17 julho, 2006

Prescrever

gosto do som de certas palavras.
podia repeti-las até me desinteressarem os significados e mesmo assim, se as ouvisse, o som ser-me-ia provavelmente familiar. talvez porque o som demore mais tempo a partir do que a luz.
por outro lado há palavras que são imediatamente visuais...




e há ainda aquelas que me agradam quer pela cor quer pelo som. e aqui chegada já não sei, se gosto delas pela visão ou pela audição ou por ambos os sentidos, porque não consigo desligá-los (aos sentidos... e/ou desligá-los uns dos outros).


estilhaçar, estilhaçada, estilhaço
destroçado, despedaçado, estilhaçado
(grupos de palavras... será que as associo pelo significado?... se o não soubesse poderia associá-las pelas música das sílabas)


estilhaço, regaço, envelheço, reconheço, recomeço, estremeço, entre meço, entrelaço, entreteço, entristeço, ...
e podia continuar por aqui fora a cantar-te silenciosamente a música das palavras, sem que te apercebesses do sentido disso. e talvez seja esse o único sentido. não fazer sentido nenhum.



fotografia de Dale Hudjik aqui

(im)pele

a pele.
a tua.
a pele do teu pulso
onde ela é mais branca.
a pele nesse instante
em que sorris
e ela é mais clara:
a pele quando ela é luz.
a pele onde ela se dobra sobre si mesma
e faz sombra
como as vezes no teu olhar
(não, essa é uma sombra de cor diferente).
a pele deslizando sobre os teus ossos,
se te moves, devagar.
a tua pele que reage ao sol
e muda-se a si mesma.
eu mudo-me a mim só para con-dizer.
(talvez devesse deixar-me des-con-dizer)


















se vieres nao te esqueças
de me pintar os olhos com os teus dedos
para te ver melhor,
para além das máscaras que me escondes...
quero ver-te; a cor [(d)a pele] quando te perdes,
quando adormeces,
quando te despedes,
quando chegas,
quando negas,
quando acordas.
quando não dormes
ou só quando és
(quanto és de ti) em cada instante.




image by Paul M. Schenk, Lunar and Planetary Institute, Houston, TX
encontrada aqui

14 julho, 2006

em branco










.
..
a
importância
de ......... deixar
espaços .. em
branco
...









o
espaço
entre duas
gotas ..... que
caem ........... em
distintos instantes.
o espaço entre nós.
o silêncio na
música
...

















caí outra vez ............. para o espaço vazio ............. dos dias sem ti








............. e esqueci-me de voltar ...........







.

desabrigo

.






.




























.






hoje apetecia-me andar descalça, sentir terra,
encostar a cara ao tronco de uma árvore e ouvir
a profusa corrente das águas interiores.
hoje apetecia-me que viesses
e dançasses comigo
num país onde o silencio me calasse os dedos e as dúvidas.
hoje apetecia-me só que viesses e não dissesses nada
e te perdesses comigo.






.






fotografia encontrada aqui

13 julho, 2006

era o sorriso

era o sorriso
e nele a promessa indizível
de tudo o que havia por dizer,
nele o mundo inexplorado.
algures uma fonte no centro da tristeza
reflectia nuvens prateadas
que ficavam assim, suspensas no olhar,
ou no silêncio que afinal nos alcançaste.
mas eu não quis ouvir
e mergulhei.
sempre à espera de um mundo inteiro
que não veio
que não vem.
depois falamos:
o tempo sempre adiado.
agora já não sei se sinto algo para além desse instante.
encostei a face esquerda à parede franca e fria
e esperei a transferência de calor
(de sentimentos)
voltarei reconstruída,
imbuída de outras missões mais específicas e precisas,
calcular, passar, escrever, falar, ir, voltar, …
infinitamente repetíveis
sem ânsias de sentido.
então quando me disseres:
depois falamos
responderei,
ok.
(ko, ok, ko, ok, ko…)
e já nada haverá em mim que te reconheça
ou se lembre ainda de uma parede branca
(franca, branca, franca, branca…)
noutro tempo,
(noutra vida)
que talvez sinta falta
do que não se disse,
do que não disseste.

06 julho, 2006

num plano perpendicular ao chão


hoje faço anos...
hesitei.
entretanto apercebi-me que tenho muitas razões para festejar,
não necessariamente por fazer anos hoje,
mas por hoje ser o unico dia que posso festejar,
este dia, este momento, este agora,
com as pessoas que me partilham comigo estes dias,
estes momentos, estes agoras...
fazer memória...
sorrir face às contrariedades e continuar
e deixar de perguntar se os meus passos me levam na tua direcção
e continuar.
talvez às vezes partilhar um instante,
uma visão.
a lua está no céu já,
mas eu trago cinco penduradas ao pescoço,
uma por cada fase
e outra completamente desfasada
voar não é um momento de felicidade,
um copo de café instantaneo
instantaneamente pronto por agitação
é saber que a felicidade já cá está.
o caminho é o caminhar.
aprender a voar é também voar,
um voo rente ao chão
as asas feitas de pó,
o chão feito ar
é já adivinhar tudo o que ainda não sei dizer,
tudo o que não sei ver,
tudo o que ainda não sei ser
acreditando que o posso ser a partir daqui.
ou bastará talvez ser simplesmente aquilo que sou.
deixar crescer as asas
sem medo que mas descubram debaixo da almofada.
lançar âncoras às nuvens,
só as vezes acertar,
acordar de madrugada,
beber água-só das chuvas,
não desejar mais nada,
não desejar mais nada





com uma asa tocar o céu,
com a outra beijar o chão








fotografia de darren holmes aqui

05 julho, 2006

o que me perco à janela...


arrumo tudo, mas não varro nada,
só o pó se desarruma pelo chão, pelos passos, pelos quadros, pelos vasos,...
cada instante uma fotografia do que fica por viver:
flores de mim à janela.
a janela aberta ainda
ou eu com preguiça de a fechar.
espero que chova o céu por mim.
ou que o vento leve as flores
(ou da flor da pele as dores)...
abandono ao ar tudo o que se gasta
e espero até se ver
os ossos e as cinzas do que não me esqueci de dizer:
memórias esquecidas do que me viste arder.

cada dia um novo fim para as histórias de sempre.
cada dia um novo renascer:
infinitas possibilidades de mudar de sentido,
de esquecer o nunca vivido e partir,
ou de infinitas vezes recomeçar...
no fundo do vaso resta o reflexo
do que não te ouvi sorrir,
do que não me viste voar.
visto a noite pelo lado errado
e vou errando pelos dias fora
até me re-encontrar.
construo castelos nas nuvens,
naturalmente,
(como quem cultiva ervas daninhas:
deixando nascer tudo o que vier,
o trigo, o joio, borboletas, andorinhas)
porque neles
a chuva chove rente ao chão,
as ameias rompem o azul onde o ar é mais puro,
e se fechar os olhos
e encostar ao ouvido as muralhas da imaginação,
posso ouvir aqui tão perto,
gargalhadas claras de água nas pedras.
do outro lado,
imenso,
o mar.








fotografia daqui

Fim

"Neste infinito fim que nos alcançou
guardo uma lágrima vinda do fundo
guardo um sorriso virado para o mundo
guardo um sonho que nunca chegou

Na minha casa de paredes caídas
penduro espelhos cor de prata
guardo reflexos do canto que mata
guardo uma arca de rimas perdidas

Na praia deserta dos dias que passam
Falo ao mar de coisas que vi
Falo ao mar do que conheci...

No mundo onde tudo parece estar certo
guardo os defeitos que me atam ao chão
guardo muralhas feitas de cartão
guardo um olhar que parecia tão perto

Para o país do esquecer o nunca nascido
levo a espada e a armadura de ferro
levo o escudo e o cavalo negro
levo-te a ti... levo-te a ti para sempre comigo...

Na praia deserta dos dias que passam
Falo ao mar de coisas que senti
Falo ao mar do que nunca perdi."


Toranja
hj respiro fundo
e deixo-me ser inspirada
pelo mundo
(como se o mundo me respirasse)
e pelos outros...
reaprendo a sorrir tudo
o que dói,
reaprendo a pensar tudo
o que foge.





















quero parar de correr,
ter tempo para encontrar.
ou perder...






imagem daqui

04 julho, 2006

Cerca de las vías

"Hay días que parece
que nunca se va a apagar el sol,
y otros son más tristes
que una despedida en la estación.

es igual que nuestra vida
que cuando todo va bien...
un día tuerces una esquina
y te tuerces tu también.

Esa telaraña
que cuelga en mi habitación
no la quito, no hace nada,
solo ocupa su rincón.

Yo he crecido cerca de las vías
y por eso sé,
que la tristeza y la alegría,
viajan en el mismo tren
¿Quieres ver el mundo?
Mira, esta debajo de tus pies.

Con el paso de los años
nada es como yo soñé.
Si no cierras bien los ojos,
muchas cosas no se ven.

No le tengo miedo al diablo
¿no ves que no puedo arder?
No hay mas fuego en el infierno
del que hay dentro de mi piel.

Todo lo malo y lo bueno
caben dentro de un papel.
¿Quieres ver el mundo?
Mira, está debajo de tus pies"

Fito y los Fitipaldis

03 julho, 2006

2046 é ...


Faye Wong
Tony Leung















Maggie Cheung













Gong Li
Zhang Ziyi


















Um filme de Wong Kar-Wai

29 junho, 2006

enquanto o tempo é neste lugar parado

ele disse:
"de nenhum fruto queiras só metade"
e acreditei.
rasguei ilusões e parti.
perdi o olhar no teu sorriso,
outra vez.
não disse adeus, nem corri.
arrumei tudo atrás de mim,
para não pensares que fugi.
cortei as linhas que me mantinham presa
ao desejo de ti e gritei,
mas tu não respondeste,
preso na inércia do que não sabes.
sempre fomos assim:
tu que não sabias o que querias,
eu que sabia, mas esquecia que sabia
para poder estar perto de ti.
agora nada me dói.
nada acontece.
o tempo tão lento de repente
que as coisas não caem
ficam paradas no ar.
o vento sentado a acumular frio
e a jogar cartas com um baralho muito velho
onde já não se distinguem as caras,
porque ninguém vai perder ou ganhar.
talvez um dia destes passes por mim
e não me reconheças,
talvez nunca tenhas re-conhecido
e vice-versas
(foi só pra rimar
que a vida cá fora já rima tão pouco
com o interior...)
parei os livros que estava a ler
e não consigo ouvir as mesmas músicas,
mas a tua concha continua ali, presa
no cimento, no silêncio (tão longe do mar).
faço muito barulho ao passar
para lhe calar o olhar.
não me censura ela,
nem tu, que só sabes calar.
encostei a tua mão ao coração
e disparei,
a bala atravessou-me e partiu.
também ela não quis ficar.
morri.
e assim abri caminho para o frio me habitar
pelo lado de dentro.
agora não sei senão andar,
e ando de olhos fechados
que os pés já sabem de cor
as pedras e as conchas
onde vou tropeçar.
alguém bate à porta,
mas não atendo mais ninguém,
os sentidos adormecidos,
reduzidos à tarefa instintiva de caminhar.
não moro mais aqui.
não moro em nenhum lugar.
eu sou a casa onde o frio resolveu parar.
eu sou o vento que desistiu de passar.
dou por mim a contar os dias,
hoje é o dia três,
tento combater o cansaço
que me vai cozendo os ossos
em banho-maria,
mas não muito, fico cansada.
esqueço-me de muitas coisas,
até das palavras,
coisa nunca antes vista.
se me perguntarem algo hoje,
vai ela responder-lhes,
dirá algo engraçado de que não me lembraria,
e que ouvirei assim ao longe,
como se estivessem todos dentro de água,
ou eu dentro de água,
não sei bem.
se alguém me gritar não vou perceber,
se alguém me bater, sorrio de volta
e agradeço, por me tornar a dor
visível, palpável e localizável...
talvez até me faça esquecer por instantes de sentir
este vento frio (ou será água?
será um rio?) que passa impreciso
entre o coração e os pulmões e desagua em nó
algures entre a garganta e a boca do estômago
e me impede de respirar.
às vezes páro e reparo no silêncio
tão grande que herdei,
e no tanto espaço tão vazio
de repentemente.
"não te perdi a ti, perdi o mundo"
e responde-me ela do fundo do rio,
a boca abrindo e fechando e grandes bolhas de ar a dar à costa,
que foi assim que escolhi.
reparo que a angústia passou,
já não te espero.
podes vir a qualquer hora,
em qualquer dia,
podes não vir mais
se tudo fôr demais para ti.
sempre me deixaste com as mãos cheias
de tudo o que tinha para dar.
fecho a porta da imaginação por onde sonhei
que virias
e procuro outras janelas
por onde sair
que já não sinto meu este lugar.
vou deixar pégadas pelas estradas...
não perdi ainda todo o peso,
nem as amarras que me prendem ao chão...
mas não corto mais as asas...
se um dia quiseres,
terás que arriscar o voo
desajeitado,
arriscado
do
coração.
terás que escrever-me
na pele outra canção,
virar-me do avesso
e mudar-me a cor
pelo lado de dentro,
(para con-dizer com a tua)

28 junho, 2006

Gente Perdida

"Eu fui devagarinho
Com medo de falhar
Não fosse esse o caminho certo
Para te encontrar
Fui descobrindo devagar
Cada sorriso teu
Fui aprendendo a procurar
Por entre sonhos meus

Eu fui assim chegando
Sem entender porquê
Já foram tantas vezes tantas
Assim como esta vez
Mas é mais fundo o teu olhar
Mais do que eu sei dizer
É um abrigo pra voltar
Ou um mar para me perder

Lá fora o vento
Nem sempre sabe a liberdade
A gente finge
Mas sabe o que não é verdade
Foge ao vazio
Enquanto brinda, dança e salta
Eu trago-te comigo
E sinto tanto, tanto a tua falta

Eu fui entrando pouco a pouco
Abri a porta e vi
Que havia lume aceso
E um lugar pra mim
Quase me assusta descobrir
Que foi este sabor
Que a vida inteira procurei
Entre a paixão e a dor

Lá fora o vento
Nem sempre sabe a liberdade
Gente perdida
Balança entre o sonho e a verdade
Foge ao vazio
Enquanto brinda, dança e salta
Eu trago-te comigo
E sinto tanto, tanto a tua falta

Lá fora o vento
Nem sempre sabe a liberdade
Gente perdida
Balança entre o sonho e a verdade
Foge ao vazio
Enquanto brinda, dança e salta
Eu trago-te comigo
E guardo este abraço só para ti"

Mafalda Veiga



(amanhã talvez escreva, hoje alguém escreveu por mim)

20 junho, 2006

Your Brain's Pattern




You have a dreamy mind, full of fancy and fantasy.
You have the ability to stay forever entertained
with your thoughts.
People may say you're hard to read,
but that's because you're so internally focused.
But when you do share what you're thinking,
people are impressed with your imagination.


You Are Cyclops




Dedicated and responsible,
you will always remain loyal to your cause.
You are a commanding leader - after all,
you can kill someone just by looking at them.

Power: force beams from your eyes


You Are a Dreaming Soul




Your vivid emotions and imagination
takes you away from this world
So much so that you tend to
live in your head most of the time
You have great dreams and ambitions
that could be the envy of all...
But for you, following through with your dreams
is a bit difficult

You are charming, endearing,
and people tend to love you.
Forgiving and tolerant,
you see the world through rose colored glasses.
Underneath it all, you have a ton of passion
that you hide from others.
Always hopeful,
you tend to expect positive outcomes in your life.

Souls you are most compatible with:
Newborn Soul, Prophet Soul, and Traveler Soul


19 junho, 2006

piquenicar

que vontade de piquenicar...
deitar-me na erva e respirar verde.
perder relógios, horas, perder-me.
sentir-te perto e não dizer nada.
respirar.
ver
de
novo.
ver-te.
mais que
ver saber-te,
saber-te a cor,
saber-te de cor,
saber-te o sabor.
saborear,
verde
...
..
.
o
tempo
que se perde,
parado
.
..
...
pára do
meu lado:
paro eu,
pára
tu
...
..
.
..
...
pára
para nada.
pára para estar
que estou cansada, tão cansada,
cansada de tão cansada de te esperar.

07 junho, 2006

sonho

eu sou aquela que arde
contra os relógios das horas.
e tu permaneces ao longo do frio
intocável, inabalável,
quase um desconhecido.
queria gritar-te,
rasgar-te essa quietude de lago
de águas escuras contra o branco
do muro.
queria morder o aroma
do teu pulso fechado,
mas não parece haver tempo
que nos faça existir.
tudo é fútil e vago.
tudo é triste e cansado.
dói-me a palavra desistir,
dói-me ainda mais insistir.
hoje não sei o que quero,
mas tenho dentro de mim
uma viagem que ainda não fiz
e esta ânsia de partir
e de chegar.
faço a minha casa no mundo,
encho os pés de pó
de tanto caminhar.
eu vivo de desejos tácteis
projectados contra a tua inércia
como num teatro de sombras chinesas.
posso ver o meu reflexo nos teus olhos
mas é uma ilusão pensar que estou lá.
se aproximar o meu braço do teu
estou quase certa de que vais desaparecer no ar.
não te sinto,
não te sei
e perco-me a cada passo
nesta direcção que nem sequer é a tua,
é só um sonho que eu inventei
e vejo em ti só o que de ti imaginei...

02 junho, 2006

Cada vez mais aqui

"Queres lutar com quem?
Para doer aonde?
Para ser o quê?
Achas que ninguém vê?

E p'ra quê fingir?
Porquê mentir e remar na dor?
Achas que ninguém vê?

Também eu queria parar...
chorar
cair... p'ra me levantar,
p'ra te puxar!
Te fazer sorrir...
não voltar a cair!...

Não me olhes assim!
Continuo a ser quem fui!
Cada vez mais aqui...
não dances tão longe..!
que eu já te vi...

Também eu queria parar...
chorar
cair... p'ra me levantar,
p'ra te puxar!
Te fazer sorrir...
não voltar a fugir!..."

Toranja
hoje mais um dia de catálise... penso: está quase a acabar...
hoje o telemóvel ficou sem bateria e fiquei feliz na minha incomunicabilidade...
(um dia na era pré-telemóveis)

hoje não te vi e encontrei-te em todo o lado
e desejei que me calasses na tua boca.
hoje quis beber-te essa tristeza
que trazes nos olhos
só para te ver voar,
só para te libertar.
hoje dir-te-ia:
faria em ti a minha casa,
mas tenho medo de te assustar.
















ao som da nina simone aqui:
"Trouble in mind, yes I'm blue
But I won't be blue always,
'Cause the sun's gonna shine
In my backdoor some day"

fotografia de filipe santos encontrada algures por aqui

01 junho, 2006

A Parábola do Talvez

"Era uma vez um camponês a quem fugiu um magnífico cavalo branco. Depressa se viu acompanhado dos vizinhos, condoídos pela perda. «Que grande azar tu tiveste», diziam-lhe eles. «Talvez», respondeu o homem.
Acontece que, no dia seguinte, o corcel branco estava de volta a casa, acompanhado por seis cavalos selvagens. «Olha, afinal tu tiveste foi muita sorte», disseram os vizinhos. E o camponês respondeu-lhes: «Talvez.»
Dias mais tarde, ao tentar montar um dos cavalos selvagens, o filho do camponês caiu e partiu uma perna. E lá vieram os vizinhos falar do azar, com o nosso homem a responder-lhes apenas «talvez».
Certo é que a aldeia foi, entretanto, assolada por militares que vinham recrutar jovens para a guerra. Como o filho do camponês tinha a perna partida, foi deixado para trás, escapando a uma morte quase certa. Lá vieram então os vizinhos falar em sorte, com o camponês a responder-lhes um simples «talvez».
E a nossa história continuaria, ad aeternum."

A Alquimia da dor

As salas de espera são sempre férteis em revistas muito desactualizadas... assim encontrei uma revista de janeiro de 2006 com um artigo intitulado Alquimia da dor... sobre um livro com o mesmo título de uma professora de Budismo chamada Tsering Paldron... aqui ficam algumas passagens do artigo...

"«para muita gente ser feliz é não sofrer. Por isso, ser feliz é impossível. Vivemos num mundo onde o sofrimento é omnipresente: não há recanto, país ou latitude onde possamos escapar-lhe. Não existe remédio, terapia ou droga que nos ponha ao abrigo dele, e irrompe na nossa vida quando menos esperamos». Para os budistas, «o grande paradoxo da existência é que, embora ninguém queira sofrer, a sobrevivência faz-se à custa do sofrimento»."
"Os ensinamentos de Buda tentam levar-nos a perceber que «a natureza do mundo é sofrimento, por isso é inútil esperar que a felicidade possa dele porvir. Não são os objectos - obtidos à custa de sofrimento - que nos podem dar felicidade. Não são os fenómenos - efémeros e passageiros - que nos podem dar serenidade. Se queremos alcançar a felicidade, temos de apostar no próprio espírito, que é onde nasce todo o sofrimento e toda a felicidade»."

"não é por acaso que os momentos de maior sofrimento são também os mais ricos em tomadas de consciência - o que indica que o sofrimento pode ter um efeito salutar e um papel importante na nossa vida"
"a grande alquimia do sofrimento reside no facto de, para o transformarmos, termos de nos deixar transformar por ele."

"quando o sofrimento surge, estamos prontos para procurar o culpado, acusar toda a gente, mover acções em tribunal. Procuramos assim alívio, mas na realidade só estamos a piorar a situação: «Se usarmos toda essa energia para aprendermos a dominar o nosso espírito e para evitarmos que este continue a destruir-nos, o resultado será mais positivo»"

"Nada neste mundo é permanente, e o budismo aconselha a pensar que todas as situações por mais terríveis que sejam, tem uma duração limitada. Acabam por passar. Pensar que uma dada circunstância negativa vai durar muito tempo faz-nos sofrer mais."

"«nem tudo é totalmente bom nem totalmente mau»"

"Outro dos nossos grandes erros, à luz da doutrina budista, é a rejeição do sofrimento. «Habituámo-nos ao happy ending e achamos que temos direito a ele. Ficamos frustrados quando a história acaba mal porque desde crianças nos prometem que seremos felizes para sempre. (...) «estaremos mais preparados para enfrentar o sofrimento se soubermos que ele existe, que não lhe somos imunes, que nada nos garante que não venha bater-nos à porta. O síndroma do happy ending leva-nos a reagir como meninos mimados nos momentos difíceis. Tornámo-nos seres tão frágeis que se alguém se oferecesse para ficar com o nosso sofrimento aceitaríamos sem hesitar».
O budismo propõe várias técnicas para nos ajudar a transformar o sofrimento. Mas a principal é nunca esquecermos que receberemos sempre o resultado das nossas acções - sejam elas positivas ou negativas. E que para conseguirmos alcançar a paz e a serenidade temos de saber controlar o nosso espírito - pois só assim conseguiremos uma verdadeira alquimia da dor.»"

(texto de Sofia Barrocas)


Pois, gostei tanto do artigo que não resisti... fez-me pensar... nesta sociedade onde a todo momento nos exigem que sejamos felizes (ou que nos divirtamos… porque existe muita confusão entre diversão e felicidade… quando a mim me parece que a felicidade andaria mais próxima da serenidade por exemplo) e ao mesmo tempo não nos preparam para lidar com a dor… nem com a nossa nem com a dos outros…
Porque ficamos geralmente tão embaraçados com a dor dos outros, com as lágrimas dos outros? Porque perdemos tanto tempo a pesar dores na balança e somos tantas vezes incapazes de perceber a dor do outro? Porque nos envergonhamos da nossa própria dor?

Parece-me que uma boa dose de aceitação (nota: aceitação é diferente de resignação) e perseverança devem ser úteis neste processo em que transformamos a dor… ou em que nos deixamos transformar por ela… seremos nós capazes desse atrevimento?… de não comprarmos a cultura da eterna euforia e de procurarmos a felicidade através de um caminho em que se conhece, aceita, e encara a dor com naturalidade e sabedoria?

A Tua Pequena Dor

"a tua pequena dor
quase nem sequer te dói
é só um ligeiro ardor
que não mata mas que mói

é uma dor pequenina
quase como se não fosse
e como uma tangerina
tem um sumo agridoce

de onde vem essa dor
se a causa não se vê
se não é por desamor
então é uma dor de quê?

não exponhas essa dor
é preciosa é só tua
não a mostres tem pudor
é o lado oculto da lua

não é vicío nem costume
deve ser inquietação
não há nada que a arrume
dentro do teu coração

certo é ser a dor de quem
não se dá por satisfeito
não a mates guarda bem
guardada no fundo do peito!"

by Carlos Tê/Rui Veloso
(Cabeças no ar)

29 maio, 2006

E por falar em loucura...

ainda que ser louco não implique ser estranho... e vice-versa


You Are 50% Weird


Normal enough to know that you're weird...
But too damn weird to do anything about it!

SÍSIFO

"Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças."

Miguel Torga, Diário XIII

26 maio, 2006

é quase noite.
o calor gastou-me até aos ossos
e a sensação de gripe consumiu o resto.
entro finalmente em casa: o nosso castelo nas nuvens que começamos pelo telhado...
está inacabado, mas tem já um quarto estofado azul céu, com o tecto aberto para a noite.
espero que arrefeça.
espero que a noite me adormeça.
espero sonhar contigo.
já tive um dia cheio da tua ausência.














fotografia de Sérgio Rodrigo daqui

25 maio, 2006

"a culpa é da vontade" é certo, mas a vontade não é suficiente para me re-inventar. sei quem não quero ser e aceito a inevitabilidade da nossa incompatibilidade circunstancial. por isso saio já, não sem dor, mas para evitar entrar lentamente numa espiral de ilusões e recriminações.
hoje estou febril, devo estar imunodreprimida, a garganta dói-me, tenho frio e calor intermitentemente... agora que penso, talvez seja por isso que consigo ser radical: é a febre a subir...
todos os dias sinto a urgência de estar e todos os dias aceito as tarefas insignificantes a que me propus e repito incansavelmente o mesmo caminho, como Sísifo empurrando a pedra montanha acima, interiormente revoltada com a minha inércia.
escolho a opção mais absurda, porque contrária aos meus instintos, porque racional e interiormente mais desgastante do que fazer de ti mais uma pedra no caminho. deixo-te cair. talvez um dia destes nos voltemos a cruzar e as nossa pedras sejam então mais leves e ocupem menos espaço permitindo-nos caminhar lado a lado e inventar outro caminho. talvez não. talvez seja só isto o que nos estava reservado: desencontros.
todos os dias enfrento a despedida. calo dentro de mim a asa ferida e esqueço-me de voar... um dia destes tenho que decidir se quero ser árvore ou ave... hoje não. em tempos conturbados não se tomam grandes decisões.
escolho o meu deserto, adopto a minha solidão. esvazio-o de palavras inúteis e passeio o meu silêncio por fora até ele fazer eco por dentro. tenho palavras demais e nada para dizer.



os ecos do livro, invadem o meu silêncio. talvez este livro já não seja sobre eles, mas sobre mim:



"Um postal. Uma caligrafia bem desenhada preenche o rectângulo.

Passo metade dos meus dias desesperada por não te poder tocar. O resto do tempo, sinto que não importa tornar ou não tornar a ver-te. Não é uma questão de moral, mas do ponto até onde chega a resistência de uma pessoa.

Nem data, nem assinatura."



"No deserto, um homem pode agarrar a ausência na concha das mãos, sabendo que tem nela um alimento mais precioso que a água. Conhece uma planta, próximo de El Taj, cujo coração, quando arrancado é substituído por um líquido cheio de virtudes medicinais. Todas as manhãs se pode beber uma quantidade de líquido de igual volume ao do coração ausente. A planta continua a florir durante um ano, até morrer de uma qualquer carência."


O doente inglês, Michael Ondaatje

A Culpa é Da Vontade

"A culpa não , não é do Sol
Se o meu corpo se queimar
A culpa não, não é do Sol
Se o meu corpo se queimar
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te abraçar

A culpa não, não é da praia
Se o meu corpo se ferir
A culpa não, não é da praia
Se o meu corpo se ferir
A culpa é da vontade
Que tenho de te sentir

A culpa é da vontade
Que vive dentro de mim
E só morre com a idade
Com a idade do meu fim
A culpa é da vontade

A culpa não, não é do mar
Se o meu olhar se perder
A culpa não, não é do mar
Se o meu olhar se perder
A culpa é da vontade
Que eu tenho de te ver

A culpa não, não é do vento
Se a minha voz se calar
A culpa não, não é do vento
Se a minha voz se calar
A culpa é do lamento
Que sufoca o meu cantar

A culpa é da vontade
Que vive dentro de mim
E só morre com a idade
Com a idade do meu fim
A culpa é da vontade"

Humanos

24 maio, 2006

hoje um dia cheio de horas em silêncio até me conseguir calar.
o sono queria abraçar-me, mas não deixei.
o café focou-me num só ponto e consegui finalmente
ouvir o silêncio pelo lado de dentro.



fotografia de Nelson Silva retirada daqui

Pode alguém ser quem não é

"- Senhora de preto
diga o que lhe dói
é dor ou saudade
que o peito lhe rói
o que tem, o que foi
o que dói no peito?
- É que o meu homem partiu

Disse-me na praia
frente ao paredao
“tira a tua saia
da-me a tua mão
o teu corpo, o teu mar
teu andar, teu passo
que vai sobre as ondas, vem”

Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?

Seja um bom agoiro
ou seja um mau pressagio
sonhei com o choro
de alguém num naufragio
nao tenho confiança
já cansa este esperar
por uma carta em vão

“por cá me governo”
escreveu-me então
“aqui é quase Inverno
aí quase Verão
mês d’Abril, aguas mil
no Brasil também tem
noites de S. João e mar”

Pode alguém ser quem não é?

É estranho no ventre
ser de outro lugar
e tão confusamente
ver desmoronar
um a um sonhos sãos
duas mãos
passando da alegria ao desamor

Pode alguém ser livre
se outro alguém não é
a algema dum outro
serve-me no pé
nas duas mãos,
sonhos vãos, pesadelos
diz-me:
Pode alguém ser quem nao é?"

Sérgio Godinho
You Belong in Amsterdam

A little old fashioned, a little modern - you're the best of both worlds. And so is Amsterdam.
Whether you want to be a squatter graffiti artist or a great novelist, Amsterdam has all that you want in Europe (in one small city).

23 maio, 2006

Desejos

e pensar que eu só queria
coisas poucas, pequenas
e prováveis:
gelados à beira-mar plantados,
piqueniques à luz do dia,
segredos doces,
doces embalos,
abraços apertados,
chuvas de verão,
pijamas velhos,
lençóis lavados,
ouvidos atentos
ao tic-tac do coração,
músicas leves,
momentos raros,
murmúrios breves,
sorrisos claros,
silêncios prolongados
na palma da mão...
a tua mão na minha,
anjos distraídos,
desejos puros,
sumo de limão.




















fotografia de Pedro Gonio retirada daqui
"«Todo Fluye», dijo Heráclito. Todo está en movimiento y nada dura eternamente. Por eso no podemos «descender dos veces al mismo río», pues cuando desciendo al río por segunda vez, ni yo ni el río somos los mismos."

El mundo de Sofía, Jostein Gaarder

até as esperas, momentos em que aparentemente paramos (às vezes
porque precisamos, às vezes porque não sabemos o que fazer,
às vezes porque os outros precisam e nos afastamos
lentamente até existir ar suficiente entre nós
para podermos ambos respirar) são
momentos de movimento,
lento movimento
do tempo
que
passa
sem cessar.
Parar para aprender
a estar em silêncio. Parar para
deixar passar as nuvens e voltar a ver claro.
Parar para olhar o sofrimento de frente e procurar
nele um caminho de renovação. Parar para crescer por dentro.
Parar para me tornar um mundo melhor para alguém.

Parar dificilmente será estar parado...
no fim, nem eu nem o rio seremos os mesmos.

22 maio, 2006

Hoje ao som dos Toranja:

"Quebramos os dois

Eu a convencer-te que gostas de mim,
Tu a convenceres-te que não é bem assim.
Eu a mostrar-te o meu lado mais puro,
Tu a argumentares os teus inevitáveis.

Eras tu a dançares em pleno dia,
E eu encostado como quem não vê.
Eras tu a falar para esconder a saudade,
E eu a esconder-me do que não se dizia.

Afinal...
Quebramos os dois afinal.
Quebramos os dois...

Desviando os olhos por sentir a verdade,
Juravas a certeza da mentira,
Mas sem queimar de mais,
Sem querer extingir o que já se sabia.

Eu fugia do toque como do cheiro,
Por saber que era o fim da roupa vestida,
Que inventara no meio do escuro onde estava,
Por ver o desespero na côr que trazias.

Afinal...
Quebramos os dois afinal.
Quebramos os dois afinal.
Quebramos os dois afinal.
Quebramos os dois...

Era eu a despir-te do que era pequeno,
Tu a puxar-me para um lado mais perto,
Onde se contam histórias que nos atam,
Ao silêncio dos lábios que nos mata.

Eras tu a ficar por não saberes partir,
E eu a rezar para que desaparecesses,
Era eu a rezar para que ficasses,
Tu a ficares enquanto saías.

Não nos tocamos enquanto saías,
Não nos tocamos enquanto saímos,
Não nos tocamos e vamos fugindo,
Porque quebramos como crianças.

Afinal...
Quebramos os dois afinal.
Quebramos os dois afinal.
Quebramos os dois...

É quase pecado que se deixa.
Quase pecado que se ignora."

menti. estou presa no presente.
não tenho outro momento que não seja aqui.
não tenho outro lugar que não seja agora.


fotografia de Guilherme Limas retirada daqui

20 maio, 2006

A song unsung

Do you see?
Are you for real?
Can you hear?
Will you be here?
Can you feel?

Is pain in vain?

I’m holding on to you
Quietly waiting in line,
Someday I’ll wake up
And feel fine,
Won’t I?

Tonight I’m all alone
With my fears
Tonight I touch the bone
With my tears
Tonight I miss your smile
and the rain,
and that day
when all was right
and clear.

Are you away
Just for a while?
Or are you always out of time?
I would offer you my day though
None of my days are mine.
I could repeat myself
And ask again:

Can you feel?
Will you be here?
Can you hear?
Are you for real?
Do you see
I can’t hold still?

I keep asking
I keep trying
I keep breading
I keep crying
I keep bleeding
I keep dying

I keep running
Everyday,
Trying to understand what you say
When you say nothing.
I keep hoping that your skin
Or the wind
Will make me feel real...
someday...
somewhere...
somehow...
someway...

19 maio, 2006

Leituras II

tão pouco tempo e tanto que contar.
decido continuar a citar os livros que ando a ler, como que abrindo portas de um vasto corredor... tantos quartos por desvendar.


"-Mitch não me permito mais auto-piedade do que isso. Um bocadinho cada manhã, umas poucas lágrimas, e pronto.
Pensei nas pessoas que conhecia que passavam muitas das suas horas de vigília a sentir pena de si mesmas. Que útil seria colocar um limíte de auto-piedade para cada dia. Apenas uns minutos lacrimosos, e depois vamos à vida. E se Morrie conseguia fazê-lo com a sua horrível doença...
-Só é horrível se a vires assim - disse Morrie - É horrível ver o meu corpo definhar lentamente até se tornar em nada. Mas também é maravilhoso todo este tempo para dizer adeus.
Sorriu.
-Nem toda a gente tem tanta sorte."
As Terças com Morrie, Mitch Albom


"Vivera um tempo de guerra em que tudo o que dava a ver aos que o rodeavam era mentira. Sentira-se como alguém escondido num quarto às escuras, a imitar o gorjeio de um pássaro.
Mas aqui viam-se despojados da sua pele. Não conseguiam imitar coisa nenhuma excepto aquilo que eram. Não havia outra defesa senão a de procurar a verdade nos outros."
O doente Inglês, Michael Ondaatje














às vezes no comboio...
ou na rua alguém ao passar...
mas principalmente
quando alguém se detém à porta
sem entrar, páro por instantes
de respirar, e desejo que sejas tu...
quando reparo que não és
(embora às vezes me pareça
que em alguns um canto do teu olhar
ou um quarto do teu sorriso)
volto a respirar devagar,
às vezes por vários dias
ou por várias horas,
ou até voltares a passar
nos olhos, no sorriso, ou na voz de alguém.


fotografia de Elisandra Amoedo encontrada aqui

Bom dia

Hoje uma sexta-feira diferente porque mais parecida com os outros dias. como o curso de catálise começa às 11h podia ter aproveitado para dormir até mais tarde, mas chego ao lab. à hora do costume para ainda fazer umas "coisinhas" antes de entrar nesse outro mundo. No comboio leio o livro do costume, continuo a viagem ao interior do mundo das personagens. No caminho os meus pés ressentem-se da sola dura das sandálias, mas sabe-me bem o ar frio nos pés (pela primeira vez este ano) e é como se os meus pés descobrissem hoje o caminho que eu já conheço há muito mas eles não. No caminho caras que já conheço e outras novas e em cada uma adivinho os pequenos grandes desafios deste novo dia, naquela criança, naquela professora, naquele pai, naquele jovem, naquele velho. Em cada um pressinto as suas "pequenas" dores, os seus grandes amores, os seus medos assustadores. Cada um vibrando a uma diferente frequência a promessa deste novo dia, cada um contribuindo para o silencioso ruído da rede humana da cidade, como se não se tocassem, como se não se vissem, como se não chorassem as mesmas lágrimas às vezes.
Hoje um novo dia, com as suas chegadas e partidas, as suas conquintas e derrotas, as suas tristezas e alegrias.
Façam deste dia, um bom dia. Como dizia um amigo no outro dia, à partida os acontecimentos são nulos, tudo depende do que fazemos com eles...

18 maio, 2006

Leituras

ultimamente ando numa fase de leitura
(imagine-se se andasse numa fase de escrita)
por isso em vez de escrever, hoje deixo aqui duas passagens, uma de cada livro que ando a ler (pois é ando a ler dois livros... mas com regras... um só leio no comboio, o outro só leio em casa, antes de dormir, agora qual é qual?... não vou desvendar)


"-A coisa mais importante na vida é aprender como dar amor, e como deixá-lo entrar.
A sua voz baixou para um sussurro.
-Deixa-o entrar. Nós pensamos que não merecemos amor, pensamos que, se o deixarmos entrar, nos tornamos moles demais. Mas um homem sábio chamado Levine disse-o bem. «O amor é o único acto racional.»
Repetiu-o cuidadosamente, pausadamente, para fazer efeito.
-«O amor é o único acto racional»."
As Terças com Morrie, Mitch Albom


"-Julguei que ia morrer. Queria morrer. E julguei que se fosse morrer ia morrer contigo. Rapazes como tu, jovens como eu... vi morrer tantos ao pé de mim durante o ano passado! Não tive medo nenhum. Não foi coragem o que ainda agora me fez aqui ficar. Pensei com os meus botões: Temos esta casa, esta erva, devíamos ter-nos deitado juntos, abraçados, antes de morrer. Apetece-me tocar-te nesse osso do pescoço, na clavícula, que parece uma asa pequena e dura debaixo da tua pele. Sempre gostei de corpos da cor dos rios e das pedras, da cor do olho castanho de uma susana, conheces essa flor? Já viste alguma? Estou tão cansada, Kip, só me apetece dormir. Apetece-me dormir debaixo desta árvore, de cara encostada à tua clavícula, apetece-me fechar os olhos, sem pensar em mais ninguém, encontrar um nicho de árvore, trepar lá para dentro e dormir."
O doente inglês, Michael Ondaatje

17 maio, 2006

lagos e furacões...

Como uma pedra ao cair num lago, parece coisa pouca, mas provoca ondas que percorrem todo o lago até desaparecerem e deixarem tudo aparentemente igual, basta uma palavra, um des-olhar, um des-amor para abalar o estado fundamental de equilíbrio e deixar alguém num estado menos estável, embora aparentemente igual, para quem está de fora.
As mulheres, de uma maneira geral, são peritas em entrar nestes estados meta-estáveis... não se vêem por fora, são indecifráveis, indetectáveis, mas coitado do triste que agitar a superfície da água, ainda que seja, como na maior parte das vezes é, sem intenção...
Claro que, há dias e dias, há dias em que várias pedras não fazem nada, e outros em que um arranhão é sentido com a intensidade de um choque frontal entre dois elementos (aqui falta-me a palavra, será objectos,... sei lá, veículos... nada me soa bem) a grande velocidade... toda a energia potencial acumulada no interior do lago é rapidamente convertida em furacão...
O tal azarado de à bocado acha a reacção exagerada claro está, mas se o disser é capaz de piorar a sua, já desfavorável, situação. Enfim... as relações humanas não são fáceis. É recomendado que se sirvam com abundância de paciência e de perdão...
Não esquecer que cada caso é um caso, e que não há uma resposta mágica que sirva para todos os furacões... há os que se sentem bem com o silêncio e os que não o suportam, há os que se acalmam com uma postura submissa e os que sentem nela uma provocação...
Para os que tiverem que se confrontar com esta situação, 3 conselhos sempre úteis: sair a correr não é a melhor solução; dar atenção/ouvir (sem olhar para o relógio/telemóvel, claro, mas isto é óbvio... não é?) não custa muito e costuma ter efeitos surpreendentes; não mentir, mas também não abusar da sinceridade... há formas melhores e piores de dizer as coisas. O que é preciso é inspiração...
Com o tempo também nos vamos conhecendo melhor a nós próprias e conseguimos detectar os sinais da tempestade a tempo de a evitar... ou então não... (as hormonas não ajudam...)
Seja como fôr, as razões são quase sempre pequenas para ficarmos zangados com alguém muito tempo. O rancor é uma planta que se infiltra no coração se lhe dermos espaço...
Há tantas coisas melhores para fazer, comer gelados, passear à beira-mar, "perder" as horas a conversar... não vale mesmo a pena perdermos tempo com coisas mesquinhas e pequenas. convém começar já hoje a perdoar (porque perdoar pode demorar... quanto mais cedo se começar melhor)

16 maio, 2006

Hoje

As minhas tentativas de limpar o eléctrodo foram infrutíferas,
não me obedece.
Estou cansada, um cansaço difícil de contar, impossível de localizar.
Por isso deixo o laboratório no mesmo lugar (sei que estará cá amanhã)
e desligo o computador.
Amanhã encho-me de paciência, respiro fundo e começo tudo de novo.
Hoje vou encontrar o vento, hoje vou ver o mar.

15 maio, 2006

P.S.

gosto de portos seguros,
gosto de conduzir de manhã cedo,
gosto de andar à chuva,
gosto de banhos de água fria,
gosto de pequenos pormenores,
gosto de provocar,
gosto de arriscar,
gosto de abraços apertados,
gosto de dançar de olhos fechados,
gosto de sonhos grandes,
gosto de gavetas de tralha,
gosto de ler um livro até ao fim,
gosto de albuns de fotografias,
gosto de lágrimas disfarçadas,
gosto de famílias barulhentas,
gosto de teatro, cinema, música e poesia,
gosto de viver,
gosto de pensar um dia de cada vez,
gosto do mar,
da terra,
mas principalmente,
gosto de gente.
gosto de me molhar quando vou à fonte buscar água,
gosto de sumo de cenoura e de queijo com quase tudo,
gosto de vir a pé para a faculdade,
e de parar às vezes no meio do caminho simplesmente para estar,
gosto de observar as pessoas que passam por mim sem olhar,
gosto de ouvir certas músicas quando estou triste,
gosto de escrever, sobre muitas coisas, ou sobre quase nada,
gosto de conversas inofensivas, às vezes,
e de filmes "de gaijas" (que fazem chorar)
gosto de chocolate e de gelado e de iogurte com bolachas,
gosto sentir o vento frio na cara quando me dói a cabeça de não perceber,
gosto de me rir das conversas de sempre e das piadas de sempre
dos meus amigos,
gosto de conversar sobre questões existenciais que na prática não levam a lado nenhum,
e estão tão tão tão longe da vida real,
gosto de fazer certas coisas sozinha,
gosto de ouvir a nina simone a cantar,
gosto das piadas do luís
e dos palavrões que ele diz quando está irritado,
gosto da gargalhada da daisy
e do seu coração enorme,
gosto de ouvir a isabel falar das suas paixões,
e de a ver dançar,
gosto das conversas de pé de orelha com a susana e a ana luísa,
da capacidade da ana se impor devagar,
e do instinto maternal da susana,
gosto das idas para coimbra com o fred e o joão
(embora passe a viagem toda a dormir)
gosto de discordar das teorias do joão,
e da sua postura séria ao aconselhar,
gosto da sabedoria silenciosa e prática do fred,
gosto das loucas loucuras do rui,
dos comentários incisivos da gabriela
e da presença serena da andreia,
gosto desta família desordenada que somos,
gosto quando nos tornarmos todas donas de casa de faz de conta em chaves,
gosto de beber o vinho do porto com os rapazes,
gosto dos lanches com a denise e o miguel,
das mil viagens que planeamos juntos
e das conversas enormes e que às vezes parecem não chegar a nenhum lugar,
gosto da luz do miguel
e da objectividade e clarividência da denise,
gosto de passeios à beira-mar,
gosto de conversas fora de horas,
gosto de capuccino, chocolate quente e cházinho
(nota: não é tudo junto, é cada um a seu tempo)
gosto de livros e filmes com profundidade,
gosto de conseguir fazer pequenas coisas que tinha decidido fazer,
gosto da sensação de dever cumprido e consciência tranquila,
gosto do cheiro do campo e do canto dos pássaros,
gosto de andar de bicicleta ao fim da tarde,
gosto de ti embora não o saiba dizer,
gosto de querer estar perto mesmo quando não tenho nada para dizer,
gosto de decisões difíceis, que de tão difíceis, não são decisões
são longos processos de descoberta de nós próprios e dos outros,
gosto desta teia de relações que se estabelecem de dentro para fora
como imensos braços que estendo em todas as direcções
como uma estrela do mar,
gosto de conhecer a minha solidão e de saber que ninguém a vai preencher,
gosto de acreditar que há um espaço onde duas solidões se podem tocar,
gosto de pessoas da aldeia, com a sua simplicidade à flor da pele,
gosto de me rir na cara da tristeza quando ela me ronda devagar,
gosto de me descobrir capaz de abdicar,
gosto de procurar o essencial,
gosto de liberdade responsável,
gosto de ser original,
gosto de não gostar de estar na moda,
e de não seguir a corrente,
gosto de "não curtir a vida",
mas sim levá-la a sério,
gosto de ouvir histórias de pessoas mais velhas,
gosto de gelados, faça chuva, ou faça sol,
gosto de pequenos rituais que me fazem sentir em casa,
gosto de estar fora de casa...
e depois voltar,
gosto das ideias claras do P. jorge,
e da sua constante correria contra o tempo,
e da forma delicada com que nos faz sentir próximos e família,
gosto da postura tímida e maternal da helena,
gosto da forma como a beatriz entrelaça as mãos quando está a falar,
gosto da ânsia de fazer e de contar e de avançar do paulo,
gosto da companhia da ângela e da sua vontade de querer estar,
e da forma elegante como se aproxima devagar,
sempre desejando ajudar,
gosto de ter uma família em cada lugar,
gosto de não falar muito e de ficar até tarde,
pelo simples prazer de estar,
gosto de cantar, à noite, à tarde, ao acordar...
gosto da profundidade da catarina,
gosto da força interior da antónia,
da sua capacidade de concretizar sonhos pequenos e grandes,
um de cada vez,
gosto da ingenuidade do manel,
do romantismo do pai,
da voz e da vocação definida da teresa,
da transparência da sara
e da força da mãe,
gosto daqueles de quem me esqueço,
daqueles que passaram e não voltaram,
e até daqueles que ainda não conheço.

12 maio, 2006

alguém varreu o pó
das nuvens
e o sol pintou de ruivo
a terra,
como se o mesmo sangue corresse
no sol,
na terra
e no coração dos homens.

assim, esquecida de morrer
a tarde ardia,
de-va-gar.

(como não estavas lá guardei o instante no bolso para que o pudesses ver)














10 maio, 2006

Urgentemente

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade
na solidão das coisas inevitáveis sinto a urgência da vida. o dia de hoje nao se repetirá amanhã. o que nao cantei, ou não ri ou não chorei hoje, nao vou cantar ou rir ou chorar amanhã. hoje há todo um mundo que se acaba. posso adiar-me? posso adiar-te a ti? no entanto dir-me-ás talvez, e com razão, que não é justo que te invada a paz com a minha dor, ou que grite sem razão gosto de ti. pois se está tudo tão bem assim. nesta aparente paz de pequenos passos sempre repetidos. neste lugar antigo, tão antigo que já nao sei bem se não sou eu já que o trago comigo.
hoje é mais um dia em que nao farei.
queria eu ser capaz de te dizer: vai-te embora! vai-te embora agora! não venhas amanhã, não venhas à mesma hora, não venhas mais. se fores amanhã cairei dois palmos de ar, daqui a um mês cairei do quarto andar.
queria eu poder dizer-te: vai-te embora já! mas tenho medo que o consigas fazer.
por isso hoje não faço nada e amanhã nada farei. e no entanto esta urgência cá estará para me roer um pouco mais. esta urgência de viver que não se cala, que não se pára, que não se vai.

09 maio, 2006

O meu avô tem mãos
Que sabem de cor a cor da terra.
O meu avô tem orelhas grandes
Porque foram crescendo lentamente
A vida inteira
O meu avô sabe fazer crescer uma planta noutra planta,
Sabe o tempo de semear milho
E o tempo de apanhar batatas.
O meu avô conhece as casas e os campos
E o nome das pessoas que os habitam.
O meu avô conhece cada alguém
Pela árvore genealógica: todos são
Filhos do tio do primo de não sei quem.
O meu avô antecipa o tempo que vai fazer
No ano inteiro, pelo tempo que faz
Nos últimos dias de Dezembro e nos primeiros de Janeiro.
O meu avô quando diz ai, não diz ai,
Diz Aaaaaaaaaaaida, porque talvez um dia, não sei,
Alguma empregada chamada Aida...
O meu avô chega sempre cedo,
E vai sempre à missa à mesma hora.
O meu avô vai a concertos que não percebe muito bem,
(E senta-se ao meu lado)
Mesmo que as vezes esteja cansado demais.
O meu avô sabe que ramo da videira deixar
E que ramo da videira podar.
O meu avô conhece a voz de dor
E a voz de fome dos animais.
O meu avô sabe fazer vinho das uvas,
Leite das vacas, frutos da terra
E outras magias mais.
O meu avô...

04 maio, 2006

a morte espreita-nos a cada esquina, tão certa como o facto de estarmos vivos, tão certa como respirar. "alguém morre de fome a cada 3 segundos" diziam no outro dia... uma frase impossível de racionalizar, mais ou menos como dizer que o universo é infinito e está em expansão... quantas vezes passaram 3 segundos desde que comecei a escrever? quantas vezes passaram 3 segundos desde que começaste a ler?
a maior parte do tempo nem nos lembramos dela, preenchemos o tempo com muitas pequenas coisas pouco importantes e deixamos outras tantas pequenas coisas às vezes mais importantes por fazer.
então de repente ela surge mais perto, efectiva ou apenas rondando... alguém mais ou menos conhecido, mais ou menos próximo... e torna tudo relativo, faz voltar questões que se tenta esquecer ou evitar...
será que o que faço me realiza? será que estou a fazer as escolhas certas? será que estou a dar importancia às coisas certas?
será que vale a pena correr tanto?
hoje está sol. talvez devesse sair mais cedo e andar a pé. talvez devesse increver-me no ioga ou em aulas de danças de salão. talvez devesse visitar alguém que não vejo há muito, ou escrever uma carta que ando a adiar. talvez devesse parar para pensar e mudar de direcção...
hoje não é cedo demais para mudar

02 maio, 2006

"Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser até um lugar sem nada de especial
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida e que cada um de nós
leve consigo o outro deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: "Vem comigo!", e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caiem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e por
isso, de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor de facto pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros."

Nuno Júdice

01 maio, 2006

crossing the desert of spectroscopy



(até já consigo ver nestes cactos uma espécie de multipletos mal resolvidos...

o espectrómetro devia ser um fiat 600... se fosse um ferrari...)

29 abril, 2006

um dia verei a minha vida como um rio... seguindo calmamente pela planície, ou enfrentando terrenos acidentados? desviando-se de grandes montanhas, ou rasgando vales por entre elas? correndo sem nunca se deter, ou retida por barragens e espraiando-se em albufeiras? seguindo um caminho solitário, ou cruzando-se e misturando-se com afluentes e ribeiros? crescendo passo a passo, ou aniquilando-se em sub-missão num rio maior?


um dia chegará o mar (porque é sempre o mar que chama o rio e não o rio que chega ao mar). nesse dia verei a minha vida como um rio, hoje ainda não.

28 abril, 2006

"Mostra-me o teu lado lunar"


Imagem da lua de Saturno: Enceladus

Credit: NASA/JPL/Space Science Institute

há flores que nascem no chão... pequeninas e isoladas,
quase parecem perdidas no meio da vegetação...

há outras que nascem no ar, suspensas...
como quem se prepara para voar,
mas não se atreve a arriscar....

para encontrar umas e outras é preciso procurar,
para as re-conhecer é preciso parar,
para as ver como elas são é preciso tornar-se próximo
devagar... como quem não tem pressa,
como quem não tem nenhum outro lugar melhor para estar,
a não ser ali, a aprender a olhar com olhos novos,
a aprender a amar com um coração novo.

26 abril, 2006


hoje sonhei contigo acordada
sentada no sotão de uma casa inacabada

25 abril, 2006

sede

Atravessando o deserto dos espectros de IV e de RMN, eis que me surges por entre os dedos inevitável. Todos nós somos sharp singletos... até nos aproximarmos o suficiente para sentirmos o efeito dos núcleos vizinhos. E de repente o campo magnético sobre mim aplicado é drasticamente afectado pela tua presença na vizinhança e dou por mim inexplicavelmente desprotegida.

I
Toda a água me atravessa
e nenhuma se detém
e por isso a sede intacta
intacta permanece.
É quando a noite cai
que a máscara me trai
e revela que te espero
ainda, como se te conhecesse
por inteiro, e tu soubesses
já de cor o meu poema.
II
Agora que do futuro vieste
e me sonhaste
já não me chega
esta ausência de ti em flor.
O meu desejo mergulha
no mistério permanente
que une a dor do teu olhar
ao canto do teu sorriso.
Deixa-me só ficar calada devagar
na tua boca,
enquanto nos meus olhos
nasce a aurora do teu espanto.
Querer perder-me assim
é vislumbrar,
na semente frágil e oca do sonhar,
a árvore mais esquecida do paraíso.

20 abril, 2006

"You're just too good to be true.
Can't take my eyes off you.
You'd be like Heaven to touch.
I wanna hold you so much.
At long last love has arrived
And I thank God I'm alive.
You're just too good to be true.
Can't take my eyes off you."

19 abril, 2006

uma frase que encontrei aqui, já há algum tempo...
como sempre as palavras demoram a fazer sentido, demoram o tempo que precisam, como o tempo que os frutos precisam de amadurecer depois da flor ter caído. e o tempo não se apressa, por muito que pareça às vezes correr e outras vezes parar... o tempo demora o tempo que se quer demorar, até que em nós as flores possam cair e os frutos amadurecer...
não adianta tentar colher o fruto antes do tempo. é preciso aprender a esperar devagar.

"o que eu gostava
era de poder falar na tua boca
para que as tuas palavras fossem minhas
e pudesse permanecer silencioso ao teu lado."


pedro paixão

17 abril, 2006

Caminhos (2)

"«Ama e faz o que quiseres». Esta famosíssima frase de santo Agostinho tem que se lhe diga. É que quem ama, só pode fazer o bem. E querer o bem é muito exigente. Não é «ama e faz o que te apetece», o que seria uma contradição. É antes: «Se amares de verdade, vais saber escolher o bem e o melhor.»"


Vasco Pinto Magalhães, em "Não há soluções, há caminhos"

Caminhos (1)

"Um bom coração é o que entende a alegria e a tristeza dos outros. É o que entende, por dentro, e tem coragem para lutar e sofrer pelo bem do outro. O bom coração vê o que é bom para o outro e faz tudo para o conseguir. O bom coração vê, entende, promove. E fica a bater sozinho se a liberdade do outro o pedir."


Vasco Pinto Magalhães, em "Não há soluções, há caminhos"

14 abril, 2006

"porque nos criaste para Ti e o nosso coração vive inquieto,
enquanto não repousa em Ti" (Santo Agostinho)

Retrato


Se eu soubesse pintava o teu retrato...
como nao sei, procuro em vão nas palavras
uma imagem que te descreva...
mas elas enrolam-se, desdobram-se e nao sobra nada.
talvez às vezes até me atreva
a tentar ver-te de madrugada...
entre uma estrela e outra me escondo ainda,
parece sempre tarde para te esperar
e demasiado cedo para te falar...
por isso fico escondida a ver-te enquanto passas
e essa imagem tua guardo, e um sorriso
que me ilumina as noites cheias
de horas e de ausências,
e me aquece as mãos quando se sentem
demasiado frias e vazias de ti.


Imagem: Galatea of the Spheres, Salvador Dali

10 abril, 2006

Espera

há poucos poemas que sei de cor... este sei-o há anos. continua a ecoar em mim ao longo do tempo. há dias em que soa tão certo como o tic-tac do relógio com tudo o que há de inevitavél nele, e talvez por isso exista algo de paz nessa eterna angústia. a paz da inevitabilidade. a paz não da resignação, mas da aceitação daquilo que é, e daquilo que se é...

este poema recorda-me o principio da "viagem" que me levou à Póvoa e que me faz continuar por lá no seio de uma família nova. por isso aqui fica uma dedicatória a essas famílias que escolhemos e ajudamos a construir, essas famílias que no princípio são como vasos fora de casa e parecem tão desprotegidas, mas depois vão ganhando raizes e tornam-se outras casas fora de casa.


Espera

Horas, horas sem fim,
pesadas, fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

Eugénio de Andrade

09 abril, 2006

Ursa Maior

o dia acabou há muito, mas procuro ainda, não sei porquê procuro ainda. talvez se parasse de procurar encontrasse. talvez se me calasse ouvisse. talvez...
talvez todas estas vozes já não sejam minhas mas da noite, a noite em mim, a noite sonâmbula pela casa a pedir guarida.
vou fazer-lhe a cama de lavado, aconchegar-lhe o cobertor, sentar-me à sua cabeceira a vê-la dormir.


"Olho o céu sem fim à espera de ver a mesma estrela que tu vês"

Guardado no Coração Álvaro Magalhães

08 abril, 2006

Persistência

há sempre um momento em que a luta parece inglória
e a solidão é este cálice prateado de água salgada
que me alimenta a sede

fotografia de José Lopes retirada daqui

do
you
see
me?


fotografia de Carlos Vilela retirada daqui


Ventos do Oriente,
Ventos do Ocidente


Cuadro Flamenco

Al-Mahira
o orgulho ferido do flamengo

o sabor agridoce da sedução

o som do coração a bater ao compasso descompassado da paixão

onde arde esse fogo

ainda

07 abril, 2006

onde é que a intersecção se torna diferente de zero?
quando é que o todo se torna maior que a soma das partes?


The Kiss, Gustav Klimpt

06 abril, 2006



I'm "lost in translation".
walking trough the rain without being touched.
walking trough the crowd without being seen.


sinto-me algemada na inércia dos dias.
que vontade louca de soltar amarras e voar na tua direcção!...
triste memória à minha que vai perdendo por diluição
os traços do teu sorriso.
que vontade absurdamente feliz de te abraçar a solidão.


hoje ao som dos kings of convenience aqui


05 abril, 2006

segredo

percorro a angústia com dedos de papel... dobra-se aqui, desdobra-se ali. estou à procura? estou parada? estou a caminho ou estou sentada? em quantos medos se desdobra o medo? esconde-te em mim, no meu enredo. não digas nada, não tenhas pressa,... fica só aqui calado, a gastar comigo esta nuvem de oxigénio. dá-me a mão e não digas nada. será o nosso segredo.

04 abril, 2006

Cintura de Orion











a ouvir "stop crying your heart out" aqui






03 abril, 2006

des-encontros

foi inesperado encontrar-te... por momentos cheguei a pensar: estou curada... parece-me agora que me limitei a olhar noutra direcção, mas no fundo, padeço ainda da mesma doença de sempre.
aqui fica a letra da banda sonora de hoje...

Tales of a Scorched Earth

Farewell goodnight last one out turn out the lights
And let me be, let me die inside
Let me know the way from of this world of hate in you
Cause the dye is cast, and the bitch is back
And we're all dead yeah we're all dead
Inside the future of a shattered past
I lie just to be real, and I'd die just to feel
Why do the same old things keep on happening?
Because beyond my hopes there are no feelings
Bless the martyrs and kiss the kids
For knowing better, for knowing this
Cause you're all whores and i'm a fag
And i've got no mother and i've got no dad
To save me the wasted, save me from myself
I lie just to be real, and I'd die just to feel
Why do the same old things keep on happening?
Because beyond my hopes there are no feelings
Everybody's lost just waiting to be found
Everyone's a thought just waiting to fade
So fuck it all cause I don't care
So what somehow somewhere we dared
To try to dare to dare for a little more
I lie just to be real, and I'd die just to feel
Why do the same old things keep on happening?
Because beyond my hopes there are no reasons

Smashing Pumpkins