13 novembro, 2008

o sinal


gosto das cores do outono. apetece-me sair de casa de máquina em punho e fotografar as árvores do caminho, uma a uma, como quem recorta o instante suspenso de uma folha prestes a cair e cola essa imagem na retina e na memória até outro tempo e outra luz a apagar. gosto das cores e dos cheiros da terra, e da geada anunciando a branco um inverno próximo. gosto do ar muito frio na cara, das iluminações de natal rasgando a noite, do fumo e do sabor das castanhas assadas na rua... porque sinto em todas as coisas a esperança tangível de um amor anunciado.



imagem daqui


07 novembro, 2008

silencio


podia dizer-te com palavras
coisas normais dos dias e das pedras,
coisas do andar e do fazer.
podia dizer-te com palavras
coisas simples e claras,
coisas do sentir e do ser.
mas não direi nada
que não saibas já,
por isso calo todas as palavras
e procuro dentro de mim a tua voz.

24 outubro, 2008

Joni Mitchell - California (BBC)


a paz não é só um sonho. daqui não conseguirei, talvez, lutar pela paz do outro lado do mundo, mas vale a pena perceber se onde estou construo paz ou causo discórdia e desunião. onde me sinto em paz? como transmitir paz? ser quem se é dá paz interior, aceitar os outros como são deve dar-lhes paz a eles... digo eu... será?

Provérbio chinês




"Para que possas beber vinho num copo que está cheio de chá,
é necessário primeiro tirar o chá. Só então poderás servir e beber o vinho."



fotografia de Ernest von Rosen, www.amgmedia.com

do fazer, do estar e do sonhar


Penso muitas vezes e repito-o para mim própria: não há tarefas menores. Depois na prática nem sempre me lembro disso. Hoje volto a esta ideia, com mais vontade ainda de a pôr em prática. Se a cada pequena tarefa, se em cada pessoa que encontro colocar toda a minha dedicação, cada encontro e cada tarefa ganha um novo sentido. Eu realizo-me mais porque estou presente naquilo que estou a fazer, sou mais feliz e faço mais felizes os outros. Não quero com isto dizer que devo viver prisioneira do presente. Posso estar dedicada ao presente e elevar os olhos para o futuro, com esperança, com confiança, posso e devo sonhar mais alto e melhor. Aliás se viver bem o presente, com as suas dificuldades e sofrimentos, com as suas alegrias e oportunidades, se levar a vida a sério e lhe procurar sentido, vou com certeza sonhar melhor.

11 outubro, 2008

a cada coisa o seu tempo


Hoje é Dia Mundial dos Cuidados Paliativos, por isso recomendo:

- uma visita ao site da Associação Portuguesa dos Cuidados Paliativos:

http://www.apcp.com.pt/

- a crónica de ontem da Laurinda Alves:

http://laurindaalves.blogs.sapo.pt/143383.html

- e já agora uma pequena entrevista da Laurinda Alves ao Dr. Daniel Serrão:

http://videos.sapo.pt/ZiDcVPzBqoAmulonel2G

A informação e a consciencialização são essenciais para que cada vez mais se reivindiquem direitos essenciais de doentes, famílias e até de profissionais de saúde. É preciso que a morte seja integrada com naturalidade na vida, que se respeite o tempo de morrer porque para morrer também é preciso tempo. E durante esse tempo há muito para fazer, muito para aprender, muito para viver.

08 outubro, 2008

do tempo que demoro chegar a casa


nessas horas em que me sobram palavras
não te digo nenhuma,
antes cerro os dentes,
sustenho a respiração
e fico ali imóvel
perante o desenrolar invisível
desse fio, desse rio, desse mar de
palavras infindáveis e mudas
que não te direi.
fico ali como fonte inesgotável,
guardando a água para o lado de dentro
(até me constipar de desesperança):
não há palavras que me sirvam,
não há palavras que nos sirvam.
nada do que eu penso me pode explicar,
nada do que eu sinto te pode salvar,
onde eu sou tu já não estás,
onde tu és eu nunca estou.
às vezes porém,
regresso a casa com esse travo na boca
do deserto e da sombra
que trazes nos teus passos...
(porque não pressinto em ti nenhuma luz)
regresso a casa e demoro a chegar,
demoro a recuperar dessa dor
que não te larga,
dessa resignação, dessas cinzas,
dessa morte que te habita antes do tempo,
regresso a casa e demoro a deixar-te.

tempos (de) outros

parece que não sou só eu que ando a pensar no tempo:


Ter o tempo na mão

sem tempo




parece que tenho tanto tempo livre no horário, mas não me sobra tempo nenhum, ando sempre atrasada, sempre a correr, continuo a não ter tempo para nada... estranho... ou é dos meus olhos, ou da minha falta de disciplina, ou... é o tempo que passa a correr... logo agora que estava a gostar tanto de ler:








imagem 1 daqui
imagem 2 dali

25 setembro, 2008

David Fonseca - Kiss Me, Oh Kiss Me


"So when the fight is over,
And the storm is through,
Now will you pick another?
What will you get into?

So you stand in the corner,
With those boxing gloves on you,
You’re old, scared and lonely,
Yeah we’ve all been there too…
We’ve been all there too…

Kiss me, oh kiss me,
If that can make it right.
Try me, find me,
Just throw them on me…
Those failed expectations…
Floods and afflictions you’re through.
Cause I just might, take them home with me."

(...)

04 setembro, 2008

os dias do bandido


chegou ontem...




um livro, dois cds, 79 faixas, 10 anos, um homem, muitos convidados... uma obra.
o que é uma obra pode dizer do seu autor?
muito depende do que o autor nos deixa ver...





neste livro, neste album, nesta obra, Manel Cruz deixa a porta entreaberta e cada um encontra uma obra diferente, talvez. para além das letras está a escrita, para além das músicas estão os instrumentos e os sons, e a gravação em si, e a mistura... como quem segue as pistas de uma história indecifrável, seguem-se as páginas e as faixas desta obra, numa odisseia de instantes e sabores e humores... no limite só nos é dado a ver aquilo que o autor nos deixa ver. no limite só nos é dado a ver aquilo que somos. para aqueles que se reconhecem, para aqueles que procuram, para aqueles que se perdem, para aqueles que viajam com a mesma angústia por estes dias, por estes tempos, por estes sonhos. para esses é esta porta familiar, para esses é esta obra um princípio da explicação das insónias habituais. ou uma tentativa de explicação. para esses estas palavras estão debaixo da língua à espera de serem ditas. para esses estas músicas estão debaixo da pele à espera de serem sentidas. para os outros não sei.
se alguém se atreve a fazer um objecto assim, inclassificável no conteúdo e na forma porque pessoal, e pessoal também na construção, no tempo que demorou, se alguém se atreve... gostem ou não gostem, há coragem e há verdade. as duas já são raras e juntas ainda mais. e também há talento, neste caso.




02 setembro, 2008

os últimos dias


aqui onde o tempo não passa
eu sou
esta sede de encontro e distância,
eu sou
a memória da esperança,
eu vou
voltar ao zero, ao princípio, ao silêncio,
apagando todas as marcas
que me deixaram na pele.
eu principio
e ninguém me procura as asas
(não sabem).
eu quero, ser
terra de ninguém.
esse instante suspenso numa gota de orvalho
antes de cair


MESA - Boca do mundo


...é esta a música destes dias sem direcção. outra vez no espaço invisível, indizível. estou no intervalo, no espaço entre... a arder os inevitáveis sentidos dos outros. é isto o presente.

"por fim, por fim
sinto a vida que passa,
na boca do mundo
não se sabe quem é quem"

22 agosto, 2008

coisas com luz



coisas com luz. há dias em que precisamos de coisas com luz. faz-nos falta. há dias em que o cansaço parece maior, ou a esperança parece menor, e precisamos de ser iluminados por algo ou por alguém para recuperar qualquer coisa que parece que perdemos e não sabemos bem o que é. às vezes basta rir. rir de uma parvoíce qualquer. e tudo fica mais leve.


Vou criar uma nota para casos futuros:
não dar tanta importância às coisas
às coisas?
às coisas em geral


imagem daqui

20 agosto, 2008

Primeiros dias num call center


segunda, dia 1 = dores de cabeça, dores de cabeça, dores de cabeça, que dia é hoje? quando é que são 23h, dores de cabeça... noite mal dormida, sem conseguir desligar o cérebro, sem conseguir parar...

terça, dia 2 = são 23h, log off. não correu tão mal... consegui ter apetite para jantar, consegui dormir, sem dores de cabeça

quarta, dia 3 = ?


imagem daqui



18 agosto, 2008

olhares


devemos olhar para as coisas com um olhar claro. quanto mais penso, falo, experimento, mais me convenço disso. um olhar claro significa, primeiro, ver a verdade, não cair na tentação de querer ver o que não está lá, nem fechar os olhos àquilo que nos incomoda. não ser displicente, nem ser indiferente. um olhar claro também quer dizer, trazer luz para, iluminar aquilo que se olha, ver o positivo, ver o construtivo, e quem sabe até sonhar mais, melhorar. há pessoas capazes disto. não é só uma qualidade. é um exercício diário, alcançável, com mais ou menos esforço. é transmissível também, na medida em que a forma como olhamos e como falamos das coisas transmitem luz ou sombra aos outros.
fico a perguntar-me: e eu, o que andarei a transmitir aos outros? mais luz ou mais sombra?

17 agosto, 2008

Pormenores


estou sem telemóvel. uma coisa que antes não fazia falta nenhuma e que hoje em dia parece quase impensável. sabe-me bem. estou incontactável 90% do tempo. quase ninguém tem o meu número de casa. se alguém me tentar ligar ou me mandar uma mensagem só saberei com algumas horas ou mesmo dias de atraso. eu própria só posso marcar encontros à moda antiga. sem confirmações, sem toques, sem mensagens. é nostálgico. sabe-me bem. sabe-me a férias, embora não esteja de férias. mas é nas férias que marcamos assim, encontros informais, com aqueles que encontramos no caminho, com horas para chegar, sem horas para terminar...

16 agosto, 2008

Nota

as duas músicas foram postadas há muito, mas só apareceram agora. por isso há aqui dois ontens e nenhum deles é ontem. o ontem do herbie hancock foi dia 3 de agosto. o ontem do mário laginha foi dia 9 de agosto. estiveram ambos no Palácio de Cristal, em dois lugares diferentes do jardim. dois concertos muito diferentes. gostei mais do segundo. menos barulho, menos gente, mais intimista. soube-me melhor.

Mário Laginha Trio - Tanto Espaço

tocaram esta música ontem nos jardins do Palácio de Cristal (entre outras)...
é bom ouvir jazz sentada na relva, sentindo na pele o ar frio da noite enquanto a lua descia no céu por entre as folhas das árvores.
ao ouvir esta música é preciso respirar nos tempos certos: dentro de nós há tanto espaço, (entre nós) há tanto espaço...

Herbie Hancock Feat Corinne Bailey Rae - River


uma das músicas que ouvi ontem. mas esta versão da Corinne faz-me parar. há algo de infantil no sussurrar e tanto de cuidado e de contido na forma como canta. um equilíbrio frágil. parece que se pode partir a qualquer instante (é preciso ouvir com a mesma delicadeza)

09 agosto, 2008

com vista para o céu





há viagens que têm que ser feitas. viagens inevitáveis. ao fundo de nós. ao fundo dos outros. onde nos perdemos, às vezes, por muito tempo, até já não sabermos bem quem somos nem como voltar. viagens que doem. e fazem crescer.
há viagens que tenho que fazer. sozinha muitas delas. aparentemente. muitas vezes até para mim pareço parada, parece que a vida é que passa por mim, mas estou em viagem, constantemente. hoje já nada em ti me pode deter, já nada em mim te pode perder. posso parar, quando puder dizer: a minha paz está dentro de mim, a minha casa está dentro de ti.


fotografia do jardim
1 de maio de 2008



04 agosto, 2008

tempo II


e porque tinha tempo não parei.
fui ao cinema:



O cavaleiro das trevas


um filme onde o vilão brilha mais do que o herói...
um brilho estranho é certo, o raiar da loucura e da violência gratuita,
sem leis, sem limites, pelo puro prazer do caos...
assustador portanto.
a reflectir dos outros o lado mais frágil,
a alimentar-lhes as dúvidas e as limitações...
somos capazes de viver os nossos princípios até às últimas consequências?


imagem retirada daqui


fui ao teatro:



Platónov


4h dentro de uma sala, mas não senti o tempo passar.
uma peça sem heróis, o retrato de uma sociedade decadente.
um homem no centro da história
que se deixa arrastar na sua própria pele,
preso nas suas teias e nas suas relações...
pela inacção vai-se corrompendo e vai corrompendo tudo e todos.
porque ser livre implica fazer opções, Platónov, o homem, não se liberta nunca,
nem liberta ninguém.


imagem retirada daqui


fui a um concerto:



Herbie Hancock e convidados


alguns dos convidados iluminaram mais que o anfitrião.
ouvir jazz no meio de uma multidão,
não é coisa que procure muito, aconteceu.
felizmente quando fecho os olhos
estou sozinha
estou só a ouvir com o corpo inteiro,
e ouvir é não pensar.


imagem retirada daqui


tempo I




depois de um ano a escrever a tese, as provas duraram 1h,30... parece curto. (há peças de teatro mais longas). correu bem (falta-me aprender francês para ser a donzela perfeita). desde então ainda não parei, mas no fim de semana reparei que o tempo é todo meu... estranhei, mas sou capaz de me habituar.


24 julho, 2008

duas noites seguidas a dois séculos de distância

Duas noites, dois lugares, dois compositores, dois séculos de distância, duas viagens completamente diferentes.

Na primeira noite, música sacra de Antonio Vivaldi (1678-1741) - Stabat mater, Nisi Dominus, entre outras - interpretada por um agrupamento instrumental e um contralto italianos. Uma voz invulgar a dar vida aos sentimentos e às cores que Vivaldi colocou nas suas composições virtuosas... há melodias tão claras e luminosas nas suas obras que soam certas e parecem fáceis. Sabe bem estar viva para poder ouvir coisas destas ao vivo e a cores. Até a dor parece que dói menos porque soa tão bem.

Na segunda noite chegou a inquietação através das obras de Olivier Messiaen (1908-1992), das quais destaco uma: Quatuor pour la fin dus temps. E o fim dos tempos de Messiaen é inquietante, desgastante e depois tempestuoso... como só a natureza pode ser. Mas também é silêncio e depois do silêncio desolação. Porque depois da tempestade de Messiaen vem a desolação de perceber que é uma tempestade de violência sem vida. A desolação de um planeta desabitado. Mas até num planeta desabitado nasce o sol ao som de um violoncelo. Até num planeta desabitado, na última noite do último dia, a lua se ergue no céu reflectindo a luz do último solo de um violino.

Curiosidades curiosas
Messiaen, compositor francês, organista, e ornitólogo compôs este Quatuor pour la fin dus temps enquanto esteve preso, para os quatro instrumentos disponíveis: piano, violoncelo, violino e clarinete e foi ainda na prisão que esta obra foi pela primeira vez interpretada por ele e outros prisioneiros para os guardas e restantes presos.
Messian sofria de uma forma moderada de synaesthesia
que se manifestava pela percepção de cores quando ouvia certas harmonias, particularmente as harmonias construídas a partir dos modos de transposição limitada (compilados por ele), e usava combinações dessas cores nas suas composições.


11 julho, 2008

III


quanto menos palavras me servirem
mais saberei que estou perto da verdade


II


cala-te.
ouve...
é este o lugar.
aqui na terra do poema,
aqui se cruzam todos os rios do meu passado,
aqui nascem todos os rios do meu futuro.
quem eu sou?
não interessa.
aqui sou silêncio.
aqui me curvo em reverência.


I


achas que falo contigo?
é silêncio apenas.
é silêncio apenas
tudo o que te digo.


10 julho, 2008

em vão


um dia alguém há-de encontrar esse corpo que é teu
que tu dizes que morreu
e que recusas procurar.
(que recusas reclamar.)


branco-luz


cala-te!
cala-te já
enquanto ainda há sentidos escondidos.
não acredito em nada do que dizes,
palavras vãs, sentimentos - pedras na garganta
- interrompidos.
não venhas agora. o tempo espera.
as coisas claras demoram a nascer,
mas quando chegam
destroem casas, derrubam muros,
inundam vidas com seu eterno amanhecer.


(sem título)


um dia,
quando chegares,
reconhecer-te-ei pelas mãos.
não que as tuas mãos tenham algo de especial.
para todos os outros são umas mãos perfeitamente normais.
ninguém sabe, senão eu, que as tuas mãos já são minhas,
ninguém as conhece como eu que sempre as conheci.
não vou sequer dizer que as tuas mãos encaixam nas minhas
porque as minhas são pequenas e as tuas grandes demais:
nas tuas mãos cabe o tempo, a terra, o meu corpo inteiro,
nas tuas mãos beberei da chuva a primeira água das manhãs.
um dia,
quando chegares,
não vais saber quem sou eu,
só as tuas mãos reclamarão aquilo que já é teu.
sono leve, rente à pele, quem me vem adormecer?
no dia em que me tocares, saberás porque nasci.


09 julho, 2008

Expectativas vs. realidade

ser o que se é, é algo suficientemente difícil. porque é que se exige que, além disso, as pessoas tenham que corresponder as expectativas de uma sociedade normalizada? porque é que não se pode estar triste? porque é que não se pode estar calado, por não ter nada para dizer? porque é que se tem que querer atingir um determinado estatuto, ou ter determinadas profissões? porque é que se deve desconfiar de tudo e todos e considerar a inocência ou a ingenuidade um defeito de carácter? porque é que se tem que ser magro? porque é que se tem que ser rico ou famoso ou estar na moda?
simultaneamente não consigo ver onde é que responder a todos estes estímulos e expectativas sociais torna as pessoas mais felizes. Será que me dou ao trabalho de perceber o que as pessoas são e sentem para além daquilo que aparentam? será que pergunto: tudo bem? e não como estás? E se pergunto como estás? fico tempo suficiente para ouvir a resposta verdadeira ou não tenho coragem porque corro o risco de ouvir o desabafo ou de me aproximar demais do outro, sentir a sua alegria e a sua dor? Será que aposto na qualidade das minhas relações? Será que dou tempo e espaço para me aproximar de alguém e para as pessoas se aproximarem? É difícil, dá trabalho, as pessoas são a maior parte das vezes, confusas, complicadas, não estão sempre bem-dispostas, não são sempre engraçadas... mas ter relações com profundidade não trará outra satisfação, mais disponibilidade de ambas as partes, menos preconceitos, mais aceitação do outro, mais compreensão, mais caridade, mais amor no fundo? porque só se ama quem se conhece.


02 julho, 2008

Radiohead - Idioteque

e com esta termino... entrando na órbita do cometa radiohead à velocidade alucinante de idioteque. definitely in the mood for radiohead.

Kings Of Convenience - Cayman Islands

o elogio das coisas claras, reduzidas ao essencial. as palavras quase sussurradas:

"if only they could see, if only they had been here
they would understand, how someone could have chosen
to go the length I've gone, to spend just one day riding
holding on to you, I never thought it would be this clear"

Miles Davis - Move - Birth of the Cool

esta não está completa... é uma amostra e quem quiser mais que vá procurar...
se o meu pensamento se pudesse ouvir sob a forma de música, às vezes soaria mais ou menos assim.

Astor Piazzolla y su Quinteto Tango Nuevo - Adios Nonino

esta dançaria se soubesse...

Bobby Mcferrin improvisation with Richard Bona

qualquer coisa completamente diferente...
sabe a terras distantes e a ventos quentes, fortes, lentos. sabe a florestas claras com um travo de sal.

portas e janelas II - inside my mind

à procura das minhas músicas preferidas encontrei algumas que já nem me lembrava, músicas que outros me mostraram e que agora também já são as minhas músicas, que fazem eco por dentro, que se dispersam e condensam pelas planícies e escarpas e rios interiores, que tem sabores e memórias e lugares dentro, que tem corpo e densidade e cor de tempos que é tão fácil trazer ao presente. basta ouvir.

01 julho, 2008

Vivaldi - Stabat mater (RV 621) - Andreas Scholl


à procura da perfeição...
parece fácil.

Nina Simone - Feeling good

Aqui como pano de fundo na promoção da 4.ª série de Sete Palmos de Terra. Tudo muito bom. Realmente aquelas laranjas estavam mesmo a pedi-las...

Rufus Wainwright - Beautiful Child - Live

portas e janelas de música


há muito tempo que a música me parece um bom caminho para perceber melhor as pessoas. muitas vezes e quase por instinto, quando me aproximo de alguém começo (ou acabo) a ouvir as músicas que essa pessoa mais gosta, como se essas músicas fossem portas ou janelas que essa pessoa me abre sem falar, até porque quando as pessoas falam, falam com as suas reservas, com as suas defesas, com a sua ironia, mesmo que estejam plenamente convencidas da verdade que estão a dizer. agora se me dizem esta música faz-me chorar, esta música faz-me rir, esta música faz-me dançar, sozinho no quarto onde ninguém vê, esta música foi feita para mim, é assim estar dentro de mim, isso é outra conversa. já não falamos de palavras, ou de filosofias, ou de verdades, falamos de beleza, de procura, de sentimentos. experimenta. deixa-te influenciar...



vou ilustrar o que disse com as minhas músicas preferidas.


21 junho, 2008

liberdade




ser gratuito nas relações é tão difícil... ser desinteressado, ou abnegado, dar sem esperar, nem exigir receber. é uma luta interior terrível às vezes. é um pequeno milagre quando acontece naturalmente e sem doer. é uma meta e são pequenas conquistas. é uma luta da qual vale a pena não desistir, porque um só momento de sucesso é imensamente compensador.

quanto serei eu capaz de dar de mim sem pedir nada em troca? há dias em que esta luta me dói até à alma (que é onde as coisas difíceis doem). há dias em que só desejar ser assim já é uma vitória. há dias em que só de tocar ao de leve nessa promessa de liberdade, e senti-la ganhar corpo, dá sentido a todos os fracassos, a todos os desânimos e faz desejar ir mais longe (ou ir mais fundo).







mais uma fotografia do jardim cá de casa


12 junho, 2008

Coldplay - Violet Hill

estão de volta...




parece que tiveram que desenterrar este novo album, sujaram-se (como se vê e como se ouve), arriscaram, e fica-lhes bem. não tiveram medo de se descolar da imagem que criaram. estive a ouvir o novo disco no myspace. recomendo. gostei de descobrir o vocalista num registo mais grave que o habitual (na música Yes, por exemplo). às vezes parece mais clara a influência dos radiohead (na música 42, por exemplo), mas de forma construtiva, como mais um passo para construir uma música dos coldplay; até porque a voz do chris tem identidade própria, tem luz própria. é uma agradável surpresa descobrir músicas que se desmultiplicam e mostram novas faces a cada virar de esquina, como se uma música fosse várias (como Cemeteries of London, 42, Yes e Death and all his friends). e o que dizer deste início de Lost: "just because I'm loosing doesn't mean I'm lost"? soa a desafio, soa a rebeldia, eu diria que define a intenção, mesmo que fosse para perder, este era o risco que tinham que correr...
Gosto bastante da cor que os instrumentos de corda trazem para Yes e Viva la vida. Mas Viva la vida é muito mais do que essa ambiência, é a afirmação de um risco que valeu a pena correrem, é a batida do coração nos novos coldplay, sintam-lhes a pulsação. A mesma pulsação que se ouve em Violet Hill. No fim não se vão embora sem respirar fundo ao som de Strawberry Swing que já está longe da terra de Violet Hill, já é outro lugar, ou talvez seja um caminho, um caminho para chegar a Death and all his friends. e não se pense que Death and all his friends soa a fim, não, soa a princípio: boa viagem!


01 junho, 2008

My blueberry nights


um filme de Wong Kar-Wai

















































































































qual é a distância entre duas pessoas? quanto tempo é a distância entre duas pessoas? quanto quanto tempo se demora a atravessar a perda? quanto tempo se demora a atravessar o tempo?

há muito tempo que não via um filme em que o tempo é uma das personagens. em que as coisas tem tempo para acontecer; em que as personagens tem tempo para falar e para calar, para perder e para se perderem; em que para encontrar não é preciso procurar é preciso desistir.

o que nos tira o sono? o que nos tira o chão? e quando isso acontece qual a distância que temos que percorrer? qual a largura desta estrada? quantos passos tem? quantos quilómetros? quantas pessoas? quanto tempo? o tempo entre estar e encontrar. pode ser um passo. pode ser um ano. pode não ser.





















If Love Were All - Rufus Wainwright

probabilidades


Era uma vez um homem extremamente organizado. Tudo nos seus dias acontecia segundo uma sequência estritamente planeada, a horas exactas e com durações precisas.
Esse homem tinha um amigo. O amigo era um homem muitíssimo desorganizado. Deixava-se sempre guiar pelo acaso, pelo inesperado. Era imprevisível, até para si próprio, o que iria fazer a seguir, ou onde iria estar.
Era para todos um mistério como é que estes dois homens se tinham encontrado. Era um mistério ainda maior como é que eles se continuavam a encontrar.
Se os encontros destes homens eram resultado da imponderabilidade de um, ou da constância do outro, (ou de uma terceira instância) ninguém sabia ao certo, mas, o facto, é que os encontros aconteciam, se repetiam, contrariando todas as probabilidades.


23 maio, 2008

I Know by Jude

just stop and listen

19 maio, 2008

eu que não tenho nome


E assim, de mim me sinto ausente,
por mais que te tente fechar janelas
à imaginação. escapa-se-me com a corrente
pelas frestas do corpo, recusa
a prisão domiciliária dos sentidos,
esvazia-se como se na distância estivesse mais perto
e na alteridade se encontrasse semelhante.
devo ter perdido algures o sentido do risco
que protege quem tem medo de se perder.
como alguém que perante o abismo
sentindo atracção e medo
se tenha traído numa hesitação,
um instante apenas, e ao regressar
tenha perdido e ao perder
tenha trazido
à flor dos lábios
o sabor prometido pela vertigem.

09 maio, 2008




You Are Best Described By...



Landscape With Butterflies

By Salvador Dali








Your Mind is Purple





Of all the mind types, yours is the most idealistic.

You tend to think wild, amazing thoughts. Your dreams and fantasies are intense.

Your thoughts are creative, inventive, and without boundaries.



You tend to spend a lot of time thinking of fictional people and places - or a very different life for yourself.





06 maio, 2008

Princípio




este tem sido um período de ausências.
ausência de pessoas, ausência de velhos hábitos, ausência de horários normais, ausência de saídas descontraídas e informais, ausência de conversas infindáveis, ausência de encontros, de desencontros, ausência de tarefas manuais. hoje caminhar ou limpar a casa tornaram-se tarefas oasis. um prazer para as mãos e um alívio para a mente. hoje saio ao fim da tarde para fotografar flores do jardim e dou-me conta das diferenças de um dia para o outro. a vida não pára. se do lado de cá a vida parece estar imóvel há meses numa secretária com um computador ao centro rodeado de papeis, do lado de lá da porta, a vida não pára, as flores crescem e murcham a uma velocidade alucinante e assim os outros e assim eu própria, assim as minhas células nascem e morrem diante dos meus olhos. quando finalmente me disserem: podes sair acho que nem me vou mexer. ficar a ouvir o ruído do mundo e não responder e nem mexer um músculo, não fazer nada. ou então dormir: esperar pelo fim de todos os sonhos que não tenho sonhado para acordar. e como durante o sono o não há tempo vou acordar no instante seguinte, levantar-me ligar o computador, esperar pelo meu habitat natural, digo, pelo meu ambiente de trabalho, abrir as pastas sucessivamente: documentos, fac, mestrado, tese, cap9-conclusão e perceber que já acabei e que não tenho nada a fazer ali, nem em lugar nenhum, nem nesse dia, nem no outro, porque todos os dias estarão em branco, indefinidos, informes, selvagens, prontos a ferir-me até ao osso com a sua beleza de marfim intocável, com a sua abundância de horas livres e moles. dias de miragem e precipício. dias que me lançam do futuro o seu aroma de risco e vertigem. por eles sigo às cegas tacteando no escuro à procura da saída de emergência, da tecla on/off, da opção log out, da palavra FIM no fim da página.






FIM






(fotografia tirada no jardim cá de casa no dia 1 de maio de 2008)


07 fevereiro, 2008

Welcome to my mind



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tradução: não disponível


20 dezembro, 2007

Do you feel loved?





há quem diga que sentir-se amado é mais determinante do que amar...






É isso o Natal











a imagem de um amor incondicional



10 dezembro, 2007

ainda não estou aqui


ervil adeuq me ounitnoc
...uotse edno meb ies oãn àj sezev sá
oãhc oa ogehc siam acnun


rarap
rarap sanepa essedup
rimrod


opmet o rarap
ãhnama raçemocer
ritsixe oãn ejoh
ãhnama
sosso son oçasnac etse mes ãhnhama


iuqa uotse oãn adnia
ue uos oãn atse
oxelfer uem o sanepa è
ojev ue meuq è
.ohlepse oa ojev em odnauq






21 novembro, 2007

não estou aqui




estou longe


estou ausente


estou em trânsito


estou em orbita


estou sem tempo

estou a prumo



estou em queda rumo às propriedades dos filmes de polielectrólitos, os ajustes dos espectros de impedância electroquímica e o modelo dos caminhos preferênciais... resumindo:









imagem retirada daqui


08 novembro, 2007

o mar

a música é uma arte particular... entranha-se na pele, afunda-se na memória e quando volta traz com ela a luz dos dias que passaram, a força dos sentimentos adormecidos. entre o presente e a memória, que realidades não inventamos, suspensas na imaginação e na lenta respiração dos dias que já não são. às vezes será talvez capaz de despertar em nós desejos tão profundos que não nos atrevemos a formular, mas estão lá, latentes em cada passo, em cada batimento cardíado, em cada segundo de vida desperdiçado a fazer menos do que aquilo que nos faria realmente felizes. é um mistério... tanto a forma como estes desejos acordam em nós, como a relutância que temos em procurar o verdadeiro sentido, em responder ao verdadeiro desejo que clama por nós do fundo de nós, do fundo dos outros, de uma música, ou da música do silêncio. quem fala em mim que eu não quis ouvir? quem fala em mim que não quero calar? quem me fala de ti no fundo de mim? quem me abre janelas no olhar para o fundo do mar? abre os sentidos para o amanhecer, não te deixes adormecer esta noite e vem comigo, vou mostrar-te o mar...




"foi por ti
que um dia eu fui p'ra além da praia,
descobri em ti
um mar que eu nem sabia haver"




e por falar em música, não me podia esquecer de recomendar o musical que estamos a preparar há tanto tempo e que vai estrear no dia 19 de novembro (2.ª récita no dia 25). é assim, demora muito a preparar e depois passa num instante. intitula-se Pirilampo e os deveres da escola. tragam os mais novos que vão gostar, e venham sonhar connosco ao som da música do João Loio.

mais informações aqui.




24 outubro, 2007

memórias de uma noite XP



há noites que são dias...
que acordam em nós
sonhos antigos, novos desejos,
o rumor longínquo do mar...
quem me conhece não me sabe mais,
porque nasci do silêncio
para o sol nascente.
há noites que acordam alvoradas dentro do peito
e lançam uma nova luz
sobre o mundo.
fazem ver mais claro,
ver com olhos de quem ama.
e só o amor transforma,
só o amor faz crescer de dentro para fora.
o mundo inteiro não chega,
rasgo horizontes de medo e insegurança
sigo a voz que me chama,
quero ser mais livre,
arrisco a certeza pela confiança
arrisco cair para poder voar.



13 outubro, 2007

límites




quantas vezes serei capaz de repetir? quantas vezes serei capaz de me humilhar? quanto tempo serei capaz de resistir? quantas vezes serei capaz de insistir? quantas vezes serei capaz de perdoar? quantas vezes serei capaz de perguntar? quanto tempo serei capaz de procurar? quantas vezes serei capaz de me calar? quantas vezes serei capaz de superar? quantas vezes serei capaz de voltar? quantas vezes serei capaz de partir?...


límites...


quais são os meus? quais serão os dos outros? haverá alguma outra forma de o saber para além desse testar contínuo, dia após dia, de vaga contra as rochas, de terra contra o vento? haverá outra forma que não a erosão contínua? haverá outra opção que não a de proteger esse frágil equilíbrio entre os meus límites e os de todos os outros?





imagem retirada daqui





01 outubro, 2007

o murmúrio insondável das ondas


sigo à deriva…
tantas vezes sem sentido,
sem direcção,
outras tantas sem leme,
sem lastro, ou sem razão.
sigo do vento o sabor,
o corpo de vela a prumo,
inerte, o espírito amiúde ausente…
ninguém me roube a viagem,
ninguém me domine o sentir,
ninguém me devolva à paisagem
de onde me viram partir.
quero ser outra, ser longe,
quero rasgar-me na ida…
não me esperem na partida,
se a viagem é a minha vida:
a meta pode ser indefinida,
mas à partida não vou voltar.


27 setembro, 2007

outra vez o tempo



a tua ausência em mim é já muito grande...

engoliu o muito que tinha para te dizer e encheu-me de silêncio.




fotografia daqui

10 setembro, 2007

passo a passo




o tempo atravessa-nos, passo a passo, com pezinhos de lã, escreve-nos histórias na alma devagar com letra cuidada e tinta invisível, a não ser, talvez, as vezes no olhar e no coração... onde usa uma ou outra sombra de diferentes cores e intensidades. será que mudamos muito? será que somos, no fundo, sempre iguais?
o tempo passa para nos levar ou para nos unir, mas não deixa de ser um mistério, a forma como uns ficam e outros partem.
não deixa de ser um mistério que 7 anos depois as mesmas pessoas se encontrem e se sintam realmente em casa... porque a casa não é só o lugar físico onde moramos (até porque muitos destes lugares não sabem a casa), mas uma forma de estar, uma forma de estar mais fiel e mais autêntica, uma forma de estar mais próxima daquilo que realmente somos.
será que isto acontece porque estamos todos mais velhos e despreocupados com as aparências? será que acontece porque fomos crescendo juntos e encaixando as semelhanças e as diferenças de todos e de cada um? será que acontece porque de repente percebemos que o tempo passou e procuramos o que ficou de essencial e importante?
talvez as perguntas sejam pura retórica, sejam só a manifestação da surpresa feliz de um presente onde o tempo não construiu barreiras entre nós ao abrigo das distâncias.
nunca seremos capazes de um amor completamente desinteressado. não podemos negar que somos pelo menos um bocadinho egoistas quando desejamos e procuramos a felicidade dos amigos porque isso nos faz sentir muito felizes. Mesmo assim, o amor entre os amigos não deixa de ser um pequeno milagre! Se abraçado com liberdade pode ser um lugar onde somos casa e nos sentimos em casa.







fotografia do sítio do costume






28 agosto, 2007

Parar...



"Mon representa e significa uma porta. Se colocarmos debaixo da porta o signo do Sol, converte-se em Ma: espaço, umbral, margem, vão, vazio, intervalo, entre, pausa.
Chamamos cultura da pausa à tradição oriental de dar importância aos silêncios na conversação, às margens na pintura, aos vãos livres na arquitectura, ao não dito na mensagem e à receptividade na contemplação."



em A Sabedoria do Oriente - do sofrimento à felicidade
de Juan Masiá






Precisamos de pausas. vários tipos de pausas. pausas de instantes ao longo do dia, como que para respirar fundo e continuar. pausas de períodos curtos de tempo, para nos dedicarmos a algo diferente, um passatempo, uma actividade desportiva, um momento de leitura, ou até de contemplação num jardim, em frente ao mar, ou na varanda lá de casa, algumas vezes por semana, ou até, se possível, uma vez por dia. pausas de vários dias, ou algumas semanas, que normalmente designamos por férias, para sair da correria do dia a dia e descansar (embora nem sempre consigamos descomplicar de tão habituados que estamos já a estar sempre ocupados a fazer alguma coisa). pausas ao longo da vida, momentos de paragem antes de uma decisão importante. esse espaço entre. espaço de silêncio e de decisões. espaço depois de e antes de. importa dar valor a esse tempo. esse momento presente, com mais ou menos angústia, com mais ou menos duração, com mais ou menos peso na nossa vida futura. muitas vezes nem temos consciência da importância e das consequências de uma decisão. mas é hoje que ela se constrói e nos transforma.
todas as pausas são importantes. preciso tanto de parar para decidir, como de parar para respirar. felizmente nestas férias consegui um pouco das duas.
é importante parar... nem que seja...






... à velocidade da luz







fotografia do sítio do costume




09 agosto, 2007

Orgulho







É bom termos consciência do nosso valor pessoal, e todos o temos, independentemente dos dons e dos defeitos que nos calharam em sorte, da função que desempenhamos, ou das circunstâncias em que nos encontramos. Essa consciência é a âncora necessária para não andarmos ao sabor da maré e a nosso estado de espírito não depender das opiniões dos outros sobre nós (embora não possamos viver sem as opiniões dos outros, e algumas delas nos devam merecer grande atenção, pois iluminam cantos que a nossa auto-correcção não vê).

É bom sermos capazes de reconhecer as nossas fraquezas (torna-nos capazes de assumir as nossas culpas e também de perdoarmos as dos outros) sem cairmos na tentação da falsa humildade e da auto-condescendência.

E aqui entra em campo uma personagem que se chama orgulho que pode confundir um bocado as coisas. Pode levar-nos a considerar que ter consciência do nosso valor pessoal é estarmos acima das críticas, que qualquer crítica é um ataque pessoal e uma tentativa de nos retirar o lugar ou o respeito a que temos direito. O orgulho alimenta aquela postura do: dar-se sem se rebaixar, na qual podem cair ambos: os que se merecem muito respeito, e os que apesar de mostrarem aparência humilde na verdade se sentem silenciosamente injustiçados por não lhes ser reconhecido o seu devido valor.


É preciso encontrar portanto uma referência para lidar com estas interacções tão complexas... e a mim parece-me que a melhor referência é a verdade. Ou seja, é bom sermos firmes. E é bom sermos frágeis. É bom sabermos o nosso valor. E é bom não lhe darmos demasiada importância.
A diferença entre escolher o orgulho ou a verdade é como a diferença entre fazer benzinho e fazer o melhor. Importa não ceder nos princípios, mas ceder às pessoas; não sermos coitadinhos, mas sermos capazes de sacrificar um posição segura, para poder chegar mais perto. Ninguém ama sem descer. Só quando a posição relativa que ocupamos em relação ao outro deixar de ser mais importante que o outro é que o nosso valor será realmente inabalável, porque já não teremos medo de o perder.


aceitar perder para ficar a ganhar...
dá que pensar, não dá?






imagem encontrada aqui



08 agosto, 2007

pequenas coisas, grandes esperanças


as atitudes de alguém próximo podem ser, às vezes, quase incompreensíveis, e não haver palavras, ou esforços que clarifiquem a situação, nem tentativas de diálogo que não resultem frustradas. geralmente a dimensão do problema tende a ser tão pequena que torna a situação em si ainda mais cansativa. só o não diálogo pode ser a causa do aumento da esperança de vida das coisas pequenas.

é para mim penoso, sentir o tempo passar sem que a verdade das coisas nos ilumine. é me difícil aceitar que algo que me pareça claro, resulte tão difícil de esclarecer. às vezes desejos subreptícios de invasão invadem-me: vou lá bater a tua porta até que abras e discutas comigo, ou vou ligar até me atenderes, mas a razão diz-me que devemos respeitar os tempos dos outros, e por isso não reclamo, não discuto, não invado... mostro-me apenas disponível, e espero... ainda que o tempo pareça demorar a passar, ainda que o tempo pareça esgotar-se a cada dia que passa, ainda que não consiga não pensar, ainda que não consiga não sofrer.

não cedo à resignação, mas à esperança. a esperança é a qualidade dos que esperam desejando o bem. a esperança tem na paciência uma aliada e firma as suas raízes na disponibilidade para aceitar. a esperança habita o coração daqueles que se deixam encontrar e torna o difícil mais fácil de suportar.























imagem retirada daqui




07 agosto, 2007

Intentions


we all have good and evil inside,
that doesn't make us good or bad persons though,
it's the choices we make,
the risks we take,
the part we choose to act upon
that defines who we are.
it seems simple,
but simple it is not.
we can still hurt trying to do some good,
we can still help although our intentions were bad:
this equation has too many variables,
and can evolve in unpredictable ways.
we can only try to get it right,
certain that we're going to fail too many times along the way...
we'll just have to keep trying...
keep trying, and failing, and guessing, and wishing,
and dreaming, and loving, and hurting...
keep trying, though hurt, though tired, though weak,
keep trying.


19 julho, 2007

Elisa - Eppure Sentire (Un Senso di Te)

porquê?...
... porque sim.

notas em contratempo

tantos dias sem escrever que chego a duvidar... saberei ainda juntar letra a letra o meu pensar? saberei ainda, que porta rima com horta e não com pomar? saberei ainda dizer-te, mesmo que agora já não queira dizer-te nada, queira apenas ficar calada sobre as cinzas do que podiamos ter sido, alguma coisa? qualquer coisa... porque o assunto nunca foi muito importante.

tento vislumbrar, em vão, um sentido, uma lógica nos acontecimentos, uma razão para os encontros e para os desencontros, e para as coincidências, mas cada vez mais tudo me parece caótico, quase brutal, todas as caras, todas as vozes, toda a irracionalidade dos sentimentos, toda a irreversibilidade do tempo que já foi.

terei aprendido alguma coisa ao longo do tempo? ou continuo a cometer os mesmos erros repetidamente com diferentes pessoas? só eu a mesma, eu sempre a mesma, sem poder viver fora de mim registando as emoções e os resultados sem chegar a conclusões algumas, sem chegar a desvendar quaisquer sentidos... será este dia diferente de ontem? este encontro diferente dos anteriores? ou será tudo a repetição do mesmo dia, do mesmo encontro, infinitamente repetido até que a vida encontre sozinha o seu próprio fim? serão todos sempre o mesmo tu? um tu inventado por mim que não existe em ninguém, mas que insisto em encontrar a toda a hora, em todos os lugares, em corpos diferentes, com gestos diferentes, que destilo, recistalizo e purifico até reconhecer neles os traços essenciais da minha invenção, falaciosos, como sempre, previsivelmente...

será assim a loucura: encontrar os vestígios da nossa própria invenção? deixar de ver as linhas que separam a realidade da imaginação? tive contigo conversas que nunca aconteceram. encontrei-te inúmeras vezes sem que tu lá estivesses. disse-te ao ouvido segredos que nunca me ouviste. queres vir cá desenhar-me na pele a linha racional que define a realidade?

e podia realmente continuar a escrever-te, como se existisses e eu soubesse o teu nome e até me cruzasse contigo nos corredores, mas o tempo não parou desde que comecei a escrever, e ninguém pode deter o curso dos acontecimentos, ninguém pode parar esta máquina em movimento, que coordena a engrenagem dos dias que passam e nos afastam de nós. as memórias começam já a ser soterradas pela areia das horas. a tua voz soa-me cada vez mais distante e os nossos passos marcam segundos nos relógios de outras casas, outras ruas, outras vidas, em direcção a um longe maior que os meus braços e os meus esforços, maior até que minha vontade.

há muito que te ia deixando partir, só faltava mesmo dizer-te adeus.


28 junho, 2007

as árvores e os frutos


todos os dias decidimos coisas, pequenas coisas, se vamos pela esquerda ou pela direita, se almoçamos na cantina ou no bar, se convidamos um amigo para lanchar ou se nos deixamos conduzir pela inércia, se sorrimos à pessoa que nos atende ou se nos deixamos invadir pelo mau humor matinal...
mais de vez em quando decidimos coisas importantes, se escolhemos um curso, se mudamos de curso, se iniciamos uma relação, se mudamos de país, se mudamos de emprego, se mudamos de casa, se decidimos casar...
as primeiras podem ser mais ou menos instintivas, as segundas tendem a ser mais ponderadas... umas e outras afectam a nossa vida dali em diante de formas muito diferentes, de uma forma mais passageira ou mais definitiva, mas como saber se as decisões foram boas ou não...


dizia alguém sábio há muito tempo que as decisões se avaliam não pelos sentimentos momentâneos, mais superficiais, mas pelos frutos. assim, as boas decisões serão aquelas que nos abrirem o coração à vida e aos outros, que fizerem de nós melhores pessoas. podem ser decisões difíceis, que exigem superação, abnegação, talvez até sacrifício, mas trazem paz interior, e uma felicidade que às vezes não faz grande alarido, mas que nos atravessa, com a profundidade e a calma dos grandes rios. não deixamos nunca de sentir medo, mas abrem-se novas janelas dentro de nós. podemos não dizer nada, mas os outros sentem, na luz do olhar, na sensibilidade das palavras, na leveza dos pequenos gestos...


tudo está igual, mas tudo mudou...




















o verdadeiro amor não transforma só uma relação a dois, renova todas as nossas relações, porque não pode senão dar-se.






fotografia encontrada aqui


27 junho, 2007

mudar de vida

grande mudanças requerem geralmente grandes energias de activação:




A velocidade de uma reacção não depende da variação de energia entre reagentes e produtos, que até pode ser termodinamicamente favorável (quando os produtos tem menor energia que os reagentes...), mas da variação de energia entre os reagentes e o estado de transição de maior energia (ou seja o passo limitante da reacção). ao passo limitante corresponde portanto uma energia de activação... e é graças a ela que reacções termodinâmicamente espontâneas podem nunca ocorrer em tempo útil...

A grande maioria das reacções requer um catalisador para ocorrer...
eu diria que os processos de decisão não são muito diferentes de uma qualquer reacção química...
pois é, para mudar de vida também há muitas vezes um passo limitante com elevada energia de activação... que pode nunca ocorrer em tempo útil se não se encontrar o catalisador adequado...




imagem retirada d'aqui





Nota: o catalisador é uma espécie química que favorece a ocorrência da reacção por um outro caminho com menor energia de activação e portanto a maior velocidade.



26 junho, 2007

à espera de um reagente...


há quem espere por pessoas, por paz, por felicidade...
há quem espere que as coisas lhe aconteçam, de preferência só as boas, e não tenha coragem de arriscar fazer, de arriscar amar, de arriscar dar-se.
às vezes usamos como desculpa que nos falta um reagente: pode ser tempo, pode ser paciência ou vontade...
provavelmente o que falta mais vezes é liberdade. liberdade para sermos quem somos sem tentar sempre agradar, ser simplesmente. liberdade para deixarmos o outro ser e nao o tentarmos convencer a mudar, só porque seria tão mais fácil amar se o outro mudasse um bocadinho ali, um bocadinho acolá. liberdade para respeitar os tempos e os espaços do outro. liberdade para ceder, para perdoar, para compreender e aceitar.
é isso que quero desejar hoje. que sejamos todos um bocadinho mais livres.
e não estou a falar, claro, de liberdade para fazer o que nos apetece... que é mais... libertinagem.
o que desejo a todos é a conquista da liberdade interior.
e é uma conquista difícil parece-me... para demorar cerca de uma vida inteira.
















imagem daqui



22 junho, 2007

relativizar



rir, rir bem alto, rir se tropeço, ou se me apanho em flagrante a cometer o mesmo erro outra vez (como quando espero que os outros façam aquilo que eu gostaria que eles fizessem), rir das minhas falhas, e da minha falta de memória, rir na cara do desânimo que me quer fechar janelas no coração. rir da minha nuvem particular que chove só para mim quando estou triste. rir da irritação desproprositada e da cara altiva da teimosia e da tristeza exagerada...

rir, mas não ser leviana.
rir para relativizar certas coisas, mas estar atenta e não deixar passar valores e ideais para lado das coisas relativas, ou ficaria sem centro, sem nada a que me agarrar.
rir, mas não ser fútil, não desvalorizar o que é importante para os outros, não relativizar os seus valores, nem menosprezar as suas dores...
fronteiras tão ténues e tão fáceis de ultrapassar.






imagem encontrada aqui

18 junho, 2007

tempo


há dias em que parece que o tempo nos atropela
de tanto que corre desvairado em direcção ao futuro.
e passa, passa quase sem tocar, quase sem sentir,
só se ouve assim uma espécie de zumbido nos ouvidos,
ou é o vento que arrefece os sentidos...
ou então palavras apagadas pelas distâncias,
corações cerrados e mal-entendidos.

eu só quero silêncio.
não me façam perguntas
que não sei responder,
não me peçam razões
que não sei escrever.
eu só quero silêncio.
e parar
parar aqui um instante
enquanto tudo passa.
não quero sequer entender,
só respirar fundo e parar,
tudo o que dói e tudo o que ri,
tudo o que chega e tudo o que se parte,
cristalizar o momento numa fotografia interminável
e amanhã, talvez, recomeçar.



05 junho, 2007

nevoeiro




de manhã a sensação de que o dia já tinha começado há muito, talvez há muitas horas, talvez há muitos dias, como se as noites não existissem e o dia de hoje fosse o mesmo contínuo e interminável dia de todos os dias.





deve ser nevoeiro interno.







fotografia de Nuno Milheiro



04 junho, 2007

here comes the sun...

o sol está aí, se veio para ficar ou não... não sei, mas que importa?
sol é menos roupa, mais luz, mais optimismo,
mesmo sem esforço sentimo-nos melhor, mais leves...
é uma boa forma de começar a semana, com sol,
ao som da nina simone aqui




01 junho, 2007

+ Amigos do Gaspar

"há aqui um lapso inopinado na tabuleta"

Amigos do Gaspar

a recordar...

...bons tempos.