
sono.
estupidez aguda
ou indolência generalizada?
o tempo a passar
e não fiz nada.
nada de nada.
...
vou fazer uma pausa.
(de quê?)


25 outubro, 2010

Citação


"A música tem de dar espiritualidade ao corpo para se tornar em sonoridade visível."


Jaques Dalcroze


19 outubro, 2010

outra vez

com o início das aulas sinto que deixei de respirar: correria, trabalhos para fazer, artigos para ler, poucas horas de sono, leituras interrompidas, nenhum tempo para escrever, bons hábitos recém-adquiridos novamente perdidos... facilmente me desorganizo.

mas faz-me falta respirar. gosto mesmo deste ar frio, destas cores quentes de outono, desta dança das folhas pelo ar, desta vida que se transforma e se reduz ao essencial. quantas folhas teria eu de perder para me encontrar no essencial? com quantas máscaras enfrento os outonos e os invernos e os outros?

com tantas ideias, trabalhos, pré-ocupações, intenções, expectativas, quanto tempo sobra para simplesmente ser? quanto tempo sobra para me deixar surpreender? quanto tempo sobra para me deixar deslumbrar?

o que é que me deslumbrou hoje?
uma mensagem de agradecimento, um gesto, um toque (porque às vezes parece que nos esquecemos de tocar uns nos outros), gargalhadas de fim de tarde, uma música, as cores do kandinsky (outra vez).

16 setembro, 2010

Academia de Verão











há imagens que valem muitas palavras, dias que valem vários meses, encontros que dão sentido a anos de desencontros. os últimos dias de férias foram afinal os primeiros. os primeiros em paz e em esperança. os que trouxeram mais respostas e novas perguntas. e sede, sede de mais. mais verdade, mais liberdade, mais coragem, mais conhecimento, mais integridade, mais transparência... parece às vezes que são demasiados desejos para uma pessoa só, mas a mim faz-me pensar: por que me deixo viver tanto tempo com menos, satisfeita com pouco, sem sonhar mais, sem procurar as respostas, (e as perguntas), alheia à minha própria sede... é estranho, não é?



09 setembro, 2010

Ser


a distância entre o que se pensa e o que se é,
a distância entre o que se faz e o que se pensa,
a distância entre o que se faz e o que se é,
são, a maior parte das vezes, muito maiores do que nós pensávamos...
são, a maior parte das vezes, muito maiores do que a raiz quadrada da soma do quadrado dos catetos.



Regressar


Os melhores dias de férias são, às vezes, aqueles em que se tem uma rotina fixa, intensa, como no tempo de aulas, mas a fazer alguma coisa completamente diferente, de preferência que se gosta e/ou se quer muito fazer. Conclusão: (quando se tem muito tempo de férias) os melhores dias de férias são aqueles em que se trabalha?


13 agosto, 2010

espaço


(um rumor longínquo)
a memória da distância,
memória do que não vi
como se fosse possível guardar em mim
uma memória do futuro
(de um futuro).


eu quero sair daqui para nenhum lugar
como quem caminha num quarto escuro
e se mistura na escuridão e se escurece
e ao ser habitada pelo espaço desaparece.


TED TALKS


"TED TALKS": Apresentações de 20 min sobre os mais diversos temas (tecnologia, ciência, entretenimento, educação, economia...) disponibilizadas gratuitamente on-line no site: www.ted.com

"IDEAS WORTH SPREADING!"
Ideias que inspiram, que desafiam, ideias para todos os gostos e feitios, ideias bizarras (porque segundo dizem são as únicas que valem a pena) ideias geniais... vale a pena vasculhar o site. com certeza encontrarão uma apresentação que vos agrade (ou desagrade), que vos surpreenda, que vos inspire, que vos faça rir... Ideias não ocupam espaço, mas podem contagiar. Se têm medo de ser contagiados é melhor evitarem o site... mas eu continuo a pensar: Um local onde se partilham ideias?!? ora aí está uma ideia genial!

UM EXEMPLO:

Esta apresentação, para além de ser feita por um orador verdadeiramente cativante, é sobre educação: um tema tão banal (porque usual, sempre presente e sempre discutido) como relevante (porque determina o nosso desenvolvimento individual e colectivo). De uma forma divertida e despretensiosa Ken Robinson coloca questões pertinentes... daquelas que fazem pensar e que podem despertar outras questões e novas ideias... queiramos ou não é uma área em que estamos todos envolvidos... somos todos fruto de uma certa educação e acabamos, mais tarde ou mais cedo, de uma maneira ou de outra, por estar envolvidos na educação de outros... estará realmente a educação a matar a criatividade? o que aprendemos e o que desaprendemos? o que mudar e como mudar para melhor?

23 julho, 2010

definição


revelar - associação das acções rever e dar, reavaliar e expor, ou expor e depois rever, segundo a ordem que se quiser. Mostrar o até então escondido, secreto, invisível, explicar o oculto, misterioso, indecifrável. Elucidar ou elucidar-se, dar ou dar-se.


revelação - acção que se revela, mostra, expõe... pode ser uma acção muito parada (como uma imagem)... ou até uma inacção (como uma ausência)... o que importa é que o acto de exposição se explique a si próprio.


revelação


(era) segredo


eu que nunca sei dizer o que sinto (mais depressa fujo, mais depressa minto) e detesto que me vejam chorar (mais depressa coro, mais depressa finjo ter um cisco no olho ou uma alergia ao oxigénio do ar) comovo-me em segredo, por tudo e por nada, a toda a hora, em qualquer lugar.


(e ainda é)


19 julho, 2010

B Fachada - O Desamor


e por falar em canções (mas agora canções a sério) aqui fica o B-Fachada, despretensioso e arejado, tradicional e inovador, descontraído e corrosivo... Para quem não conhece vale a pena parar e escutar, nem que seja para não gostar... parece-me que já não encontrava letras assim desde o Sérgio Godinho, ou desde o Manel Cruz.

Já agora, o novo disco "Há festa na moradia" está disponível para download gratuito em www.mbarimusica.com/. Música para agitar depois de usar, para agitar o corpo, para agitar ideias, para arejar o coração. Disco para embalar as férias e o Verão.




canção sem música


eu gosto é de ilusões:
a realidade é um balde de água fria
que me acorda às quatro e meia, cinco e pico, seis e dia
com mais fome e menos fé.

enquanto o tempo se entre-tem, se entre-tece
e o silêncio me des-ilude, me entorpece,
vou ver se escrevo, vou ver se calo,
vou ver se esquece.

(porque eu não esqueço, eu não esqueço
eu só peco, faço, parto, volto errante,
fico só e só tropeço, corto horas e distâncias
com a finita (im)precisão de um talhante)

e afinal a longa espera é sempre em vão
e as palavras que eu te gasto
são só a minha maneira
de iludir a solidão.


13 julho, 2010

Jordi Savall - yo me enamore de un ayre


Para quem não o conhece aqui fica Jordi Savall (com El Maloumi e Pedro Estevan, entre outros companheiros de viagem).

Instruções: fechar os olhos e usar a imaginação... (a música é um dos melhores meios de transporte para viajar).


Viajar...


em tempos de crise passam-se as férias em casa... mas há viagens que se podem fazer sem sair do lugar. um bom livro pode levar-nos a qualquer lugar... seja ele um livro de viagens, um romance, um livro de ficção científica ou um policial. um bom concerto pode fazer-nos viajar no espaço e no tempo, por terras estranhas, por praças e desertos, por cores e sabores até então desconhecidos, do oriente ao ocidente, das águas gélidas do norte aos quentes ritmos africanos...
e tudo isto por muito pouco dinheiro: nas bibliotecas municipais requisitam-se livros de graça; no verão há festivais de música para todos os gostos a preços para todos os bolsos.
(e se não quisermos mesmo "sair do lugar" podemos sempre viajar... na internet.)

na minha última viagem fui de Marrocos à Turquia, da Galiza à Alexandria, uma viagem no tempo e no espaço conduzida por Jordi Savall, Driss El Maloumi, Pedro Estevan e Dimitris Psonis. Para quem não esteve lá, mas gostaria de ter estado, basta esperar pela próxima visita de Jordi Savall (desta vez com os Hespèrion XXI) à Casa da Música no dia 6 de Novembro.

10 julho, 2010

Hoje


Hoje começa o Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim com nada mais nada menos do que Jordi Savall (e companhia) num concerto de Músicas antigas e Músicas do mundo que promete ser um encontro entre Oriente e Ocidente, porque na diversidade está a nossa maior riqueza e a música é sempre um meio privilegiado para o diálogo entre os povos.

O concerto de hoje está esgotado... (e eu vou estar lá :-) mas vale a pena estarem atentos ao programa e passarem por lá para ouvir boa música a preços reduzidos depois de uma boa tarde de praia (de preferência num dia em que não esteja vento e nevoeiro como) e de um banho no mar (se tiverem coragem de enfrentar a temperatura do mar da Póvoa...)



06 julho, 2010

Pérolas aos Poucos - Zé Miguel Wisnik


Hoje faço 28 anos. O ano passou por mim a correr, com a intensidade dos anos de mudança: mudança de direcção, sabor de coisas novas, mas familiares cá dentro, como aquelas pessoas que encontramos e parece que conhecemos há muito, ou aquelas que raramente vemos, mas parece que nunca saíram de perto de nós.
as escolhas são difíceis, porque abrem umas portas, mas fecham outras e nunca temos certezas absolutas. só podemos avaliá-las pelos frutos, pela luz nova que trazem à vida, pela felicidade que nos dão apesar do cansaço e das dificuldades, pela paz interior que sentimos apesar do futuro ser tão incerto como sempre foi...
os aniversários são geralmente dias em que as pessoas nos oferecem coisas (espero que poucas, porque já tenho tudo o que preciso), mas dei por mim a pensar no que terei eu oferecido às pessoas ao longo deste ano, se estive atenta ao que as pessoas precisavam de mim, se estive presente na vida das pessoas que hoje se lembraram de mim ou se andei demasiado ocupada com as minhas coisas.
que presente é que damos aos outros todos dias? não falo dos presentes embrulhados com laço e tudo, mas do dia de hoje, do tempo presente, da presença que temos no tempo presente das pessoas, do espaço-tempo que ocupamos, roubamos, oferecemos e de como o fazemos.
lembrei-me de uma canção que descobri há pouco tempo e que gosto muito: "Pérolas aos poucos". Será que damos sempre pérolas aos outros, ou seja, sempre o melhor de nós? Será que sentimos que as pérolas que damos se perdem? Eu acho que aquilo que dou é sempre muito pouco, vem do pouco que eu sou, mas acredito que nada daquilo que se dá, nada daquilo que se partilha se perde. só se perdem as pérolas que guardamos para nós e não são úteis a ninguém.






05 julho, 2010

o encontro

quando nos aproximámos ficamos mais vulneráveis. subitamente o que outro diz ou faz pode ferir-nos em lugares até ali intocáveis. e pode até fazê-lo sem intenção, mas a dor não é menor por isso. por outro lado, se nos fecharmos para evitar a dor evitámos também todas as alegrias e surpresas do encontro. toda a luz e toda a sombra. tudo o que de bom e mau se aprende sobre os outros e sobre nós. evitar sentir é evitar viver. evitar viver é evitar ser. somos aquilo que somos com os outros. somos aquilo que somos sem os outros. somos aquilo que somos para os outros. somos aquilo que os outros são em nós. não podemos evitá-los sem nos evitarmos a nós mesmos. como explicam Daniel Faria e Rainer Maria Rilke para se ser grande há que ser frágil (quando digo grande entenda-se inteiro, íntegro, verdadeiro, belo).


A tua pequenez é enorme.
Nada te pode vencer.
Não recuses nenhum dos teus limites, só eles dizem a grandeza do que tens.

Daniel Faria



Entrega sempre a tua beleza
sem cálculo, sem palavras.
Calas-te. E ela diz por ti: eu sou.
E com mil sentidos chega,
chega finalmente a cada um.

Rainer Maria Rilke,
in “O Livro das Imagens"


29 junho, 2010

"Eu sou o amor"



um filme que é um lugar fora do tempo. um espaço que se abre sobre o silêncio. também (mas não só) porque a banda sonora e o silêncio se conjugam na perfeição, como raramente se vê. raramente se vê o silêncio tão bem filmado.
Tilda Swinton é espantosa na contensão, no espanto, no abandono de certos gestos, e é impossível não respirar a sua personagem na sua viagem caleidoscópica, viagem interior vista de fora para dentro e de dentro para fora.
todo o filme vive desse estado de contensão-explosão permanente, que atravessa a personagem da realidade aos sonhos, da rotina à acção. filme em câmara lenta prestes a ruir, como se a beleza não pudesse existir mais do que alguns instantes, a cor sobre o branco, a luz sobre a pele, a ordem sobre o caos, o silêncio, o silêncio, o silêncio. no fim o silêncio.




imagem retirada daqui